Quando você pode fazer qualquer coisa, o que você faz?

Eu comecei a trabalhar quando tinha 16 anos. Antes disso, fazia zine e vendia pra minha prima por R$0.50, o que me dava dinheiro suficiente para comprar 2 "Moranguetes" (ah, a vida na periferia no final dos anos 90…)

Minha mãe e meu irmão sempre fizeram o que podiam e o que não podiam para terem certeza que eu seria o melhor que pudesse ser. Pagaram uma escola particular que era de baixo nível, mas me ajudou a ter mais foco nos estudos, me colocaram para aprender a programar quando eu fiz 14 anos e foi assim que tive meu primeiro emprego. Depois disso, a realidade me pegou de jeito. Quando você mora com seus pais e precisa trabalhar para sustentar seus caprichos, assim que você conquista o primeiro emprego você entende que não tem para onde correr, vai ter que pegar um emprego atrás do outro se quiser continuar comprando o CD na Livraria Cultura e se quiser continuar indo ver um filminho no shopping no final de semana. Sua mãe vai te ajudar se te vir passando fome, mas esse vai ser o limite da contribuição financeira dela na sua vida a partir de então. Isso, claro, se você é da quebrada. Se você recebe mesadinha pode fechar a aba, leite com pêra.

O que isso implica no futuro é que você vai acabar se rendendo ao desespero de ter um emprego, seja ele qual for. Muitas vezes vai estar presa em uma profissão mal escolhida e vai passar os seus "vinte e poucos anos" sem conseguir se reinventar. Conheço pessoas incríveis que, perto dos 30, começaram a vida de novo, com medo do desemprego, tentando por pura coragem e bravura e às vezes cansaço de acordar cedo para seguir uma vida sem paixão. Se você trabalha com comunicação, então, posso ver nos seus olhos que entende do que eu estou falando. Conseguiu uma bolsa de estudos em uma faculdade legal, achou que teria espaço para escrever algo que mudaria a vida das pessoas, ouvir histórias, entrevistas ídolos, denunciar, prestar serviço à população. Mas, no final das contas, nossa geração acabou refém de uma mudança drástica nas comunicações. Nascemos em uma era em que o computador era pra gente rica, Internet era discada e não conseguimos aprender cedo como manipular a arte da comunicação online. Ao mesmo tempo, somos muito velhos para entendermos as redes sociais e não queremos usar nosso diploma para sermos Social Media e ganhar R$1500 por mês em uma agência que vai nos fazer escrever 20 posts por dia sobre alguma seguradora, sei lá. Nada contra quem aceita esse trabalho, tudo contra quem se aproveita do talento dos outros. Tudo contra. A culpa não é nossa, o mercado está uma salada de desrespeito com molho de criminosos.

Quem se formou em jornalismo entre os anos 00–10s agora têm duas opções. Para aqueles que se encontraram e tiveram a sorte de ter um emprego onde conseguisse expôr suas ideias, sinta-se sortudo e tome cuidado com o próximo passaralho, ele pode estar a algumas redações longe de você. Mas se você ainda está perdido, sem saber o que fazer com o diploma e se viu preso durante a adolescência trabalhando para se sustentar, você pode se render a trabalhos medíocres em agências de conteúdo que vão explorar sua criatividade até a última gota e nunca te dar nada em troca, além de disputar espaço com centenas de outros profissionais que se entitulam "social media" e provavelmente vão ser melhores que você. Ou você se reinventa.

Se reinventar é um tarefa tão difícil que eu conheço apenas uma pessoa que conseguiu terminar a missão. Quando você tem a sua vida aberta na sua frente e você pode fazer o que quiser com ela, uma onda de ansiedade te assusta e a primeira reação é voltar pra casinha e aceitar aquele emprego que você já sabe que vai odiar. Para quem não tem escolha, se reinventar é quase uma punição. É a única chance de ter o respiro que você espera desde os 16 anos e começar de novo, achar aquilo que te faz acordar cedo sem medo, que te traz a realização que sempre sonhou. E as empresas só pioram o cenário: para conseguir um trampo em um lugar que vai te dar liberdade de criar, você já tem que ter estudado na melhor faculdade, conhecer esse e aquele cara, viajar o mundo todo e estar sempre com um sorriso no rosto.

Eu me vejo nessa posição e acompanho alguns amigos que também estão parados, como que olhando para a própria vida e vendo algo estranho, que não lhes pertence mais, algo sem controle. Como se reinventar se tudo o que você fez até agora te levou para um caminho oposto do que o que você gostaria de ir? Como começar de novo sem ficar quebrado, atrasar as contas, aprender do zero uma nova função? As respostas para essas perguntas vêm de algum lugar lá dentro, depois de centenas de camadas de medo, insegurança, ansiedade. E o medo continua, nunca acaba. Pode ser que a gente tenha que fazer isso mais de uma vez durante a nossa vida. Às vezes vai parecer capricho, mimo, mas é só coragem vindo de dentro do estômago, de alguém lugar que você jamais imaginou.

Todos os dias eu acordo de manhã e tento mudar aquela pergunta que as nossas tias faziam quando a gente era mais novo: "O que você quer ser quando crescer?" e pensar "Quem eu quero ser quando crescer?" Que tipo de pessoa eu quero apresentar pro mundo, pros meus filhos, pros meus amigos? E com certeza a resposta é alguém mais perto do meu eu original, alguém que eu pensava que seria antes de aceitar meu primeiro emprego e entrar no tsunami do sistema, que explora sua criatividade, seca sua auto-estima. Talvez o caminho seja começar como um hobby? Descobrir o que você ama e começar a fazer aos finais de semana? Fazer um curso aqui e outro ali, fazer menos horas extras no trabalho que você não gosta e ler um livro sobre uma nova profissão e depois de algum tempo, pular. Parece um grande clichê, mas clichês só são chamados assim porque são verdades ditas várias e várias vezes. Quantas vezes mais a gente precisa falar sobre isso?

Quando vai chegar a hora em que se reinventar vai ser mais que um "capricho", mas uma solução para os problemas psicológicos que mantêm nossa geração refém de inseguranças, péssimos salários e chefes abusivos?

Esse texto não tem conclusão, eu ainda não cheguei perto da minha. Eu tenho medo de não ter dinheiro, de perder mais do que já perdi, de me sentir deslocada. Mas também tenho medo de ser alguém que não quero ser. De sofrer daquela mutação social. De nunca contribuir com nada que seja maior do que eu. É como uma conversa de bar que tive recentemente, estávamos falando sobre como as pessoas ainda se espantam com avanços tecnológicos ou com a construção das pirâmides, dizendo que só pode ter sido intervenção alienígena. Isso porque é deve ser difícil para alguém que nunca pensou em nada além de si mesmo, entender que existem pessoas lá fora que fazem o que amam, querem ajudar, querem evoluir. É sair de si mesmo e entender o tamanho do mundo e das oportunidades.

Se tiver a chance de se reinventar, seja por um desemprego ou por uma depressão recém diagnosticada, pule. Eu estou na metade do caminho e já sinto os ares mais leves.

Um abraço carinhoso aos meus amigos comunicadores.
Que a força (de vontade) esteja conosco.