Cansei de te querer

Pela primeira vez na vida não quero ter nada com ninguém. Nada. Não quero sexo. Nem sair com homem nenhum. Nem namorar. Antes eu ficava infeliz de não ter namorado. Agora eu não quero mais. Por um bom tempo. Me cansei de qualquer um outro. Quase não me reconheço. Nunca fui de emendar um atrás do outro, mas o fator “homem”, ter um homem pra chamar de meu, sempre foi a coisa mais importante de todas. Estar sozinha era sinônimo de “preciso encontrar alguém”. Meu último relacionamento teve casinha, tinha sofá! Eu reforço o sofá porque nunca antes eu tinha comprado algo tão importante e tão sólido e significativo. Me senti adulta quando comprei (com meu próprio dinheiro suado! ) um sofá. Quem duvidava que eu não iria me casar? Ah! Também coloquei grama. Foram trinta metros quadrados de muito mais do que apenas terra. Eu estava nos plantando ali. Tinha muito amor, tinha nossas brincadeiras de casal, uma rotina ótima. Eu dizia fazendo voz de criança: “que delícia!” e ele respondia: “que gostoso!”. Tudo maravilhoso e fim. Acabou. Tá, tinha briga. Tinha chatices de um lado e do outro. Resumindo: ele não queria, não se sentia preparado pra ter uma vida a dois de verdade, uma vida fixa, de acordar todos os dias com alguém ao lado, e eu querer isso e colocar alguma pressão fez a paixão dele por mim esmorecer. Sofri que nem uma desgraçada durante um ano. Depois recomecei minha busca frenética.

Corta pra hoje. Já são dois anos e setes meses depois. E de repente não quero mais nada com ninguém. Não, não estou magoada com o último. Nem recalcada. Verdadeiramente não quero. Zero paciência pra DR, pra negociar, pra ceder, tolerância nula e preguiça de ser dois. Cansei de te querer. Sim, você aí que nem tem nome ou rosto. Mas não te imagino passarinho fraco. Você também não pretende estar preso a ninguém neste seu momento de vida. Mas não se preocupe. Vou fazer um ninho aconchegante pra você. Vai querer chamar de gaiola e ainda vai me dar uma chave linda de presente! Você, que eu nem conheci, mas sei que é ave de porte grande e não preciso assoviar que você vem. Você vem o tempo todo. E fica e pede pra lavar a louça, pra ajudar. Cansei de te querer. Tenho certeza que gosto de você e de conversar com você e imaginar tudo que teríamos, e eu ia chorar, me rasgar, transar, gozar, sentir seu bafinho matinal. Mas não quero ninguém. Adoro bafinho matinal e olho de sono do ser amado. Sendo que, repare que quando a paixão é forte o bafinho matinal não tem cheiro nem gosto ruim. É algo particular e muito bom.

Eu quero um homem potencialmente, mas não o quero de verdade. De verdade ando querendo me curtir. Continuar melhorando como artista, de modo que ganhe dinheiro direito, possa viajar às vezes. Eu quero e sempre quis com tanta fome ter um homem na vida, “algum aquele macho alfa homem”, que de repente me cansei de querer. Pela sua ótica enviesada e no seu gosto pelo drama, tenho certeza que me entende. Sendo clichezona, mas não menos sincera, ter um encontro porreta, daqueles que nos fortalecem, atualmente pra mim é encontrar o que eu realmente gosto de fazer pra me sentir bem. Entre outras coisas, tenho uma puta vontade de ser cronista e nem sei como começar. Eu queria ser você de saias, nos meus escritos. Não nos casaremos, mas eu quero ser o seu avesso. Cansei de te adorar, mas continuo adorando textos poéticos, em que eu me desnude nas palavras. Cansei de te querer mas não me cansei de ser, e as palavras são um lugar quentinho e delas podem nascer outros mundos e infinitas possibilidades.

PS: o trecho de abertura foi só pra dar força dramática ao texto. “Pela primeira vez na vida não quero ter nada com ninguém. Nada. Não quero sexo. Nem sair com homem nenhum. Nem namorar”. CAÔ!

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