Dig a pony da piedade

Eu estava largada no sofá em uma quarta-feira monótona lendo um dos contos do Bukowski. Um velho sujo. Cuspia as palavras em seus textos como se não fizesse questão de escrevê-las. Uma bosta. Era meu último livro.

Na TV, a tela negra mostrava apenas uma frase. Acompanhava-me o som agitado, e Lennon cantava “all I want is you…”. Mais melodia e “Everything has got to be just like you want it to.”

Suspiro cansada. É a terceira noite em claro que estou sentada nessa porra de sofá, ouvindo essa maldita banda que tanto me lembra você, lendo palavras nojentas de um velho morto há mais de 10 anos que nada sabia de fazer poesia ou ao menos casar boas histórias com boas palavras. O livro abraça a parede.

FODA-SE VOCÊ, eu gritava para o fantasma da sua presença.

Eu até consegui te ver lá, sentado na cadeira de praia, rindo, com seus cabelos negros ao lado do rosto tampando a visão viciante que era tua face. Risada sua gostosa, debochada.

A saudade me matava, e tudo que eu fazia era permanecer com meu orgulho intacto. Era covarde pra admitir que precisava abandonar essa história que já tinha passado do prazo de validade e ficava esperando alguém que não cabia nos meus sonhos. Deixei minha cabeça repousar no travesseiro, enquanto adormecia pensando no que leria na 4ª noite vazia, sem você e sua presença insaciável.

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