Sobre ser gay, branco e ter (alguns) privilégios

Ontem tivemos uma discussão acalorada sobre posições sociais, espaço e representação. Privilégios foram discutidos a partir da visão de diretores, produtores e uma cantora branca que inseriu bailarinos negros em seu videoclipe. A participação destes gerou bastante (e necessário) bafafá na internet e fora dela.

Olhando para mim mesmo, percebo o quão importante é esta discussão. Afinal de contas, minha pele não é alvo de olhares atravessados, nem sofro o constrangimento de ser desdenhado em lojas, restaurantes, universidades ou entrevistas de emprego. Como se pele fosse capaz de mensurar renda e capacidade intelectual. Infelizmente, a maioria da população negra se encontra numa situação econômica e social bem desfavorável, e isso vem desde a época do Brasil colônia. Vejam a liberdade dada pelo estado naquela época. Ela poderia ser colocada entre aspas, pois o negro foi que saiu das fazendas e engenhos não tinha nada além da sua força e seu suor para encarar o novo sistema que se descortinava. Ele já estava em desvantagem perante os brancos que lá fora estavam. A liberdade se tornou prisão, por eles terem sido simplesmente jogados sem condições de se integrarem socialmente. E assim foi oficializada a segregação no Brasil.

Tente encarar o mundo de hoje sem o mínimo de preparação. Quão longe você pode ir sem saber ler, efetuar operações matemáticas, falar uma outra língua, ter conhecimentos de informática e outros adendos que possam impulsionar o seu talento? Foi assim que a população negra daquela época se dirigiu aos centros urbanos, onde havia uma sociedade norteada pelo trabalho assalariado.

Marc Ferrez, Instituto Moreira Sales

Convenhamos: a libertação da população negra não teve nada de altruísta. Foi apenas uma resposta do país à nova realidade industrial que se mostrava mais rentável e violenta àqueles que ainda não haviam adotado o novo sistema: quem não o fizesse, estaria fadado a assistir o progresso econômico e político das outras nações e correria o risco de ser tratado da mesma forma que trataram aqueles que foram confinados na senzala. Sendo assim, a abolição da escravidão no Brasil significou que os senhores estavam se livrando do peso de um grande custo de manutenção de força de trabalho, que não cabia no capitalismo.

Como houve uma liberdade sem mudanças nas estruturas de ordem econômica, os negros foram jogados no novo sistema sem acesso à educação, saúde, sem medidas que impulsionassem a ampliação do mercado de trabalho, sem direito à terra… A lista é enorme. Deixaram de ser escravos para serem um contingente visto com desconfiança nos grandes centros urbanos. Eles estavam libertos, mas forma mantidos subalternos socialmente. E isso segue até hoje. Sabe a favela? A informalidade? As sementes delas estão todas nessa época.

Nunca houve a preocupação de garantir a educação a todas as classes, não houve intenção real de garantir uma participação política em massa, muito menos a ampliação de oportunidades econômicas para milhões de negros e outras comunidades menos privilegiadas. Nunca houve a intenção de garantir uma sociedade realmente homogênea em termos de igualdade.

Onde eu entro nisso tudo? Não sou negro, mas sou nordestino. Sou descendente de indígenas. Sou homossexual. Não me considero cristão. Aqueles que são brancos, cristãos, heterossexuais e residem nas regiões econômicas mais ricas do país ou ocupam uma classe social mais abastada, ainda que sejam meus vizinhos, tendem a me inserir num cenário de subalternidade, dependendo dos ingredientes estampados na minha embalagem.

Dentro dessa subalternidade, eu ainda tenho privilégios. Como disse no começo do texto, eu não sou negro. Não sofro nem um terço do que a população negra sofre nesse país, e creio que eu não seria nunca capaz de descrever o que eles passam. De qualquer forma, esse exercício de reconhecer o meu lugar nisso tudo fortalece minha empatia com o outro. Ocasiões não me faltam.

Vamos lá: Meu namorado é negro. Além de ser negro e gay, ele é o único aluno negro em sua turma na universidade. E cotista. Num curso de arquitetura. Quando você percebe isso, a ideia de mérito se desfaz em nevoeiro bem turvo, ao perceber que o fato dele ter chegado à uma das universidades mais conceituadas do meu estado teve muito do esforço dele, mas também teve muito do apoio e condições mínimas proporcionadas pela mãe dele, que sempre fez o possível e o impossível para garantir uma boa educação ao filho. Ou seja, isso não tira o mérito dele, mas há de se reconhecer que só o esforço, sem condições mínimas e incentivo, não garante igualdade de oportunidades.

O fato dele estar na universidade não se traduz em mobilidade social para outros de mesmo tom de pele. Infelizmente, quando um negro ascende socialmente no Brasil, ele ascende sozinho. Do alto de sua graduação e conhecimento adquirido com atividades extra-classe e networking, ele tem um leque um pouco maior de possibilidades e escolhas. Coisas que os brancos possuem com facilidade.

Ainda assim, ele está inserido num mercado ditado pela postura elitista e conservadora, e creio eu que sua luta ainda não está no fim. Será uma batalha por dia, um nó duplo em pingo de água para provar que é capaz, em comparação à fluidez e velocidade nas relações profissionais e sociais de quem tem menos melanina e possui sobrenome que circule entre aqueles que concentram a renda.

Ana Lucas, por Juliano da Hora

Quer outro exemplo? Tenho um amigo que também pode ser chamado de amiga. Ele ou ela pode ser compreendido(a) como gender fluid. O seu nome social é composto de um feminino e um masculino. Sua postura, suas roupas, seu corte de cabelo, sua maquiagem ou a ausência dela, tudo inspira liberdade de espírito e de sexualidade. A sua existência fora da caixa padrão, heteronormativa, branca e cristã, a colocam numa linha de frente mais dura do que a que eu enfrento. Se eu cresci ouvindo piadinhas, o que eu posso dizer do que Ana Lucas enfrentou em sua infância e enfrenta agora em sua vida de adulto?

A coragem de Ana Lucas nos leva à outra questão de extrema importância: a luta das mulheres. Se o seu amigo hétero se sentir incomodado de forma irracional com um homem que não se mostra naquilo padronizado como masculino, pode ter certeza de que ele tem grandes chances de ser um exemplar da espécie dos machistas. E misóginos. “Olha lá, parece uma mulherzinha, que vergonha!” Mulher. Zinha. Vergonha. Dois substantivos com um termo dininutivo e pejorativo no meio é um sinal bem claro de que você convive com um potencial agressor, e isso não deve ser ignorado.

Eu possuo mais privilégios que uma mulher, que uma pessoa negra, que uma pessoa bissexual, que uma pessoa transgênero, por exemplo. Eu poderia dizer que estou no limite do aceitável para a sociedade. O fato de eu ser cisgênero (me identifico com as características do gênero designado a mim, no meu nascimento) e branco me coloca numa estante bastante cômoda para a comunidade branca e heteronormativa: segundo eles, eu posso passar “despercebido”. E se tem uma coisa que a nossa sociedade mais gosta, é de praticar a cegueira pra tudo aquilo que não é o espelho deles.

Pois eu devo muito a quem provocou frestas nessa cegueira e fez com que sua luz entrasse de forma tal, que se fizessem vistos não importasse o que os outros tentassem fazer. Infelizmente, a maioria dessas pessoas que a sociedade não conseguiu deixar de enxergar foram caladas, tendo o sangue como último testemunho de sua luta. Muitos seguem firmes, apesar das várias tentativas de silenciamento. Pode ser aquele seu colega de classe que utiliza a irreverência e o afronte como arma de defesa e megafone para sua voz. Pode ser a mulher trans que não se resigna a permanecer longe dos olhos da moralidade hipócrita, lutando para seguir os estudos e conquistar seu espaço na sociedade. Pode ser a moça negra que não se calou quando disseram pra ela usar o elevador de serviço.

Eu devo tudo a eles e reconheço a minha posição. Assim como tento ajudar meus amigos a reconhecer a deles. É preciso refletir sobre a quantidade de negros que frequentam os mesmos locais que você. Se há gays ou transgêneros trabalhando ao seu lado e se o seu local de trabalho se mostra um ambiente acolhedor a eles, se os escuta e leva em consideração a sua contribuição nos projetos da equipe. Você ri deles, ou ri com eles? As mulheres do time são respeitadas e ganham o mesmo que os homens? Se não, o que você pode fazer em relação a isso?

Nós não podemos passar despercebidos. Para o nosso próprio bem. A liberdade de fato nunca será dada. Liberdade concedida é liberdade falha, é liberdade falsa. Precisamos ter a consciência de que as mulheres, a comunidade negra e a comunidade LGBT possuem membros que estão em constante intersecção entre os conjuntos. Em comum, a violência sofrida em vários aspectos. E a urgência em manter as cabeças sempre erguidas, as vozes sempre unidas, e os espaços sempre ocupados.

A liberdade só poderá ser chamada como tal, se for igualdade.