Dória quer transar

Éramos cinco ou seis num boteco nem tão xexelento assim, há coisa de uns dez anos, quando C., ao considerar uma informação sobre alguém que estava em pauta, disse: “Fulano atrapalha qualquer suruba.” O riso foi geral, e a partir dali começamos a pensar em pessoas sob esse prisma. Até o fim daquela noite, foi inevitável, debatemos calorosamente sobre o elenco da nossa suruba dos sonhos. Nunca chegamos a uma conclusão, embora concordássemos que queríamos pessoas reais, com suas celulites e dentes não branqueados. Tampouco botamos em prática os planos mirabolantes. Mas nunca mais abrimos mão de avaliar o potencial do outro, a nível de integrar nossa suruba utópica.

Daí que quando a sex tape do candidato ao governo de São Paulo veio à tona, minha primeira reação foi mandar uma mensagem praquele seleto grupo, comentando: “Até o Dória tá fazendo suruba, e a gente não.” Começamos, então, a deliberar sobre o registro. Antes, algumas considerações sobre o vídeo. João Dória veio a público desmentir as imagens, que classificou como fake news. Ao lado de sua esposa, reiterou seus valores à família tradicional, afirmou que pediu a verificação das imagens a peritos e lamentou que a campanha política tenha chegado a esse ponto. Lamentamos, todos. Já lamentávamos bem antes, na verdade.

Ainda assim, a tarde de terça-feira foi dedicada, principalmente, às análises de C., e de tantos outros que, com muito desgosto, assistimos o vídeo mais de uma vez, procurando indícios de veracidade ou efeitos especiais. No Brasil de 2018 está cada vez mais complicado entender as coisas, e a imaginação mais fértil não poderia prever que discutiríamos pornografia e a qualidade da suruba alheia por causa de um vídeo cujo protagonista é alguém que tem a mesma cara e o mesmo cabelo de João Dória Jr.

Fizemos o exercício de deixar de lado a real identidade do sujeito em questão e debatemos o caso fingindo se tratar de uma sex tape genérica, sem implicações eleitorais, o que, é claro, poderá ser usado contra nós, que assumimos toda nossa leviandade e deboche num momento sério como esse.

Primeiro ponto: pode-se, de fato, caracterizar a farra como suruba? C. acha que sim, M. é da opinião de que suruba paga não conta como suruba, ao menos não como suruba de raiz. C. logo apontou suas primeiras impressões: “Achei ele terrivelmente acomodado.” 5 mulheres de fato colocam o homem numa posição passiva. O elenco desfavorece, torna a suruba muito hétero machão. Mais pra um harém contemporâneo. Esse foi o segundo ponto: C. acha que a postura dele diz isso, no entanto a expressão corporal desmente. Nesse ponto é importante destacar que C., ao digitar, seja culpa do corretor ortográfico ou não, primeiro escreveu “desmete” e depois “demente”, até finalmente acertar o “desmente”. O que ela queria dizer é que a coisa super pacífica, rodeada por mulheres, dá a ideia do harém do machão hétero, mas a expressão corporal representada pelo pau mole desmente/ desmete/ demente isso. Terceiro ponto: como a suruba teria continuado? O vídeo é curto, só mostra o começo das preliminares. C. imagina que as mulheres fizeram o trabalho entre si, beneficiando o homem aqui e ali. Mas ela duvida que ele tenha verticalizado sua participação no processo. M. apostou, ainda, numa ejaculação precoce do homem, em um momento em que as mulheres tenham se empolgado mais umas com as outras. Quarto ponto: o cabelo pro lado (marca estética que corresponde à biografia do político). C. ficou cismada com o cabelo penteadíssimo, “isso achei suspeito”, disse. Eu também achei, mas se fizermos um paralelo com jogadores de futebol em campo, perceberemos que a indústria do gel e do laquê avançou muito nos últimos tempos. “Ele pode ter deitado logo que chegou”, M. observou, preservando o picumã intocado. Quinto ponto, que na verdade nos leva de volta ao início: a energia dele não é de suruba. C. comenta: “As mulheres bebendo e dançando e ele parece que botou 7 gotas de Rivotril pra dentro.” Ela tem lugar de fala em termos de medicamentos. P. reforçou: “Tá mais pra socorrista reavivando defunto que propriamente uma suruba, né? Sei lá, questão de ponto de vista.” Sexto ponto: aquela peitaria, sim, é fake, né? Unanimidade: os peitos e bundas das moças do vídeo são enxertos comprados, não tem crossfit ou natureza que mantenha as coisas desse jeito.

A certa altura do dia, a vida real acabou se impondo e voltamos às nossas tarefas tacanhas do cotidiano (o que é mais ou menos mentira, pois somos um grupo de desempregados). Por fim me lembrei de uma conversa com B., há alguns bons anos também, em que falamos sobre a então reforma do Panda, um motel em Botafogo. B. tinha estado ali e comentou que as obras não tinham resolvido a questão acústica, que permitia que o sexo alheio chegasse a outros quartos, muitas vezes atrapalhando a performance de seres angustiados como ele. No Panda, o sexo do vizinho parecia sempre mais verde. A suruba do Dória, ao contrário, nos reconforta por percebermos que nossas vidas sexuais ordinárias não são tão mornas quanto às vezes julgamos.

A conversa e as avaliações com o grupo da suruba perfeita empacada há uma década foram inconclusivas. Ainda não podemos afirmar se o trauma decorrente de nossa exposição à sex tape nos deixará ainda mais distantes da suruba tão sonhada. Ou se finalmente a suruba deprê alavancará nossa libido grupal e nos fará protagonizar uma orgia, essa sim, de dar inveja aos espectadores. Até aqui, só sabemos que celulares e quaisquer outros equipamentos de captação de imagem estarão banidos. Enquanto não tomamos atitudes carnais, chafurdamos no mar de memes e ficamos aqui rindo, embora nem saibamos ao certo de quê.