Diário de Paris

“Falo somente com o que falo:/ com as mesmas vinte palavras”

João Cabral de Melo Neto

É provável que o texto tivesse uma epígrafe, e que eu tenha passado tempo considerável ouvindo aquela música repetidamente, todos os versos tão bonitos — the face forgives the mirror/ the worm forgives the plow. Os vizinhos devem achar que tenho algum tipo de transtorno. O texto ficou pela metade, num computador que parou de funcionar. Não ficou salvo em mais lugar nenhum, ao contrário de quase todo o conteúdo que eu guardava ali, copiado em outro HD. Junto dele havia incontáveis outros inícios de textos que também se perderam. É um alívio, o de deixar certas metades, ou menos, para trás. Não ter que retomar nada.

Falava de uns dias em Paris. O texto. Dias que passei com P. Se eu quisesse reconstruí-lo, teria que recorrer ao caderno de anotações da viagem. Mas o caderno de anotações daquela viagem também se perdeu, dentro de uma mochila furtada numa ida de trem de uma cidade a outra. Ou talvez tenha sido o caderno dela que desapareceu, aquele onde ela rascunhava o que chamava de pré-história. Que acabou me contando, no carro, no trajeto de Le Vesinet, um subúrbio chique de Paris, até o centro turístico da cidade. Portanto, se eu resolvesse voltar àqueles dias, teria que me lembrar do que aconteceu, do que anotei no caderno de viagens, do que havia no texto de três ou quatro parágrafos, das conversas posteriores que tive com P. sobre aquela temporada, do que contei a alguns amigos — e teria que chegar a um acordo entre as partes.

Talvez eu começasse pela piscina. Não a de Le Vesinet, mas a outra, a de Les Halles, onde poderíamos ter explodido num ataque terrorista. Não me parece tão complicado inventar uma versão apavorante de uma sessão de natação em que nada além de eu ficar muito atrás de P. aconteceu. Quero dizer, aconteceram outras coisas. Foi ela que notou uma pequena ilha fake numa das laterais da piscina, com céu abobodado em mosaico de ladrilhos, uma palmeira artificial e espreguiçadeiras. Também foi ela que riu ao se dar conta de que havia gente ali, duas pessoas esparramadas no terceiro ou quarto subsolo daquele lugar que ficou décadas, parece, em obras, e que agora oferece aos cidadãos um pequeno pedaço de teto azul arredondado com cheiro de cloro por menos de 5 euros. Capaz que fosse um degradé de azuis em ladrilhos, não um mosaico. Vale o que parecer mais cafona. Na lateral oposta à da ilha, os chuveiros para o banho tinham vista pra piscina. É de se pensar no porquê de tantos pontos de observação de uma piscina tão cheia quanto o Louvre. Proporcionalmente, é claro.

De volta à superfície, ou quase, a praça central do complexo comercial-esportivo recebeu o nome de Pina Bausch. Escadas rolantes, lanches industrializados, letreiros em neon, vitrines cheias de promoções e plástico, mesas e cadeiras, luzes em profusão, adolescentes e suas doses irregulares de testosterona e estrogênio, uma nação que bufa no pandemônio de um grande shopping center cuja praça se chama Pina Bausch, e de repente uma quantidade considerável de agentes militares com carregamento pesado desce uma das escadas. Apenas rotina. P. me obriga a tirar uma foto embaixo da placa da praça Pina Bausch. Apareço sorridente, com a marca da touca na testa. P. esconde a dela com a franja.

Poderia passar, então, à segunda piscina, essa, sim, a de Le Vesinet. Mas desconfio de que ela seja a peça que encerra o texto. Ou a que encerraria o texto, de todo modo, se ele se concluísse. P. encontrara Le Vesinet em um site de troca de casas. Ela me explicou que bastava pagar uma taxa anual por imóvel, preencher um cadastro, e a partir de então você teria contato com pessoas do mundo inteiro que disponibilizam suas casas em troca de outras. Como em algumas comédias românticas, talvez, mas só que na vida real. E sem ser o Airbnb, o que parece mais simpático. Ela disse que alguém que tem uma casa com jardim e piscina, como a dona da casa de Le Vesinet, poderia perfeitamente querer trocar a propriedade por uns dias em um apartamento em São Paulo, que não se tratava de valores mercadológicos e/ou especulações imobiliárias, mas de algum outro tipo de interesse e comunicação que o site viabilizava. E por isso estávamos ali, de topless, com um pote de cerejas, à beira da piscina, olhando para um aspirador robô que limpava o fundo da mesma, o longo fio em linhas sinuosas na água, ligado na tomada de uma casinha de madeira no canto do jardim. Um jardim de verdade, com árvores, grama e aquelas flores minúsculas das quais não se pode desviar.

As espreguiçadeiras davam para um céu azul, cheio de nuvens — uma foto atesta, e também a chuva que caiu logo depois. Era verão, foi dessas chuvas rápidas de fim de tarde que anunciam outros compromissos, e naquele dia tínhamos ingressos para uma dança. Mas se eu recorresse ao caderno de anotações da viagem, saberia que a dança foi só quatro dias depois, ou quatro dias antes. Não importa. Aquela foi a tarde que conversamos incansavelmente sobre livros e separações, e também sobre não sabermos mais o que podemos falar, o que temos pra falar, ou sobre o que falaríamos, se resolvêssemos deixar piscinas pela metade: simplesmente parar no meio da raia, sem se importar com quem está atrás ou à frente, e caminhar até a borda — a da ilha, ou a dos chuveiros — oh, the things that summer brings.

Fazia calor demais no teatro, disso tenho certeza, o verão europeu quase nunca oferece conforto climático em estabelecimentos, e muito menos em cadeiras forradas de veludo. A dança era de 2003, fruto de uma residência da Tanztheater de Wuppertal em Istambul. P. e eu nos sentamos no que seria o equivalente das laterais dos balcões superiores ou galerias do Theatro Municipal do Rio, de onde se vê o palco parcialmente, uma parte estando sempre oculta pelos planos de um arquiteto ou de um projeto de acesso à cultura que julgava que os detentores de ingressos mais baratos não se importariam em assistir às coisas pela metade. Isso fora avisado no momento da compra, é claro. Tomamos um sorvete no intervalo. Eu torcia pra segunda parte da peça ser melhor. Se as coisas continuassem naquele ritmo, num futuro próximo concluiríamos que, fosse um caderno de anotações extraviado, não faria tanta falta. Embora seja preciso algum distanciamento pra ter convicção.

Da primeira metade brota água do piso de madeira, ou que imita madeira. Como uma maré que sobe, a princípio discreta, e que de repente toma o palco, mais que os bailarinos, embora só ocupe bem pouco do espaço. Um lago que se forma, como se um novo personagem entrasse em cena. Uma chuva que desaba exatamente sobre o lago, e desafia Rainer Behr a dançar seus raios, circunscrito por água. Da segunda, o tromp l’oeil de deslizamento, combinação de luzes sobre bailarinas em caminhadas que se tornam pequenas procissões sobre esteiras rolantes inexistentes, o artefato aparentemente tão simples e, por isso, também a frase que não se acha, tantas vezes, no pandemônio de ferramentas e robôs do mundo. Ainda: uma bailarina sobre um móvel rolante, um segundo que a empurra no momento em que um terceiro vem em diagonal e salta para ela, beijando o ar.

E o desfecho. As duas filas, de homens e de mulheres, marchando sentados pelo palco. Pelo mundo, fãs de Pina Bausch começaram a reproduzir a linha de Nelken, a mesma que percorre diversas cenas do documentário de Wim Wenders, e que marca as quatro estações do ano; o recurso que impõe uma cadência a certas memórias. Quando pensar em Nefés, vou me lembrar dessa linha, do momento da vontade de dançarem o mesmo gesto. Da marcha no plano baixo, da maré calma. Da música. De P. emocionada com aquilo que se apagava diante de nossos olhos, uma cena “tão gauche”, como ela disse. A frase exata. Os minutos finais de Nefés, o coro dos bailarinos no palco que se sobrepõe à voz de Tom Waits — é como aquela tarde em Le Vesinet, em que alguma coisa sugere que você já sente saudade daquilo que ainda nem acabou. “Je me souviens pendant que je vis”, me diria P., meses depois, citando Agnès Varda. Aquela cena era todo o texto que nunca vou escrever, perdido mesmo se a máquina não falhasse. Se tentasse, a epígrafe seria os dois últimos versos do refrão: we can bring back the old days again/ when all the world is green.