Julia Santos
Nov 6 · 2 min read

Capítulo 2


  1. Ela estava imóvel. Comecei a gritar com ela, gritar seu nome, não obtive resposta. O desespero tomou conta do meu corpo, comecei a tremer. Eu implorava, a chacoalhava, gritava. Clarie não estava respirando. Eu não conseguia assimilar tudo, aquilo não era real. A Trouxe para perto de mim, já chorando, descompassadamente. Voltei a implorar, toquei seu rosto suavemente e seu aspecto era parecido com porcelana. Sua pele estava pálida, seu corpo sólido como uma rocha. Eu me encontrei pedindo para que alguém de algum plano espiritual qualquer trouxesse ela de volta para mim. Eu a abraçava, lentamente, implorando para que aquilo fosse algum tipo de auto sabotagem, alguma brincadeira sem graça que meu cérebro costumava fazer comigo, talvez uma maneira de me penalizar pela ingestão de coisas que torravam meus neurônios.
    “É isso, eu estou chapado. Isso não está acontecendo, não pode ser real, ela estava aqui ontem, hahaha, sim, eu estou chapado. Quão louco eu posso estar nesse momento? Eu só queria poder lembrar do que eu usei ontem para ter chego nesse estado deplorável. Sério, cérebro? Clarie morta? Pegou justamente no ponto mais frágil...”
  2. Deixei o corpo gélido de Clarie de lado e comecei a dar voltas ao redor da cama, tentando lembrar o quanto e quais drogas ainda restavam no meu corpo. Durante os vestígios de memória, surgiu uma ideia alucinante. “Se eu realmente estou tão chapado quanto imagino e isso é apenas um teatrinho, vou ligar pra Clarie. Ela vai atender, eu vou voltar e as coisas vão voltar ao normal.” Parti em busca do meu celular, que provavelmente estava sem bateria, eu não conseguia me lembrar de onde havia o deixado.
  3. Depois de revirar tudo pelo quarto, finalmente encontrei o aparelho. Desbloqueei e cliquei nos meus contatos, ignorando o restante das notificações existentes. Apertei no contato e esperei chamar.
    Chamou uma vez. Na segunda, um celular começou a tocar. “Será que alguém esqueceu o celular aqui noite passada? Só pode ser isso. E o filho da puta só lembrou dele agora né? Puta que pariu esses merdas que eu chamo de amigos...”. Deixei meu celular em cima de uma estante ainda chamando e fui em busca do celular esquecido. Revirei cobertas que estavam no chão, chutei um monte de roupas emboladas que provavelmente eram minhas, olhei embaixo da cama e não encontrei nada.
  4. O som estava cada vez mais estridente e pelo eco que fazia, percebi que vinha do banheiro. Ao entrar, notei que o celular tocando estava em cima da pia. O peguei e olhei para a foto na tela, um casal abraçado, o contato dizia “babe”.

    Julia Santos

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