Obrigada por me deixar ir
Nunca entendi garotas ciumentas.Para mim sempre foi muito simples: se voce não confia nele, voce não deveria estar com ele. Por isso sempre fui uma namorada muito tranquila. Mesmo morando em uma cidade minuscula, não nos viamos todos os dias. Prezava muito pelo meu tempo comigo mesma e com os meus amigos, e logicamente a mesma coisa valia para ele. Durante o ensino medio, no auge das micaretas, ele tinha cartao verde para sair com amigos. Pedir permissao? Pra que? Não sou a mae dele. Quando estavamos fazendo nossos planos para a semana era so colocar na mesa.
Mesmo sendo meu primeiro namorado, a gente tinha uma relacao muito madura. Nos divertiamos horrores com a compania um do outro. Conversamos sobre teorias apocalipticas, como roubar um banco, curiosidades inuteis e materia da escola. Era lindo como conseguimos encontrar tantas coisas em comum mesmo sendo de criados de maneiras tao diferentes.
Ele me ensinou a gostar de trilhas, e a querer explorar todas as cachoeiras. La se foram caminhadas de 30 quilometros, com ele segurando a minha mao e me ouvindo tagalerar sobre botanica. Não sou a maior fa de reggae, mas o que eu conheco foi por causa dele. Ele me buscava na escola de bicicleta, saiamos para ver os peixes, dormiamos na rede ao por do sol, brincavamos de achar constelacoes e ver formas nas nuvens. Fazer nada com ele era tao bom!
Foi assim, por mais de um ano. Nenhuma briga na conta, e uma lista gigante de aprendizados. Estar com ele me dava uma paz e me desafiava de uma forma muito única. Um dia, do nada, a voz dele ficou diferente ao telefone. Eu sempre fui boa em ler pessoas, e naquele momento eu sabia o que estava por vir, so não queria acreditar.
Quando combinamos de nos encontrar no nosso lugar favorito — o mesmo do nosso primeiro beijo — ele me negou um abraco. Foi como um tapa na cara. Eu simplesmente não conseguia entender o que eu tinha feito de errado. O que eu precisava fazer para ele me querer de volta? O que eu tinha que mudar? Não importava mais, era o inevitavel inicio do fim.
Demos um tempo. Eu realmente precisava de uma pausa para processar o chao que estava se abrindo sobre os meus pes. Foi tao de repente que me abalou muito mais do que eu poderia imaginar. Mesmo assim, o tempo não me ajudou muito. Foram apenas dias de tortura em que eu tentava encontrar aonde eu tinha errado. Quando voltamos para conversar ainda não tinha achado o problema, mas estava disposta a acatar o que quer que fosse importante para ele.
Hoje eu não lembro mais as razoes que ele deu. No auge da minha angustia de tentar salvar algum resquicio daquele relacionamento tao preciso para mim, eu perguntei se tinha alguma chance da gente se encontrar no futuro. Ele me deu um “Não” acompanhado da melhor resposta que eu jamais poderia prever:
“Por daqui alguns anos voce vai estar na CNN e eu vou continuar aqui”
Foi como se um balde de agua tivesse lavado toda a minha dor. De repente tudo estava bem novamente. Aquela frase me colocou de volta nos trilhos, me fez ver pela primeira vez o que realmente era prioridade para mim. Eu gostava muito dele, mas era bem verdade que eu gostava ainda mais da ideia de abracar todas as oportunidades que o mundo poderia me oferecer. Eu tinha ansia, desejo, fome, necessidade … paixao por algo muito maior. Mas eu amava ainda mais uma versao futura de tudo aquilo que eu poderia me tornar.
Ele pode ter sido meu primeiro namorado, mas meu primeiro amor sempre foram meus proprios sonhos.
