Sobre os Trolls e a cultura do ódio na internet.

A reportagem era sobre uma criança que havia conseguido uma prótese para sua perna direita após ter ficado anos esperando e que estava fazendo fisioterapia para voltar a andar. O site era um dos mais acessados do país, de um veículo de comunicação com grande credibilidade. Logo abaixo nos comentários da página, uma pessoa de identificação duvidosa assina um comentário que acaba chamando mais a atenção do que a própria notícia. O conteúdo tem teor insensível, ignorante, preconceituoso e lamentável, daqueles que fazem a gente perder a fé na humanidade. Era tão chocante, que foi compartilhando por milhares de pessoas que o repudiaram nas redes sociais.
 
Era um Troll, exercitando o artificio de nos enganar, comemorando a nossa indignação, e ainda por cima subindo de nível no clã dos Trolls por conta da sua incrível engajada, tal qual um lutador de tae-kwon-do muda de faixa em um campeonato, por ter comprovado ter maior experiência no esporte.

Os Trolls estão à solta buscando atenção, anarquizando a rede com informação falsa de todos os tipos e todas as esferas. Há quem subestime o poder destrutivo desta conduta, também há quem consegue ignorar, mas o fato é que a grande maioria das pessoas se quer sabe o que é um Troll; tão pouco consegue notar a presença de um na rede.

Eu poderia dizer que um Troll é um boçal com muito tempo ocioso assentado na frente de um computador, na ilusão do anonimato, interpretando um personagem que polemiza propositalmente tudo, na expectativa de gerar buzz. Sua tarefa quase sempre é contextualizar uma ignorância já não mais tolerada, na expectativa de gerar uma repercussão de grandes proporções. Assim que consegue realizar esta proeza, seu objetivo é atingindo. Ou o Troll desaparece enquanto a polêmica continua, ou então prepara as pipocas para se divertir lendo as reações das pessoas, horrorizadas com a perversidade do ataque.

Como se fossem soldados de elite em uma espécie de guerra-fria digital, os Trolls vão abastecendo os campos da cultura do ódio com suas caraminholas e se divertindo com a nossa aversão. Este é um tema de extrema relevância que passa quase sempre despercebido no universo trendsetter da internet, pouquíssimos influenciadores digitais (ou cyber-políticos), se arriscam a emitir alguma opinião a respeito. Os canais frequentemente utilizados para ataques Trolls, como caixas de comentários em sites de notícias e redes sociais, confundem trollagem com engajamento, os mecanismos de inteligência artificial capazes de detectar e filtrar a brincadeira ainda são rasos, a legislação vigente ainda não consegue cobrir todas as lacunas jurídicas da internet, e até mesmo a moderação pessoal nestes locais, tem dificuldade para realizar um filtro eficiente, pois o ambiente é de livre expressão
 
 A infelicidade se dá por conta do grande estrago que os Trolls fazem na qualidade da informação que paira por este oceano chamado internet. Para quem é experiente na rede, parece ser fácil identificar um Troll, mas há quem acredite nos seus falsos conceitos e se abale muito com isso. Não devemos alimentar os Trolls, não devemos dar atenção a eles, mas precisamos debater sobre eles, seu comportamento, suas características. Quem sabe a internet possa voltar a ser um lugar mais amigável, se os Trolls se cansarem de esperar pela nossa atenção.