De filtro curador à bolha

“A riqueza da informação cria a pobreza da atenção”. É com esta frase, de Herbert Simon, autor do livro “Designing Organizations for an Information-Rich World”, que iniciamos uma análise sobre o excesso de informações disponível na rede; quais mecanismos temos para ajudar a enfrentar esta abundância; e quais os efeitos causados por esse fenômeno.

A facilidade de se produzir e disseminar conteúdo digital fez com que o volume de informações disponíveis às pessoas crescesse consideravelmente após a popularização da internet. Segundo Antônio Mendes da Silva Filho e Maria Viviane Monteiro Delgado, docente do departamento de informática na Universidade Estadual de Maringá e Acadêmica do Curso de Economia na Universidade Estadual de Maringá, respectivamente, o excesso de informação pode ser benéfico visto que a disposição de toda esta informação a um custo baixo torna-se possível. No entanto, requer que o indivíduo consiga analisar, julgar e separar o conteúdo mais relevante. Ressaltam também que todos temos esta capacidade de decisão, porém, é um processo longo que demanda tempo e energia e, para isso, permitimos a ação dos filtros curadores.

Fonte da imagem: http://www.ferinha.com/o-que-acontece-em-1-minuto-na-internet/

Estes filtros curadores funcionam como mediadores, trazendo para nós o que consideram relevante. Há empresas como Google, Yahoo e Facebook que fazem disso o seu modelo de negócio. Segundo Pariser, co-fundador e chefe executivo da Upworthy e presidente da MoveOn.org, o Google utiliza mais de 57 variáveis para determinar o que entregar ao usuário no momento da busca. Esse conteúdo é personalizado, específico para cada usuário em cada dispositivo e influenciado até mesmo pelo local em que o usuário está situado. O benefício disso? Uma busca que retornaria mais de 100 mil resultados relevantes são entregues nas primeiras posições. Ainda segundo Pariser, essas empresas devem tratar estes algoritmos de uma forma mais cívica a fim de evitar a formação de bolhas viciosas e impedindo que estes usuários tenham acesso às informações divergentes, mesmo que dentro do mesmo assunto, mas que apontem outras perspectivas.

Para acompanhar o TED de Pariser clique aqui.

Fonte da imagem: https://www.slideshare.net/canvas8/eli-pariser-presents-the-filter-bubble-canvas8

Esta facilidade permitiu que as pessoas deixassem o seu processo curatorial de lado, permitindo a inserção do algoritmo cada vez mais profundamente na tomada de decisão do que é relevante ou não. Uma vez, um jornalista perguntou a Mark Zuckerberg, o criador do Facebook, porque os feeds são importantes. Zuckerberg respondeu: “Um esquilo morrendo no seu jardim pode ser mais relevante para os seus interesses, nesse momento, do que pessoas morrendo na África”. Esta frase sintetiza o quão evidente é a relevância de conteúdo para o funcionamento destas ferramentas.

Fonte da imagem: http://www.businessinsider.com/is-facebooks-app-spying-on-me-2016-6

Inicio da bolha

Quando foi a última vez que um amigo discordou de sua publicação no Facebook? Acontece pouco, não é? Isso tem um motivo. Os usuários da internet foram segmentados e, agora, só veem o que os algoritmos determinam. Chamamos este fenômeno de "filtro-bolha".

Mas vamos começar pelo início. A internet chegou com a proposta de democratizar a informação. E com isso, deu voz a uma infinidade de atores sociais midiatizados. Então, a bolha veio nos proteger do trauma que seriam comentários que discordassem da nossa opinião em nossas publicações. Antes nos protegíamos dos atritos não falando de certos assuntos com certas pessoas, mas na internet podemos contar com os algoritmos para nos ajudar. Márcio Moretto Ribeiro recentemente falou sobre isso em seu Facebook.

Fonte da imagem: http://immediatefuture.co.uk/

Buscando a origem da bolha, pode ser encontrada a entrevista de Eli Pariser para a Revista Época, em 2012. Nesta ele disse: “Costumo dizer que a internet não é a mesma desde dezembro de 2010, quando o Google ativou as buscas personalizadas para todos os usuários.” À primeira vista o filtro-bolha pode parecer algo ótimo e, de fato, apresenta vantagens, visto que o número de conteúdos publicados por dia na internet jamais poderia ser consumido por um único usuário.

Retornando a ideia de que o filtro-bolha está a nos proteger de opiniões contrárias às nossas, Pariser cita em seu livro The Filter Bubble: How the New Personalized Web Is Changing What We Read and How We Think que “o filtro bolha tende a amplificar dramaticamente o viés de confirmação. De certa forma, ele é feito para isso. Consumir informações que corroborem com suas ideias de mundo é fácil e prazeroso; consumir informações que nos desafiem a pensar de novas formas ou questionar nossas presunções é frustrante e difícil”. Assim, reforçando a visão de que a bolha está a esconder informações que poderiam ser usadas para o nosso crescimento pessoal. Desta forma, a bolha favorece o processo de homogeneização de opiniões, sendo isso uma forma muito sutil de censura, como o próprio Pariser cita em sua entrevista à Época. Algoritmos como os do Facebook, Netflix e Google estão a nos proporcionar mais do mesmo. Filmes parecidos com os que gostamos, publicações parecidas com as que já curtimos e pesquisas que se utilizam da opinião que os robôs da internet acreditam que nós temos, para nos proporcionar resultados que estamos mais propensos a gostar. “Afinal, incertezas podem ‘prejudicar a experiência do usuário’ em um site ou loja virtual”, ressalta Wilson Roberto Vieira Ferreira, em publicação sobre o assunto para o blog Cinegnose.

Fonte da imagem: https://www.found.co.uk/blog/filter-bubbles-whats-the-fuss/#.WU06JmjyvIU

O professor de Direito e Tecnologia e Propriedade Intelectual da Fundação Getúlio Vargas e Especialista em política de internet, Eduardo Magrani, ressalta que os filtros-bolha servem para atender o modelo de negócios dessas plataformas (Facebook, Google e outros grandes players), ou seja, a publicidade direcionada. A porcentagem da audiência de um portal de notícias originado das redes sociais é de 30%. Consequentemente isso torna os jornais cada vez mais sensacionalistas e partidários em busca de relevância digital.

Wilson Roberto sintetiza bem aonde vamos parar caso este fenômeno seja levado ao extremo pelos grandes players: “Através do álibi da conveniência, conforto e rapidez, o usuário torna-se a perfeita tradução da mônada de Leibniz: sem janelas abertas para o mundo, mas com terminais através dos quais não consegue se comunicar.” Isso não só muda a visão inicial que tínhamos de internet, como um lugar democrático, onde todos deveriam falar para todos, como faz com que na prática não estejamos no mesmo ambiente. Pariser ainda afirma que nós não estamos na mesma internet.

Magrani alerta que o principal problema que os usuários enfrentam é que não há como “desligar” o filtro-bolha, estando este envolto em seus critérios secretos. Por isso, buscamos uma forma eficaz de estourar a bolha.

Estourando a bolha

Vimos que podemos acabar entrando em uma bolha mesmo sem querer, com os filtros virtuais ou nos fechando em nossas próprias caixas herméticas e acreditando que a realidade de todos é a mesma que a nossa. Mas é preciso abrir os olhos e praticar um pouco de empatia, sendo que empatia não significa que devemos concordar com tudo e com todos, mas sim aprender a entender e respeitar as opiniões divergentes, entendendo que devemos cada vez mais procurar estabelecer o diálogo.

Mas como aprender como podemos nos desligar de nossos pontos de conforto e entender que é possível crescer com ideias que contrapõem as nossas. Precisamos descobrir outros caminhos, como a pessoa que faz o mesmo caminho todo dia, mas quando resolve fazer um caminho diferente, acaba por descobrir sua nova Coffee Shop favorita. É necessário abrir os escopos e sair a desbravar, sem as blindagem de certezas e com verdades engatilhadas para disparar a torto e a direito, colocando-se em pontos desconfortáveis.

Fonte da imagem: http://weheartit.com/entry/47037013

Reajeitando filtros

Temos que entender como nossas redes funcionam e como elas podem começar a trabalhar por nós ao invés de nos trabalhar. As nossa redes sociais utilizam os algoritmos para escolher o tipo de conteúdo que vemos, tornando mais prático e aprazível navegar por elas, pois esses processos acabam por escolher cada vez mais o conteúdo com o qual nós interagimos. Isso acaba retirando de nossa frente posts que não combinam com nossos ideais, nos fazendo pensar que o mundo inteiro pensa como nós. Esse fenômeno acaba gerando distorções da nossa percepção de mundo, gerando frustrações quando descobrimos que não é exatamente assim que as máquinas estão girando.

Mas está em nossas mãos tomar o controle dessas ferramentas. Podemos começar a seguir e acompanhar produções que discordem das nossas ideias, fazendo com que os filtros trabalhem em favor de uma diversidade maior de conteúdos. Praticamente todas as ferramentas sociais podem ser moldadas e configuradas para que a visão do usuário não fique tão estreita.

Então não deixe de seguir ou ser amigo daquela pessoa que tem um time diferente do seu, ou aquela pessoa que compartilha conteúdos de um jornalista que tem um pensamento político completamente oposto ao seu. Precisamos saber como os outros pensam, até para podermos ampliar a nossa capacidade de argumentação e não nos tornarmos Pombos enxadristas.

Fonte da imagem: http://1wallpaper.net/g-in-f-meetup-social-network-icons-cube-wallpaper.html#.WU1U_O3yuM8

Furos na caixa e respirando o ar lá fora

Na fuga da frustração e do combate, minimizamos nossa visão para só receber aquilo que nos convém, estreitando nossa visão e percepção do mundo. É necessário a busca pela empatia, procurar e conversar com pessoas que não concordam com nossos pontos de vista, tentando entender o como e porque delas pensarem desse jeito e saber os argumentos necessário para mostrar seu ponto em relação ao dela. Não precisamos viver numa briga diária para ver quem tem mais razão, tentando identificar a verdade mais verdadeira.

Busca-se uma compreensão e entendimento de todos os nossos meios de convívio. Nossas redes sociais são compostas por muito mais indivíduos que aqueles de nosso relacionamento próximo e, muitas dessas pessoas, por mais diversas que sejam, têm informações úteis para nos repassar, contribuindo para ampliar os nossos horizontes de compreensão acerca dos fatos cotidianos.

A bolha nos deixa respirando o mesmo ar, prendendo nossa visão e travando nosso crescimento. Está na hora de sair dela e ampliar horizontes

Fonte da imagem: http://wadds.co.uk/2014/08/24/popping-filter-bubble/

“Precisamos que a internet conecte a todos nós, precisamos que ela nos introduza a novas ideias, novas pessoas e diferentes perspectivas. E ela não fará isso se nos deixar isolados em uma ‘rede de um’.” — Eli Parisier

Escrito por Andersen Lopes, Fabricio Barili e Juliana Viegas

Referências

http://www.urutagua.uem.br/02_internet.htm — A Sobrecarga da Informação na Era da Internet — por Antonio Mendes da Silva Filho* e Maria Viviane Monteiro Delgado — Data de acesso 16/06/2017

http://www.administradores.com.br/mobile/artigos/economia-e-financas/a-internet-e-os-filtros-bolha-nao-somos-tao-livres-assim/63661/ — A internet e os filtros-bolha: não somos tão livres assim — por Eber Freitas — Data de acesso 16/06/2017

https://digitalks.com.br/artigos/filtro-bolha-a-verdade-por-tras-do-que-aparece-no-seu-feed-de-noticias/ FILTRO BOLHA: A VERDADE POR TRÁS DO QUE APARECE NO SEU FEED DE NOTÍCIAS — Data de acesso 18/06/2017

http://www.gazetadopovo.com.br/economia/inteligencia-artificial/criacao-de-bolhas-e-efeito-colateral-da-democratizacao-do-acesso-a-internet-8lryc6ypbu331xrtyh3esfl4d?utm_source=facebook&utm_medium=midia-social&utm_campaign=gazeta-do-povo Criação de “bolhas” é efeito colateral da democratização do acesso à internet — Data de acesso 18/06/2017

https://canaltech.com.br/noticia/internet/filtro-bolha-a-verdade-por-tras-do-que-aparece-no-seu-feed-71157/ Filtro bolha: a verdade por trás do que aparece no seu feed — Data de acesso 18/06/2017

http://cinegnose.blogspot.com.br/2015/08/filtro-bolha-da-internet-aprisiona.html Filtro-bolha da Internet aprisiona usuários em “mônadas” virtuais — Data de acesso 18/06/2017

https://papodehomem.com.br/estourando-bolhas-sociais-uma-ideia-simples/ — Estourando bolhas sociais: uma ideia simples — por Alberto brandão — Data de acesso 18/06/2017

http://www.b9.com.br/72566/tech/sxsw-2017-estoure-bolha/ — SXSW 2017: Estoure a bolha! — por Barbara Bono — Data de acesso 18/06/2017

http://bolsablindada.com.br/saindo-da-bolha/ — Saindo da bolha — por Sandra Lages — Data de acesso 18/06/2017

https://luizmuller.com/2017/03/11/bolha-de-filtragem-como-evitar-essa-arapuca-nas-redes-sociais/ — BOLHA DE FILTRAGEM. COMO EVITAR ESSA ARAPUCA NAS REDES SOCIAIS — por Vários — Data de acesso 18/06/2017