Quando temos de acreditar…

A vida nos traz a todos os momentos, pérolas. Sim, pérolas que podem nos fazer engasgar e afogar, ou nos impulsionar e nos fazer transcender. Digo isso, pois em diversos momentos da minha vida, tive minha fé questionada de forma avassaladora. Quem já dividiu comigo de forma mais próxima, sabe que tive de me reinventar algumas vezes. E as fiz, de forma certeira, sem deixar dúvida de minha vontade ou ambição. O último evento que me marcou, foi o pedido de demissão de um cargo que me proporcionou valiosos aprendizados. Foi em um início de semana, em que decidi questionar a forma como eram conduzidos alguns negócios, e o tratamento que recebíamos como representantes. Estava trabalhando para um grande banco, lidando com grandes empresas, rodeado de pessoas que batalharam para lá estar, e que ao longo de suas vidas foram adquirindo diplomas, patentes, conhecimento e experiência. Conhecimento este, que ao meu ver estava sendo desperdiçado pela forma como alguns negócios deveriam ser tratados para serem considerados de SUCESSO.

Já havia questionado e exposto minhas crenças em uma reunião estratégica de performance, destas em que ficamos por uma manhã toda frente ao time de suporte, validando nossas conquistas, planejando próximos passos, e sendo testados. Questionei o Vice-Presidente e nosso Diretor Comercial acerca da relação com os clientes, sua longevidade, e que talvez estivéssemos priorizando os resultados de curtíssimo prazo, sem olhar o relacionamento histórico, e a parceria que poderia ainda decorrer. Desta reunião, ganhei uma pérola; um ticket para a sala da Diretora de RH e a chance de novamente expôr minhas idéias. Por um momento acreditei que faria sentido ter dividido tudo aquilo, e que seria capaz de mudar minha rotina, trazer maior transparência para algumas relações, fui acolhido e criei uma proximidade com a diretoria. Consultas via Whatsapp, ou reclamações por email se tornaram rotinas em meu dia.

Toda vez que via a oportunidade, apontava aos meus superiores algum desequilíbrio na rotina, sobrecarga na estrutura de atendimento, ou até mesmo, boas atitudes, que eu acreditava que deveriam ser reconhecidas e que acabariam por motivar e encorajar nossa equipe. Fui colecionando pérolas, ACREDITANDO que estava batalhando por mudanças, pelas pessoas e consequentemente, por mim. Foi um caminho natural, questionava pois não sentia da mesma forma, e me sentia responsável por o fazer.

Já tinha uma série de questões internas, e em um último reporte à Diretoria recebi como resposta a pérola que me fez acordar. ``Juliano, ESCOLHA; você pode continuar conosco, acreditamos em seu potencial, mas você deve parar de questionar. Assim são conduzidos alguns assuntos nesta empresa e não conseguiremos mudar isso!´´ Wow, tinha chegado ao ponto crucial, dois anos após ter me juntado ao time. Me senti desnorteado durante um tempo; acreditava do fundo de minha alma, estar colaborando para o bom andamento dos negócios e algumas melhorias nas rotinas de todos que estavam envolvidos em meu dia a dia.

Relato este acontecimento, pois hoje volto a me questionar, quando é que esquecemos da componente humana no dia a dia dos negócios. Onde foi que enterramos a comunicação de mão dupla, a confiança e a parceria??. No caso que vivi, era em uma só direção. Diretamente ao bolso do acionista. E apesar de parecer óbvio, poucos são aqueles que questionam sua empresas, seus superiores, e a estrutura corporativa. Não quero aqui levantar nenhuma bandeira, mas precisei questionar, por mim, para mim. Foi uma coisa interna, daquelas que te tira o sono, existencial. E não recomendo que o façam, a não ser que sintam este chamado, o que deve ser uma coisa pessoal, fundamentada e trabalhada.

Escolhi ACREDITAR, no que estava sentindo, no que valeria realmente a pena lutar. Na minha vontade e no sonho de escrever uma história diferente, daquelas que nossos filhos contam com orgulho aos colegas de classe. Acabei pedindo demissão, recusando uma boa proposta financeira para continuar colaborando com este esquema. Decidi mudar dentro, e parar de bater cabeça tentando mudar fora. Hoje luto pelo que sinto; em resgatar esta componente humana nos negócios. Trago para perto de mim, a confiança em nossos pares, em fazer por simplesmente ser o correto e nos preencher. Sigo acreditando na única coisa que se pode realmente acreditar, em nós mesmos! Afinal, como acreditar no próximo, sem antes validar isso internamente??

Juliano Marchiori