Avenida Paulista

Você pendura uma placa de chumbo aqui, ela entra na caldeira. O operador da máquina não vê o que digita, e o que ele digita é enviado para onde está o chumbo derretido, as matrizes moldam uma tira fina que vai formar uma linha de palavras. As linhas enfileiradas compõem as páginas, e o operador só vai saber se digitou tudo certo depois de fazer uma prova de prelo. Em caso de erro, há que se fazer outra tira, recompor a página, não é como no computador, que você digita e volta o quanto quiser, ou até é, mas à sua maneira. Paloma diz, alarmada: "Vão derreter meu livro." Não dá pra guardar todas as tiras, os livros de chumbo ocupam espaço demais. E são tóxicos, em algum nível. Dentro de alguns meses, terei também um livro de chumbo, que já existe em páginas brancas como essa em que digito agora.

Prometi entregar um texto para Audrey ainda hoje, porém só tenho um primeiro parágrafo que não sei como continuar. É um texto sobre mudança. Mudança física, de um apartamento para outro. Encaixotar coisas, jogar muitas delas fora, sem saber como descartar fones de ouvido velhos, óculos de natação partidos, corantes de roupa vencidos. Também não saberia descartar um livro de chumbo, que obviamente pode ser derretido para dar origem a outro, mas quantas vezes será possível reciclar narrativas? Na minha cabeça, o texto seria um pouco dramático, falaria da dor de deixar pra trás atmosferas, lembranças, uma casa para alguns acontecimentos que estariam mais ou menos vivos enquanto eu continuasse ali, na mesma sala onde ele não deixou a planta que queria. Sempre a planta que não ficou, francamente, nem eu mesma caio mais nessa, e mal vejo a hora de trancar essa porta. Talvez seja por isso que não consigo avançar. E porque acho que o livro de Paloma me contaminou.

Estou numa cidade que não é minha, em um apartamento que não é meu. Na porta ao lado, uma espera teve fim: um não-vizinho (ou uma não-vizinha) pendurou um cartaz na porta, feito à maneira das cartas de sequestros dos filmes, com letras e palavras recortadas de revistas e jornais. O texto diz: “Só mais um passo pra eu ter o nosso nós de novo. Bem-vindo, amor!” Há um desequilíbrio gráfico, as letras e palavras não seguem uma proporção, havendo variação considerável nos tamanhos. O “nós” deveria ter o mesmo peso, ou até mesmo deveria estar em destaque em relação ao “nosso”. E o “eu” devia ser “nós” oculto, alterando a sequência, afinal o sujeito que volta também viveu no singular por um tempo. O texto final ficaria assim: “Só mais um passo para termos nosso nós de novo. Bem-vindo, amor!” Porém é o “novo” que grita no bilhete. Mas como pode parecer recalque da minha parte, decido achar fofo. Abro a porta e volto à conversa de minutos antes, no carro, com Paloma.

Ela falava dos aspectos positivos da literatura autobiográfica, como a que fazemos; sobre não termos que falar por todos — afinal já não poderíamos falar por todos, nunca poderemos falar por todos, como se atreviam os romancistas realistas. E isso ela elaborou porque o papo girava em torno de discursos e questões polêmicas da vez, porque pensávamos em voz alta sobre feminismo e racismo e gênero, depois de uma peça que não julgamos tão bem sucedida ao abordar algumas dessas coisas, entretanto há uma pergunta que se repete, e que nos faz voltar a elas, às questões: “Do que você nunca esquece quando pensa em quem você é?” Já não sei se era exatamente essa a pergunta, queria tê-la anotado tal e qual era colocada. Mas era essa, de certo modo. Não sei o que responderia, se tivesse que respondê-la.

Mais cedo, num café improvisado, um terceiro interlocutor me perguntou: “So, you’re a novelist?” Não sei se sou uma romancista. Tem sido uma obsessão metalinguística. Costumo detestar poesias que falam do poema ou do poeta, e me pego fazendo o mesmo, em prosa. É menos penoso dizer que sou escritora. E é menos penoso fazê-lo ao preencher fichas, para as quais não há testemunhas. Embora nos últimos tempos tenha optado pelo que calhar, no momento de preenchê-las. Acenar afirmativamente em presença de Paloma e Teju Cole é muito pretensioso, especialmente pra alguém que vive ameaçando deixar tudo isso pra trás, derreter o personagem. Penso a respeito disso constantemente. É do que mais não tenho esquecido sobre quem eu sou, dessa relação fabulatória com a realidade, de um limite que muitas vezes pode ser bastante delicado.

O livro dela fala de mudança, e de viagens temporárias e do que mais tarde Paloma diria ser uma relação kármica, ao menos foi o que afirmou uma astróloga que ela consultou, e que poderia despachar questões de outrem, desde que Paloma levasse as datas de aniversários correspondentes. “Vi a sua no Facebook”, ela me contou. Mas a astróloga limitou a quantidade, e por isso ela não pôde consultar os astros a meu respeito, o que lamentei.

Lemos o texto na íntegra, sentadas em cadeiras frente a frente, o linotipo ao lado, e todo o maquinário de Silvia e Bruno ao redor. Ela começa acelerada e aos poucos se põe mais à vontade. Acontece isso comigo também, uma ânsia por querer chegar ao final, um discreto pânico. Por cerca de trinta minutos, estamos num avião, e ao mesmo tempo numa cidade que não é a minha, para onde Paloma se mudou há dez anos. Para onde diversos amigos se mudaram há dez anos. Em menos de dois meses vou me mudar para a rua ao lado da minha, talvez o CEP continue o mesmo, o que talvez esteja mais próximo ao que Paloma define como uma viagem temporária, para a qual não se convoca muita coragem. E é por isso que o meu texto sobre mudança é fraudulento. Começo a me perguntar: que histórias será que eu escreveria se tivesse havido a planta, afinal? Se o operador da máquina corrigisse os erros antes de virarem tiras de frases incompletas? Se derretesse chaves, em vez de placas tóxicas?

Combino uma visita a uma exposição com Paloma, dois dias depois. Venho de um encontro com Carolina e Mariana, para quem dou uma entrevista que depois julgo confusa. Repasso na minha cabeça as perguntas e elaboro respostas muito melhores que as que efetivamente respondi. Quero sofrer dias inteiros por isso, mas terei que sofrer revisando um livro, e confirmando as minhas desconfianças de que tem um personagem ali que não funciona, e que agora já não posso consertar, ou posso, mas me levaria tempo, meses, talvez anos, e talvez não se resolvesse. A galeria nos desperta certa preguiça, a montagem com excesso de informação a reforça, não sabemos ir embora do prédio, descemos escadas que não nos levam à saída, tornamos a subir para então voltar à avenida. Até os percursos mais cotidianos são incertos. Encontramos um café e Paloma fala sobre seus planos de se tornar maratonista de águas da terceira idade. Calcula que se começar a treinar agora será uma máquina de vitórias quando o momento chegar. Percebo que voltei a nadar por causa de minha última ida a São Paulo, porque fiquei hospedada no apartamento de amigos, esse mesmo cujo(a) vizinho(a) é um(a) romântico(a) cartazista, e em cujo prédio há uma piscina com o equivalente a duas raias. Naquela ocasião era inverno, e 100 metros foram suficientes para meu cérebro congelar. Agora, que é verão, a piscina está inacessível, coberta por uma lona, o piso ao redor em obras.

Na tela do computador tenho dois arquivos abertos, um deles é a primeira prova do meu livro. Uso os versos das páginas que imprimi com o texto de Paloma para fazer anotações de revisão do meu próprio, além de fazer pequenos apontamentos para dar sequência aos escritos sobre mudança. Na caixa de entrada, uma mensagem pergunta, justamente, como vão os escritos. Parecem a piscina: estão ali, é verão, mas às vezes parece impossível mergulhar neles. Penso isso em relação ao que prometi a Audrey, o segundo arquivo no monitor. Mas assim como na entrevista, essa resposta só viria horas depois de ter digitado coisa bem mais banal.

Tenho 47 itens a serem corrigidos ou reescritos ou, no mínimo, repensados, mas acabo desistindo de vários. Mantenho o personagem problemático, porque seria ainda mais dramático eliminá-lo a essa altura. Do que nunca esqueço quando penso em quem ele é: poderia ter sido real, mas agora é só isso, uma ficção, um punhado de palavras, adjetivos sem erros ortográficos. Alguém que não vai estar no próximo, o livro de chumbo que também terei, e que um dia também será derretido. As palavras, contudo, permanecerão, impressas ou em leituras descompassadas, certas ou erradas, e isso depende mais de quem vai ler, não tanto de quem escreveu. E é aí que está a graça.

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