Nossa senhora do Tinder, olhai por nós

Kurt Hutton

André quer transar. Ou melhor, André precisa transar. Calma, essa não é aquela história. Ou melhor, não exatamente. André um dia precisou transar, anunciou tal necessidade onde agora geralmente se lê “parabéns aos envolvidos”, ou seja, na timeline do Facebook, e deve estar transando por aí. Da confissão de André, escrevi uma pequena ficção, e outro dia, na fila para o autógrafo de um livro, comentei com um amigo que André, a narrativa, ficou datada. André jamais teria exposto sua intimidade dessa maneira se, na época, já existissem o Tinder, o Happn e afins. Quer dizer. Bem. Não sei. Melhor não tratar as coisas assim.

Digamos que, em 2016, André precisasse transar. Ou melhor, digamos que, em 2016, eu precisasse transar e encontrasse os amigos num bar. Digamos que fôssemos cinco ou seis num boteco xexelento. A mesa, repleta de garrafas de cerveja, estaria molhada, e eu ameaçaria entrar no Tinder, visto que eu estava na mesma situação de André. K., à mesa com a gente, tiraria da bolsa o celular, bufaria três ou quatro vezes, e diria que não aguenta mais transar, quer dizer, que não aguenta mais o Tinder. E veja bem: estamos falando de alguém que passou meses se relacionando com o Tinder francês, naquele país em que todo mundo é mais ou menos lindo. Ela bufaria outras duas ou três vezes, e começaria a contar histórias bizarras de encontros idem.

(Parêntese: em um desses encontros, K. me escreveu com printscreens da foto de um sujeito, do número de celular do mesmo, do mapa que exibia o bar onde se encontraria com ele, me informando a hora que havia combinado o date e pedindo que, se algo acontecesse, que eu estivesse ciente da localização dela. Telefonei pra ela na mesma hora, mas como demorei um pouco a ver a mensagem, e como havia um fuso horário entre nós, ela não atendeu. Calculei que ainda não era o momento de acionar a embaixada do Brasil na França, pensei “pombas, por que fico tão amiga das pessoas assim?”. Se eu não fosse tão legal, K. não teria confiado a mim a missão de ir atrás de seu corpo, numa eventual tragédia. Roberto Carlos estava maluco quando disse que queria ter um milhão de amigos. Algumas horas se passaram até ela me telefonar, explicando que o sujeito saíra recentemente de uma depressão severa, que tinha inclinações psicóticas e que ela achou melhor ir ao encontro e encerrar de vez o assunto, em vez de correr o risco de uma perseguição online. Eu perguntei se ela precisava tanto de um date assim, e ela nem teve a dignidade de disfarçar que não.)

Os relatos de encontros malogrados foram interrompidos quando ela percebeu um novo match na tela do celular, ou melhor, quando ela teve de explicar pra parte da mesa desprovida do aplicativo — e portanto desprovida da necessidade de transar, porque já transando regularmente — que, eventualmente, quando alguém te quer muito, a criatura pode lançar mão de um super like, o que abre o canal de comunicação mesmo que não haja match. Cada um tem direito a usar um super like a cada 24 horas, ou seja, é preciso sabedoria para administrá-lo. Não é como a Pokebola, disponível para reabastecimento num Pokestop em frente ao prédio da minha irmã, por exemplo. O Tinder é bem mais complexo que o Pokemon Go, embora não deixe de ser uma caçada.

K. havia recebido não um, mas três super likes. S., então, pediu pra dar uma olhada nos candidatos, um dos quais já tinha iniciado a conversa com um “oi, quer tc?”. Ha ha, claro que ele não escreveu isso, nem André, que era de outra era flertiva, se atreveria. S., muito rapidamente, entabulou uma conversa com o sujeito, e logo os demais na mesa se acotovelaram para acompanhar em tempo real. Na primeira escorregada do rapaz, ou ao menos o que julgamos a primeira escorregada, K. pegou o celular e deu outra olhada nas fotos do requerente, de saída determinando que detestava registros de: abdome, cueca, travesseiro. Eliminado em três frames, passamos para o próximo. De repente éramos uma banca examinadora dos pretendentes da nossa amiga.

O segundo super like derreteu nossos corações, e quando estávamos prestes a convidá-lo para o bar, ali mesmo, imaginem, o rapaz aparece esperando encontrar K., linda e sexy e dá de cara com cinco ou seis pessoas — sem saber inventávamos a suruba delivery — K. acabou com a festa, arrancou o celular de nossas mãos e o devolveu à escuridão da bolsa. Ainda: discursou que não podíamos brincar com as pessoas assim, que o Tinder estava cheio de gente problemática para quem a solidão era muito mais que uma piada. Percebi que eu poderia ser um deles, e quando já abaixava a cabeça para me deprimir um pouco, meus amigos perguntaram em coro, como quem suplica: podemos ser seu ghost Tinder?

(Parêntese 2: alguns dias antes, M. tinha me perguntado como é que era esse negócio de as pessoas convidarem umas às outras para dates, que isso era algo que acontecia muito com a namorada dele — os convites, não os encontros — e talvez ele supusesse que acontecia comigo também. Ele emendou dizendo “que horror, aí você sai com alguém que você nem conhece e faz o que, além de ficar nervosíssimo e suado?”, e eu não soube responder, porque sempre me pareceu mesmo um pavor, sair com alguém, demonstrar toda sua inteligência e senso de humor, suar em bicas, saber que está sob avaliação, e avaliar ao mesmo tempo, etc. Expliquei a ele que essa era uma das razões pelas quais eu permanecia sozinha, que panicava até em dates-revival, acabava dando uma desculpa qualquer e não aparecia, e era por isso também que eu não aderia aos aplicativos que pareciam unir pessoas e trazer satisfação a uma série de gente que eu conhecia, porque não me julgava capaz de enfrentar as etapas de apresentação etc.)

Sem que eu pudesse argumentar e dizer que, na verdade, eu queria mesmo era me apaixonar até perder o senso do ridículo, um deles criou o meu perfil, que seria administrado coletivamente. As minhas melhores fotos, todavia, já eram o primeiro empecilho, e poderiam confundir muita gente: em uma delas eu usava um cocar indígena, o que poderia levar a diversas interpretações e me colocar num lugar de ativismo que não exatamente corresponde; em outra eu era uma criança rechonchuda com cachinhos dourados brincando num jardim. E como me apresentar? Desempregada há mais de um ano? Não consegue acompanhar a música pop contemporânea desde o surgimento dos Strokes? Sonha em chegar à aposentadoria para ler todos os livros que comprou na promoção da Cosac Naify? Não tolera unhas compridas demais em filmes pornôs?

Quando já se discutia quantos dates eu teria por semana (“um ou dois?” “melhor começar com um, né?”) percebi o otimismo deles em oposição ao meu recuo. Pensando em retrospecto, desde a época em que as abordagens eram feitas ao vivo, através de tentativas atrapalhadas de adolescentes, eu já era péssima nisso e quase sempre encerrava a noite comendo bolinhas de queijo na boate. A artificialidade dessas situações sempre me deixou tensa, idiota e com placas vermelhas na pele. Eu só iria a um encontro com um desconhecido com um saco de pão na cabeça. Assim como M., sempre fui adepta dos ensinamentos do Grupo Revelação: deixa acontecer naturalmente. Adoro flertar com alguém sem nem perceber que estou fazendo isso; ou quando de repente estou gargalhando em companhia de um sujeito que acabo de conhecer e que, prestando atenção, fica meio charmoso, mesmo com um dente quebrado ou cabelos desgrenhados. Ou, mais ainda, quando aquele The Smiths na pista de dança te aproxima de alguém que tem dance moves maravilhosos e de repente pá, é claro, você acorda de um sonho, porque nem existem mais festas heterossexuais decentes para a minha idade. Bingo: talvez eu precise é deste aplicativo, um que mapeie festas heterossexuais decentes para a minha idade para que então, evocando mais uma vez o pagode romântico, o amor encontre a gente de uma forma mais natural, menos formulário.

Aquela noite, não sei com que fotos e senhas, os cinco ou seis do boteco xexelento me botaram no mapa dos solteiros, e poucos dias depois me informaram de três ou quatro matches e um super like. A junta curatorial elegeu dois rapazes e, no dia do primeiro encontro, montou guarda na porta da minha casa até que eu aparecesse, e me escoltaram até o local agendado. O único final feliz possível para essa história seria dizer que o eleito era o André. Mas que nada, era só um cara muito gentil, ligeiramente mais careca que na foto, um pouco nervoso, e que abusava de expressões de incompreensão a cada resposta que eu dava às suas perguntas e que, aparentemente, eram bem distantes de alguma ideia prévia que ele já tinha de minha pessoa. Antes que a coisa desandasse de vez, expliquei a ele que, na verdade, eu era um outro, ou melhor, uns outros, ou, mais especificamente, cinco ou seis amigos que se fizeram passar por mim. O sujeito poderia me processar por falsidade ideológica, mas suspirou aliviado. Meio sem graça, chamei todos eles, que tinham ocupado o bar ao lado, para entrar e fui embora discretamente. Acho que a noite foi boa.

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