“Privilégio cis” não existe.

Julia Prado
Sep 4, 2018 · 7 min read

Deixe-me explicar.

Transativistas desenham uma linha na areia, com pessoas transgêneras de um lado, e pessoas não-transgêneras do outro lado. As pessoas não-transgêneras são chamadas cisgêneras. O transativismo alega que esses são os dois lados de um eixo de opressão. Isto é, que pessoas transgêneras são oprimidas, e que pessoas cisgêneras são os opressores e privilegiados. Em outros cenários, um eixo de opressão pode parecer como branco/não-branco, ou macho/fêmea, ou heterossexual/homossexual.

Sua explicação é parecida com isto: pessoas trans enfrentam opressão pelo fato de sua identidade de genero não corresponder com seu seu sexo biológico. Ou seja, uma pessoa com um corpo masculino pode acreditar ser uma mulher, mas seu corpo não “corresponde” à identidade em sua cabeça. A ideia de si mesmo como homem ou mulher é a “identidade de gênero”, um fator que independe do sexo do corpo feminino ou masculino. É alegadamente baseado nessa “incompatibilidade” entre a identidade de gênero como mulher e seu corpo masculino do nosso homem fictício que ele vivencia opressão em nossa sociedade. Por exemplo, seus documentos de identidade o listarão como macho, pessoas vão normalmente olhar para ele e enxergar um macho, não uma mulher, e isso é um problema para ele porque ele acredita ser na verdade uma mulher, pelo menos por dentro. Ou algo assim.

Então, a questão é que, por causa do sentimento pessoal inato de que ele é uma mulher, ele experimentará todo tipo de difucldade em tentar viver sua vida como uma. Isso pode incluir barreiras ao acesso a hormônios e à cirurgia para realizar seu desejo de parecer feminino. Isso pode incluir ter o acesso negado a vestiários ou banheiros femininos. Parte disso inclui ser chamado de “ele” ou “senhor” por pessoas que o reconhecem como macho.

Até agora, não te contei nada sobre a aparência do nosso homem. Eu não preciso, porque aparência física não tem nada a ver com se alguém é ou não transgênero. Transativistas dizem eles mesmo: você não sabe dizer se alguém é trans só de olhar para ele. Transsexualidade fixa-se em um conceito subjetivo na cabeça de uma pessoa: a ideia de que uma pessoa “é” do sexo oposto. Você não pode dizer apenas olhando para alguém se ele tem essa ideia ou não.

Isso importa porque qualquer outro eixo de opressão, exceto heterossexual/homossexual (nós vamos voltar nisto depois), necessita reconhecimento do indivíduo como pertencente à classe oprimida. É apenas a partir desse reconhecimento que pessoas podem ser discriminadas em suas interações rotineiras. Tome, por exemplo, o machismo no processo de contratação. Se o nome de uma mulher ou outros fatores no seu currículo não revelam que ela é fêmea, ela não vai experiênciar machismo na avaliação de seu currículo. Entretanto, a partir do momento em que ela é entrevistada e reconhecida como fêmea, é possível que ela seja tratada diferentemente e menos favoravelmente que antes. (Veja estudos em que nomes são trocados de femininos para masculinos em currículos[1], e de nomes de “negro” para nomes de “branco”[2].)

Em outra instância, podemos olhar para fêmeas que transicionaram para virarem transgêneros e parecerem machos. Em muitas anedotas interessantes (veja aqui[3] e aqui[4]), essas mulheres revelam que elas são tratadas muito diferentemente depois que elas começam a “parecer” machos. Elas deixam de ser alvos de assédio sexual masculino nas ruas e seus colegas de trabalhjo prestam mais atenção quando elas falam. Elas não são mais reconhecidas como pertencentes à categoria “mulher” e, portanto, não experienciam discriminação sexual em suas vidas cotidianas. Deve-se notar, entretanto, que seus corpos femininos ainda estão atolados no machismo biológico mesmo que o machismo social tenha parado. Por exemplo, as pessoas são menos propensas a reconhecer sintomas de ataque cardíaco em mulheres, porque os corpos masculinos são estudados com maior frequência e considerados o padrão médico. Nossa mulher neste cenário pode experimentar uma forma de machismo se ela tiver um ataque cardíaco em público, apesar de sua aparência masculina, porque é improvável que o transeunte reconheça seus sintomas como um ataque cardíaco.

Esses exemplos ilustram esperançosamente que o reconhecimento como parte de um grupo é necessário para que a discriminação ocorra com base na pertença a esse grupo. O que nos traz de volta à questão da opressão de transgêneros. Se você não consegue dizer que alguém tem uma “identidade de gênero incompatível”, como as pessoas trans são discriminadas como um grupo, como pessoas trans? A resposta, acredito, tem a ver com a questão do paradigma heterossexual/homossexual.

Semelhante ao cenário trans, não se pode dizer simplesmente olhando para alguém se eles se envolvem em comportamento homossexual. Sim, nós temos gaydar. Sim, alguns gays são extravagantes de uma maneira estereotipada e algumas lésbicas são, obviamente, lésbicas. Mas nem todos eles. Assim, o paradigma heterossexual / homossexual é defeituoso como um eixo de opressão, porque não é unilateral. Todas as pessoas gays não pertencem reconhecidamente à categoria “homossexual”, porque, novamente, preferência sexual é mais próxima a “uma ideia na cabeça de alguém” do que a uma característica física. Em algumas instâncias, uma pessoa será reconhecida como homossexual apenas se estiverem no ato de segurar a mão de sua namorada, ou de beijar seu namorado. Isso os torna alvo de assédio, assim como ser uma lésbica “masculina” ou um gay afeminado torna alguém alvo de assédio.

Mas aqui a segunda parte: quem está fazendo o assédio? São todos os heterossexuais que cometem violência contra homossexuais? Afinal, é o homem que comete cerca de 80% dos crimes violentos nos EUA[5]. No paradigma heterossexual/homossexual, mulheres heterossexuais são posicionadas como classe privilegiada de uma forma que não faz sentido. Mulheres heterossexuais não são privilegiadas por se relacionarem com homens heterossexuais que abusam[6] e assassinam-as em taxas absurdas[7]. Eu diria que as mulheres lésbicas têm muito mais liberdade pelo fato de serem lésbicas do que as mulheres heterossexuais. As lésbicas, ao contrário das mulheres heterossexuais, não estão, por padrão, em relacionamentos com pessoas da classe que as oprimem. As mulheres heterossexuais são íntimas das próprias pessoas que excluíram as mulheres da constituição, que decidiram que não devemos nos engajar na vida pública, que decidiram que no casamento uma mulher se torna propriedade de um homem e não deveria ter independência financeira. Globalmente, mulheres e meninas são traficadas como “noivas por encomenda” e forçadas a casar e ter filhos com homens. É, portanto, ridículo considerar as mulheres heterossexuais recebedoras de algum tipo de “privilégio heterossexual”.

A opressão dos homossexuais se resume ao goerno do status quo e à preservação da dominação masculina. Quando lésbicas e gays são assediados, é por assumir inadequadamente o manto do macho dominante ou da fêmea submissa. Eles não estão participando da brincadeira. Os homens estão se comportando de uma forma que os homens não devem ousar se comportar; eles não estão sustentando um padrão masculino de comportamento que treina os homens para se tornarem os dominadores das mulheres. Lésbicas, enquanto isso, estão desrespeitando as leis sociais que determinam a subserviência feminina aos homens. A mulher que é “obviamente” uma lésbica não cede ao olhar masculino ou se faz desejável para o consumo masculino. Assim, ela é punida.

Estes são os termos reais da homossexualidade no patriarcado. Os heterossexuais não oprimem os homossexuais. Os machos oprimem as fêmeas e, em geral, são os machos que regem violentamente o comportamento dos desviantes — de machos que não assumem adequadamente o papel de dominador e as fêmeas que não se submetem adequadamente aos machos.

Vamos voltar para cisgênero/transgênero. O conceito de pivilégio cisgênero origina-se da ideia de que pessoas não-trans não carregam o fardo de ter uma identidade interna diferente do seu corpo físico. Por exemplo, uma mulher cisgênero não pensa em si mesma como homem, por isso ser reconhecida como mulher é aceitável. O problema com esse conceito é que ser reconhecida como uma mulher abre sua própria lata de minhocas. As mulheres chamadas de “cisgêneras” não estão de acordo em serem tratadas como inferiores a homens, ou como se elas não tivessem nenhum valor além da reprodução e tarefas domésticas, ou como se elas fossem incapazes de pensar racionalmente. Ser reconhecida como mulher não confere vantagens imerecidas a nenhuma mulher. É tão errôneo assumir que mulheres na categoria “cisgêneras” são privilegiadas quanto assumir que mulheres heterossexuais se beneficiam com relacionamentos com homens. A premisa de privilégio cisgênero não se aplica a mulheres, que não experienciam nada de bom do suposto privilégio de ser reconhecida como fêmea.

Quando as pessoas trangêneras são discriminadas, não é por “ser trans”. Não é por causa de uma ideia em suas cabeças. Alguns deles são lidos como mulheres e experimentam uma forma de machismo. Alguns deles são marcados como desviantes do papel prescrito para os homens, como não se comportando de maneira adequadamente dominante, e são punidos de maneira similar ao homem marcado como homossexual. Alguns deles são do sexo masculino, que não parecem desviantes de qualquer forma, que são reconhecidos como homens, e que afirmam que são oprimidos por “serem trans” em suas cabeças. Este é um falso argumento de opressão. Ninguém é oprimido por algo que não pode ser reconhecido ou testemunhado.

O que é importante entender aqui é que qualquer análise de opressão que afirma que as mulheres oprimem os machos, em virtude de sua feminilidade, e que não reconhece que os corpos femininos são os alvos principais da dominação masculina, é uma análise imprecisa. Também é desonesto sugerir às mulheres que, como supostos “opressores” das pessoas trans, precisamos “sentar e passar o microfone” para as mulheres trans. Mulheres trans são homens. Os homens não precisam gastar mais tempo falando sobre as mulheridade do que já fazem. O que podemos e devemos fazer é mudar as expectativas da nossa sociedade e a execução violenta da ideia de que os homens devem se tornar dominadores e as mulheres devem se submeter.

Links anexados ao texto original:
1. http://www.pnas.org/content/109/41/16474
2. http://www.nber.org/papers/w9873
3. http://time.com/transgender-men-sexism/
4. https://www.citylab.com/life/2017/01/what-trans-men-know-about-gender-in-the-workplace/512501/
5. https://ucr.fbi.gov/crime-in-the-u.s/2012/crime-in-the-u.s.-2012/tables/42tabledatadecoverviewpdf/table_42_arrests_by_sex_2012.xls#overview
6. https://www.cdc.gov/violenceprevention/pdf/nisvs_sofindings.pdf
7. https://www.cdc.gov/mmwr/volumes/66/wr/mm6628a1.htm?s_cid=mm6628a1_w

Texto original por Halle: https://threetiersoapbox.wordpress.com/2018/08/22/cis-privilege-does-not-exist/