Meu irmão disse que eu estou feia.

Simples assim.

Na tarde de sexta-feira santa, recebi uma mensagem do meu irmão dizendo: “Fia (como ele me chama carinhosamente desde pequena), quero ter uma conversa séria com você. Venha ao meu apartamento às 16h”. Na hora, eu já imaginei todos os discursos que ele faria: “você precisa ter mais paciência com o pai e com a mãe e blá-blá-blá”. Tive uma discussão com meus pais na semana anterior, eles são a típica família tradicional brasileira, com os típicos pensamentos que me incomodam. Mas admito que na última eu peguei pesado, perdi a razão e fui sem educação. “É, com certeza é sobre isso que ele quer conversar”, pensei.

Deu 16h e eu já estava britânicamente em frente ao prédio dele, ele me recebeu com um beijo e um abraço e subimos para o seu apartamento. Minhas mãos estavam suando, como se eu estivesse em uma entrevista de emprego, sentei no sofá e então ele começou: “Fia, você não percebeu que está feia?”. Na hora, minha vontade era fazer um barraco como nunca feito antes, como esse muleque ousa me chamar pra ir no apartamento dele pra falar isso? Como ele pode ser tão cruel em acabar ainda mais com minha auto estima que já não está lá “aquelas coisas”? Mas então eu decidi ouvir o que ele tinha para dizer.

Desde os meus 16 anos, até o final do ano passado, eu estive em um relacionamento com um homem dezoito anos mais velho que eu. Não por culpa dele, mas por inexperiência minha, eu me tornei muito semelhante à ele, envelheci mentalmente, fisicamente e espiritualmente. Com o fim do relacionamento, meu irmão pensou que eu começaria a “viver minha juventude”, mas isso não aconteceu. Na verdade, engordei mais de 10kg, minha pele está inteira manchada, não sinto muita vontade de sair de casa e nem socializo muito, estou com pré-diabetes e, apesar de gostar de estudar, ultimamente o que me motiva a ir para a faculdade é saber que tem um bar muito legal próximo dali. Mas entendam, eu não estou sofrendo, eu estou bem e boa parte do que descrevi acima só percebi porque meu irmão me contou. Para mim, eu estava simplesmente vivendo, mas a minha companheira favorita, chamada Correria, me deixava tão exausta que me causava todos esses sintomas.

Há vezes em que damos desculpas a nós mesmos, culpamos o tempo, as pessoas, o trabalho e não percebemos que vamos nos deixando de lado aos poucos.

Quando meu irmão disse que estou feia, eu entendi o que quis dizer. Não estou feia fisicamente, mas estou tão pra baixo que exalo feiura, minha quietude deixa o ambiente pesado e minha falta de vontade faz com que os que estão a minha volta se sintam sugados com tamanha energia negativa.

“Fia, estude, faça algo que você sempre quis, reaproxime da sua família, conheça novas pessoas, faça cursos e cuide da sua saúde. Simplesmente viva!”

É, Tato, nossa conversa me rejuvenesceu. Agora, estou fazendo algo que eu sempre quis, mas minha velha companheira Correria nunca deixava. Escrevi meu primeiro (de muitos) texto no Medium. Que tal? E logo mais, prometo, iniciarei algumas caminhadas.

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