As Tiburis e o Eterno Retorno; Ou: É melhor se Acostumar com Essa Tragédia

A economia irá crescer por volta de 1% neste ano de 2017, apesar dos jornalistas e das Márcias Tiburis da vida. Mas no fim das contas, para a moça dos cabelos negros e com ideias erradas por debaixo deles, bom mesmo foram os anos da recessão econômica provocada pelo último governo. O que comento está em uma entrevista que ela deu recentemente, e o link vai no fim do texto. Sugiro que vejam o vídeo antes de lerem o texto — lembrando que esse é um vídeo tóxico.

De quais ideias falo, para não me darem uma carteirada, suspeitando algo de misógino em mim? Vamos lá: a moça dá um emprego psicanalítico à ideia nietzscheana de eterno retorno e injeta um pensamento progressista em Nietzsche (Valha-me Deus!), dizendo que os problemas atuais no Brasil são os mesmos enfrentados e (mal)resolvidos no século XIX. Segundo a bela — e aí surge a sua carteirada -, estaríamos em um eterno retorno de “problemas mal-resolvidos”. A lógica pseudo-psicanalítica e pseudo-nietzscheana aí leva à conclusão de que o “resolver” o recalque vitoriano dirimiria o problema e estancaria o ciclo do eterno retorno. Cruzes!!

Quem conhece Freud e Nietzsche teria que se tratado de desgosto a doses dionisíacas de dança sobre o abismo. Nietzsche, o bigodão, fala de “amor à terra”, e de “aceitação da vida” com todos os dilaceramentos que caracterizam o seu ser-aí. Freud, o bigode, não se distancia disso, pois não acha solução para as pulsões, que parecem estar destinadas a dissolver o ego em um caos disforme, a não ser a aceitação da condição trágica do animal humano (lembrar do princípio da realidade). Em ambos não há progressismo, pois o que existe, no fim, parece ser a substância trágica da totalidade do mundo.

E a carteirada vai longe quando vemos que todos esses problemas irresolutos do Brasil atual é fruto do monstro chamado “liberalismo”. O toque mágico da vassoura retórica da moça está na tentativa de fazer uma filosofia da história que mistura Freud, Nietzsche, Progressismo e o “barbarismo do Brasil atual”. Para ela o século XIX é a época da discussão sobre a escravidão (dando a entender de soslaio que ago do liberalismo queria a escravidão). E como a moça não deixa fios soltos quando tece uma narrativa, ela liga o toque liberal das reformas trabalhistas do governo Temer com essa época de discussão sobre a escravidão, tentando produzir uma determinada metafísica. Percebemos que a associação-livre e bruxesca da bela pode nos dar a entender que estamos rumando a uma era de escravidão moderna.

Mas como o único antídoto contra o feitiço é a informação que destrói a ignorância, vamos para os fatos. A revolução industrial inglesa (que funciona como infraestrutura do liberalismo) foi a pedra fundamental para dirimir o problema da fome no mundo. E não é a mágica que explica o fato de que em 1700 a população da Grã-Bretanha era de 5,5 milhões, saltando para 60 milhões às vésperas da Segunda Guerra Mundial, que começou em 1945. Nada explica esse fenômeno senão a industrialização e o consequente melhoramento do padrão de vida inglês, junto com o fim do sistema de monopólio concedido pelo estado, algo tão detestado por Adam Smith, o pai do liberalismo econômico. E de carona com isso vai a questão da escravidão.

Enquanto tribos africanas que permanecem no neolítico ainda possuem um sistema escravocrata, o problema acabou no ocidente por causa do liberalismo econômico e da revolução industrial e não “apesar dele”. Foram as possibilidades criadas pelos novos modos de produção que tornou obsoleto e caro o sistema escravista. Karl Marx, que não era burro, entendia que a sua utopia socialista e igualitária não seria possível sem a industrialização pesada. Ele odiava justamente aqueles povos que não conseguiram levar adiante o liberalismo e a industrialização, como os eslavos. Ao contrário do que parece, Marx não era contra a Sociedade de Mercado, pois via que esse era um estágio necessário para a revolução. Certamente o velho barbudo ficaria irritado se visse o amor devoto com que os esquerdistas brasileiros se dedicam na defesa do intervencionismo estatal. Por tanto o liberalismo não institui a escravidão, ele abole ela.

É por isso que eu pasmo diante da atual situação da academia brasileira, pois ela não produz com pessoas assim nenhum tipo de orientação saudável para momentos de crise como o nosso — que é mais um momento de crise de informação do que uma crise econômica propriamente, ou de perda de direitos; essa é a nossa dogmatomaquia, ou a guerra de opiniões, como diria Eric Voegelin. Quem se orienta pelos pensamentos desta bonequinha de louça agressiva que parece se recusar a deixar a doçura da adolescência, irá perder o debate justamente por causa do descolamento da realidade. Mas a solução para o meu estado de perplexidade é algo nietzscheano, pois sabendo que Tiburis sempre teremos conosco, é melhor amar esta terra aceitando o eterno retorno dessa tragédia.