Um lugar para esquecer

É preciso coragem e uma boa seleção de remédios para dores musculares quando se vai embora de relacionamentos. Já deixei e fui deixada algumas vezes, mas, diferentemente de aulas de culinária, em que a prática te leva a nhoques e pudins mais saborosos, o fim do amor não nos beneficia com o gosto menos amargo alcançado pela repetição. Passadas as semanas de choro, incredulidade, raiva, medo e aceitação, a gente acaba se deparando com aquela que sempre foi a pior parte pra mim: o que fazer com as lembranças físicas? Tenho amigas que botam fora as fotos e todos os presentes recebidos durante o namoro ou casamento. Outros, assim como o personagem de Orhan Pamuk em um dos meus livros favoritos, constroem museus para o que não deu certo. Adotei estratégia diferente: abro uma mala e jogo dentro tudo que possa me lembrar de dias coloridos, em que um futuro inexistente simplesmente não poderia ser encarado como uma possibilidade. A área de serviço do meu pequeno apartamento funcionou por meses como cemitério. Nos primeiros dias, eu simplesmente evitava o cômodo. Era impossível ir até a máquina de lavar sem dar de cara com o grande elefante branco do meu fracasso pessoal olhando tão de perto. Acho que a dificuldade está em acreditar na alma dos objetos e na probabilidade de que juntando tudo ainda seja possível achar algum sentido. Não mexer na mala era, de certa forma, preservar o quebra-cabeça, mesmo sabendo que já lhe faltava muitas peças e que a imagem não poderia mais ser formada. Até que um dia precisei de um livro. Tomei todo o fôlego que podia e me aproximei, pé ante pé, do meu Golias. Peguei apenas o título que eu estava procurando e deixei todo o restante. Mas, na outra semana, precisei também de um sapato e, na outra, de um vestido. No mês seguinte, de um perfume e do HD externo. Pouco a pouco, as coisas que trancafiei pelo bem de minha memória voltaram à estante, ao guarda-roupa, à caixa de recordações, não mais como instrumentos de tortura e bem mais parecidas com viajantes que não suportam a ideia inicial de retornarem ao seu lugar de origem, mas que após algum tempo se alegram com a chance de caírem novamente na estrada. Em uma quinta-feira nublada, finalmente aconteceu. Distraída, fui colocar as roupas sujas no cesto e percebi que não havia mais nada para ser retirado. Naturalmente, tudo havia encontrado destino. E foi assim que minha mala-verde-oliva-do-fim-do-amor voltou a ser apenas minha mala verde vazia, pronta para ir a outro lugar.

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