#27S2016

Um dia de viagem é sempre um dia de silêncios. Porque viajamos sozinhos, escolhemos dar ou não bom dia, colocar ou não o fone de ouvido, fingir ou não que estamos dormindo. E porque esta não fazia parte das viagens automáticas, daquelas sempre no mesmo horário, sempre pelos mesmos motivos, religiosamente feitas uma vez por semana em um primeiro semestre de um ano que já foi embora, talvez tenha convidado a rotina para aparecer na lembrança e dizer que já participou dessa história — o que não significa previsibilidade. Ou significa. Ainda não entendi o que os silêncios querem dizer. E pode ser que eu até soubesse o que ia acontecer ontem, mas foi tudo diferente. Advirto, se é que este não é um verbo defectivo, que isso tudo pode ser mera invenção. Mas sou advertida de que não podemos inventar aqui, é espaço e lugar para a descrição. Não ouça sua cabeça, preste atenção ao redor: o que aconteceu? Esses dias, uma professora, também escritora, também poeta, na sala ao lado, advertiu os alunos de que faria uma pergunta muito simples: o que é realidade? Minha cabeça quase explodiu. É mais um dia 27 de setembro e acordo às 4h da manhã. Mais uma mentira, se é que eu já disse alguma: a quem estou tentando enganar?, eu nem dormi com medo de não acordar e perder o voo e perder a aula e não conseguir encaixar o doutorado na agenda de novo. Me arrastei por um dia inteiro. Meu dia começou anteontem e está terminando neste texto, apesar de não ter efetivamente terminado porque sabedeus se conseguirei executá-lo e é difícil essa coisa de descrição. E ativar a memória. A memória é um carimbo gasto. E a tinta acaba mais um pouquinho todo dia 27. Quem foi que fui eu ontem que nem aqui está mais, a linguagem não dá conta de mapear isso e eu sequer lembro. Do que é linguagem. Do que é mapa. De quem fui eu. Existe um abismo entre o que a gente diz que fez e o que a gente efetivamente fez e a ficção ocupa esse espaço, mesmo que a gente finja que não está nem aí pra ela. Ficção? Tem um motor autobiográfico aqui em pleno funcionamento, eu sei, obrigada por lembrar. Tentei desligá-lo, mas nem precisa porque é para ser diário, então tudo bem, mas nosso silêncio não é mais importante que o silêncio dos outros, então tudo uma merda, para que problematizar o silêncio, é só sentar e d(escrever), e a minha cabeça está prestes a explodir, mas eu escolhi não dar ouvidos a ela. Só hoje.

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