Music is my hot hot sex

Muitas pessoas não sabem dizer com exatidão o momento em que a música passou a ter significado real em suas vidas. Contato com ela a gente tem desde que nasce, não importando o que é utilizado para compor um som que nos toque. Todos respondemos aos estímulos sonoros desde bebês, com aquelas tentativas de dança um tanto quanto desajeitadas, mas acredito que só deixamos a música nos guiar numa fase mais adiante.

Eu cresci numa família louca por música. Meu pai possuía uma vitrola e uma coleção imensa de discos, situada entre os hits brasileiros dos anos 50 e 60, na voz de nomes como Maysa, Nelson Gonçalves, Nora Ney, Cauby Peixoto e tantos outros. Meu tio mais velho por parte de mãe curtia a jovem guarda e tudo que veio no esteio. A irmã mais nova do clâ materno pertence à turma de Janis Joplin, Jimi Hendrix, Lou Reed, David Bowie, Nina Hagen e B52’s. Mas foram os meus primos os responsáveis pela entrada oficial da música em minha vida, graças às festinhas de garagem.

Enquanto eles estavam na puberdade, eu ainda brincava com miniaturas do Batman e assistia a primeira versão do Sítio do Picapau Amarelo. Mas ficava hipnotizado pelo jogo de luzes que eles pegavam emprestado para dançar com os amigos e paquerar as meninas da vizinhança. Eu morria de vontade de dançar, na mesma proporção em que sentia a timidez me segurando.

Então, aos 8 anos de idade, eu ouvi “The Robots”, do Kraftwerk, com o seu álbum “The Man Machine”. Como eu era um pirralho que cresceu em meio à estética futurista dos fliperamas, cartazes de filmes de ficção científica, quadrinhos de super heróis e desenhos de ação, fiquei chapado com aqueles sons eletrônicos unidos em melodia. Eu me imaginava como um personagem em perseguição por algum cenário com muito metal, luzes piscando e veículos de outro mundo. Passei a prestar atenção à música.

Mas naquela época eu nem tinha consciência do que era uma banda, então, Kraftwerk para mim era mais um compositor de “música de filme ou seriado de heróis”, do que qualquer outra coisa. E por conta disso, meus primeiros discos de vinil após a real chegada da música em minha vida foram as trilhas sonoras de filmes.

Aos 10 anos de idade, era fã do John Williams (Tubarão, Indiana Jones, Star Wars e Harry Potter) e do Jerry Goldsmith (Jornada nas Estrelas, Gremlins, Poltergeist). Aos 11, conheci o Alan Silvestri (De Volta para o Futuro, Uma Cilada para Roger Rabbit) e o James Horner (Willow na Terra da Magia, Aliens — O Resgate, Titanic) e aos 12, fiquei de boca aberta ao saber que o compositor da trilha do filme do Dick Tracy era o Danny Elfman, vocalista de uma banda chamada Oingo Boingo, que tocava à exaustão nas FMs, que eu, na minha fleuma instrumental, rejeitava.

Entre os 10 e os 11 anos, houve uma tentativa frustrada do pop entrar no meu cotidiano, durante uma festa de aniversário. A esposa de um primo de minha mãe me deu um vinil de presente, e enquanto eu abria o embrulho, ela cometeu a infeliz tentativa de me fazer adivinhar que disco era, achando que eu estava informado como os ouvintes daquela época. Eu perguntei se era a trilha sonora de Jornada nas Estrelas e era A-Ha. No que meu pai, envergonhado, emendou: “Mas ele vai gostar desse, não é?”

A culpada pela transição do instrumental para a música cantada, com introdução, refrão e solos foi Brenda Russel, uma cantora e tecladista cujo repertório se baseia em incursões no jazz e no soul. A moça já tinha trabalhado com nomes como Diana Ross, Stevie Wonder, Aretha Franklin, Joni Mitchell e Donna Summer, que eu só viria a conhecer depois e por causa dela. Brenda se apresentou para mim num vinil com trilha de novela. Mais especificamente a de Vale Tudo, aquela da Odete Roitman. A canção foi “Piano in the Dark”, que até hoje eu escuto.

A partir desse dia, lojas de discos se tornaram minha segunda casa. Nesses lugares aprendi a conviver com pessoas de gostos diferentes, vi surgirem modos de falar, de andar, de vestir e de dançar. Conheci idéias e ideologias em letras, sorri e chorei. Por conta disso, o bolso do meu pai, e consequentemente o meu, nunca puderam respirar aliviados. Mas eu não ligo. Pela música fiz de tudo. Como passar semanas inteiras sem lanchar pra economizar em nome de um vinil novo, ou pagar a parcela mínima do cartão depois de crescido.

A música me deu umas pistas sobre o amor, sobre a felicidade, sobre a raiva, sobre a ânsia, sobre os pés na jaca, sobre a covardia. Eu gosto da música por que ela é fruto da imperfeição humana. Por isso que ela é tão linda. Ela é uma extensão de nossas almas e corações. Seja ela composta num momento de dor ou alegria, ou planejada somente para galgar as paradas de sucesso. Em algum lugar, ela terá um significado mais profundo para alguém.

Quando me indagam quais as melhores coisas da vida na minha humilde opinião, a música tem lá o seu lugar cativo entre comer, dormir, amar e fazer sexo. Só não me perguntem em qual ordem ela se encontra.

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