Originalmente, um trabalho de Sociologia da Educação sobre trajetórias escolares. Se minha memória não falha, após discussões teóricas e pessoais, o objetivo era produzir um relato sobre o percurso escolar até a chegada ao ensino superior público, tendo um olhar sociológico para abordar a questão. Ou seja, era necessário analisar as situações e fatores externos que podem ter ajudado na chegada ao ensino superior. Precisávamos analisar situação social-cultural-econômica e coisas do gênero para tentar entender como conseguimos chegar a esse lugar — não se tratava somente de uma meritocracia falaciosa restrita ao esforço pessoal e força de vontade. Era tentar traçar os passos e os diferenciais que fizeram com que chegássemos a esse espaço ainda privilegiado. Realizei modificações em termos de pontuação e acrescentei outras coisas que naquele momento não achei adequadas para um trabalho acadêmico. Logo, ficou quebrado e meio sem coesão/coerência.

Ao pensar na minha trajetória escolar, deparei-me com algumas memórias que não julguei possuir. Foi um trabalho árduo lembrar de aspectos socioculturais diretamente ligados ao meu percurso escolar e à consequente chegada ao ensino superior. Este, apesar de ter sido sempre muito incentivado, era improvável de se realizar, pois poucas atitudes concretas durante meu percurso foram realizadas para alcançar tal fim. Em um primeiro momento enxerguei muito uma organização pessoal, além de força de vontade e determinação da minha parte. Entretanto, durante uma segunda análise sob um viés mais sociológico, pude notar a atuação de outros fatores igualmente importantes.

Minha família — percebi muito tempo depois, ao conviver com outros meios sociais — era bem humilde. Minha mãe era (e ainda é) professora do primeiro segmento, enquanto meu pai era gerente de algum supermercado. Ambos só haviam estudado até o ensino médio — minha mãe havia feito o Normal para dar aulas. Ela iniciou, quando eu já era bem mais velha, uma universidade particular de pedagogia, mas não a finalizou por questões financeiras. Minha avó e meu avô tinham um fundamental incompleto. Na família da minha avó, apenas os homens eram enviados à escola. Por isso tanto ela quanto a irmã só aprenderam o básico, enquanto o irmão é formado pela Marinha Mercante. Ninguém da minha família próxima havia chegado, até a minha adolescência, ao ensino superior, nem público, nem privado. Minha família morava em um mesmo endereço, apesar de habitarmos casas separadas. Havia minha mãe e meu pai — até meus 12 anos, quando eles se separaram-, minha avó e meu avô, madrinha e tia.

Nos termos de Bourdieu, não possuíamos capital cultural. Cresci vendo minha mãe preparar planos de aula, corrigir provas e exercícios, cortar coisas em E.V.A, dar aulas de reforço, além de preparar lembrancinhas para festas da escola. Talvez por isso as letras e palavras não me eram estranhas. Não me recordo quando aprendi a ler/escrever, então não posso afirmar o quanto isso me ajudou nessa primeira fase da escolarização, porém não me lembro de ter possuído dificuldades — apesar de trocar V com F durante um bom tempo. Entretanto, não havia livros, músicas, lugares para os quais íamos. Museus, cinemas e peças de teatro não faziam parte da minha primeira infância.

Lembro-me que isso se modificou um pouco quando tivemos acesso como associados do clube SESC, por meu pai trabalhar no comércio. Íamos mais por conta da piscina, mas foi a primeira vez que pude ir ao teatro — mesmo que somente para peças infantis — e ao cinema. Lembro de pegar o catálogo mensal e de ficar observando os eventos. Não me recordo com que frequência nem de quem partiu a iniciativa de me levar para lá, visto que minha família até hoje não possui hábito, muito menos afinidade, com teatro e cinema, mas as peças de teatro e filmes que pude ver foram por conta desse período de curta associação — já que meus pais se separaram e perdemos o direito.

Livros também não fizeram parte do meu cotidiano. Minha relação com a leitura, inclusive, foi bem escolar. Disseram-me que era necessário ler bem para escrever bem — e isso, por sua vez, era imprescindível para “se dar bem na vida”. Por questões quase matemáticas, me obriguei a ler: pedia para a minha mãe comprar livros, daqueles infantis com mais figuras do que texto, nas feiras da escola. Não era, como ouço inúmeros relatos, uma relação de descoberta e amor pelos livros e palavras. Era puramente lógica. Me obriguei a ler porque precisava escrever bem para ser alguém na vida, como me diziam.

É por isso que até hoje minha relação com livros é meio conturbada. Sinto-me uma traidora e mentirosa com os livros e toda a comunidade leitora. Queria poder dizer que livros eram a minha companhia, que o mundo ficcional era meu refúgio, que a escrita era meu sonho e paixão. Porém, na realidade, nada foi capaz de arrancar o inferno da minha cabeça. Livros eram sempre uma obrigação. Só. Com o tempo fui esbarrando com coisas com as quais tinha alguma afinidade. Fui descobrindo que gostava de como as palavras eram estruturadas e organizadas, como ficava sem fôlego com determinada organização e escolha vocabular e fui me apaixonando por isso. Mas não era como os relatos ouvidos. De como a leitura salva e expande horizontes. Não gostava de fantasia — inclusive até hoje é o gênero que mais detesto. Não me apaixonei por livros e histórias. Foi construído, falso, armado. Cada vez que eu pego um livro lembro-me desse fato, e às vezes mal consigo abri-lo, pois sinto seu olhar de reprovação e desprezo. Liar, liar.

Apenas com 13 anos peguei um livro “de verdade”, cujo título me lembro até hoje — mas infelizmente nada da história, porque eu nunca lembro de nenhuma história: “Impacto Profundo”, do Dan Brown. Era um dos livros que minha tia possuía na cabeceira da cama. Lembro-me que havia outro, “Quando Nietzsche Chorou” de Irvin D. Yalom. Como não sabia quem era Nietzsche e o título não me soou agradável (julgar um livro pelo nome é um hábito que infelizmente não perdi até hoje) optei pelo primeiro. E esse foi o contato inicial mais verdadeiro com livros.

Por essas razões, não consigo pensar e articular muito bem de que maneira me apropriei de um capital cultural quase inexistente. Eu sabia, porque me diziam, que ler era importante; que escrever era importante; que tirar notas boas era importante, mas não possuía os caminhos preparados ou incentivados para entender porque tudo isso era muito importante. Observando minha trajetória até o ensino superior, penso que fui me aproveitando, desde a infância, de brechas para conseguir me apropriar e incorporar tais elementos, sempre tendo em mente que eu devia fazer aquilo que me diziam se quisesse um futuro melhor.

Meu cotidiano, além de não ter sido muito organizado, era bem simples. Eu ia à escola durante o período da tarde e voltava. Durante a manhã (e mais tarde, quando comecei a quinta série, o período vespertino) não tinha atividades programadas, como cursos. Geralmente fazia as tarefas de casa e via desenhos animados, estudava para provas. Ficava com a minha mãe e posteriormente com a minha avó. Minha mãe era professora de uma pequena escolar particular e por isso eu tinha direito a uma bolsa integral. Esse foi o único motivo pelo qual tive a oportunidade de estudar em colégios particulares (apesar de pequenos, aqueles colégios conhecidos no bairro) até a oitava série. Assim, ela sempre me cobrou excelência — afinal, estava estudando de graça.

A excelência nas escolas era basicamente tirar boas notas — algo com o qual nunca tive problemas. Não consigo encontrar uma explicação sociológica, talvez por minha mãe ter sido professora e eu saber consciente ou inconscientemente como o sistema escolar funcionava, o que eu deveria ou não fazer, mas me adaptei a ele muito bem. Inclusive só notei seus problemas na faculdade, quando me disseram e me apontaram que havia vários — até então, para mim, estava tudo bem.

Sempre cumpri prazos e responsabilidades, fazia todos os deveres de casa e tudo o que me pediam, estudava, era ‘caprichosa’, nunca me meti em confusões ou briguei com colegas de classe. Também não falava e não fazia perguntas em sala, não discutia com o professor ou era curiosa. Apenas fazia o que me pediam. Assim, minhas notas eram excelentes. Noto como toda a minha família fazia questão de boas notas. Lembro-me o quão em pânico minha mãe ficou pois eu havia tirado minha primeira nota baixa — um 6.9 em matemática. Parecia que, enquanto eu possuísse boas notas, meu sucesso estava garantido. E, uma vez que notas funcionam, nesse mundo insano, como atestados de inteligência, eu era considerada muito inteligente. Era sempre uma fraude, visto que eu via e vejo até hoje colegas extremamente talentosos e verdadeiramente inteligentes, criativos, maravilhosos, curiosos, tudo tudo o que eu não sou, mas que se sentem mal pois não conseguiram tirar boas notas ou quase repetiram matérias na faculdade. Eu queria sacudi-los e dizer alguma coisa, tirar minha máscara, tentar falar que notas não valem nada nem provam nada, é tudo um sistema insano e que eles eram maravilhosos e iriam longe, mas as coisas não funcionam assim no mundo e eu só sinto culpa porque eles é que deveriam conseguir as coisas, não eu. Eu só sei repetir o que me dizem e tirar notas boas, e isso é sem querer o que o sistema quer e julga ser excelente, acertar a resposta, escrever bonitinho e eu conseguia sem muito esforço porque foram anos e ano de treino, mas isso não vale nada, céus, isso não vale nada. You’re the truth, not I.

Minha tia, já mencionada lá em cima, teve um papel nisso tudo: ela era considerada a mais inteligente também, em sua época de estudante, pelos mesmos motivos. Sempre foi bem na escola e tirava boas notas. Acredito que o pouco capital cultural do qual me apropriei em questão de literatura veio dela. Uma vez que sua inteligência tinha sido recompensada — foi a primeira e única da família aprovada em um concurso público — minha família sempre elogiava meu desempenho escolar e o comparava ao da minha tia. Por conta do seu salário, ela conseguiu depois de alguns anos adentrar o ensino superior, pagar sua faculdade de enfermagem e se formar. Eu já era bem mais velha, devia ter por volta de 16/17 anos. Novamente, por uma espécie de matemática simples, minha família constatava que, se através de muito estudo ela conseguiu “chegar lá”, eu, que seguia sem querer os mesmos passos, também haveria de chegar — e, por conta disso, virei o comparativo e a aluna-modelo que todos deveriam seguir. Como era filha de professora, isso era um pouco mais intenso, pois os outros professores que também possuíam filhos na mesma escola me utilizavam como comparação.

Acredito que isso tenha contribuído muito para minha chegada ao ensino superior público. Ao ver que minha maneira de ser se refletia em aspectos que eram qualificados pela sociedade como positivos, investi nisso. Claro que só consigo perceber tal raciocínio atualmente. Na época apenas pensava que tinha que tirar boas notas para compensar o fato de estar estudando de graça. E uma vez que isso não era, para mim, muito difícil, continuei a ser do jeito que sempre fui.

Uma vez sempre vista como boa aluna e não causadora de problemas, meus professores me viam como alguém neutro em sala de aula. Elogiavam-me muito nas reuniões de pais, novamente por conta das notas, mas não eram muito próximos a mim no dia-a-dia. Para ser sincera, pouco lembro do meu cotidiano até a quarta-série; apenas fazia bem as tarefas que me eram dadas. Já no período de 5ª a 8ª série, essa relação continuou se distanciando. Não era muito próxima de nenhum professor; recordo-me que apenas na oitava série falei com uma professora de história, pois sempre gostei da disciplina e pensei em fazer faculdade de História. Durante o ensino médio, essa relação tendeu a se distanciar ainda mais. Continuei indo bem em todas as matérias, mas selecionei aquelas com as quais tinha mais afinidade — como português, história e sociologia — para estudar de verdade.

Queria fazer um curso de inglês, pois gostava muito da língua — e estudar línguas em geral, algo pelo o qual sou apaixonada até hoje — e, assim como a leitura, me disseram que era importante. Não me recordo como, mas consegui vagas gratuitas no curso de informática da FAETEC, com 12 anos, e mais tarde de inglês. Logo depois, junto com o ensino médio, continuei meus estudos na língua em um curso privado, algo que pedi para a minha mãe — fazendo cálculos e apresentando propostas. O dinheiro da pensão era utilizado só para isso, e lembro-me que fui mais eu do que sempre fui, pois estava tendo uma oportunidade única. Logo, estudei muito, fazia todas as atividades com perfeição e estudava muito por fora.

Assim, minha imagem e atitude como excelente aluna se perpetuou, principalmente no ensino médio, que fiz em escola pública — já que a escola onde minha mãe dava aulas só ia até a oitava série e não tínhamos condições financeiras de pagar uma escola particular, por mais barata que fosse. Lembro que fiz todas as contas para apresentar a minha mãe as possibilidades que caberiam no nosso orçamento, mas descobri que, na verdade, nada caberia.

Consegui vaga em uma escola pública considerada de boa qualidade na minha cidade (São Gonçalo — RJ). De fato, me dei conta depois (mais especificamente durante a elaboração desse trabalho) que ela era realmente boa. Os professores eram muito bons, a escola em si possuía uma boa estrutura, merenda, livros, biblioteca, sala de informática, aulas de inglês e francês, um teatro e aulas de teatro gratuitas — das quais não participei e é um dos maiores arrependimentos que possuo. Afinal, o que eu mais tenho nessa vida são arrependimentos. Fico pensando se tivesse feito teatro. Teria sido um divisor de águas? Conseguiria eu ter sido essa outra pessoa? Descobri mais tarde que ela possuía a maior média no ENEM dos colégios públicos na cidade. A biblioteca era excelente, o que me permitiu a continuidade de contato com os livros e a leitura — tendo sempre em mente a ideia de que eu deveria gostar de ler de qualquer maneira. Continuei pensando em fazer faculdade de história, porém descobri o curso de ciências sociais que me interessou bastante na época. Apenas nesse momento falei com os professores, pedindo dicas e conselhos, e todos me incentivaram muito a tentar — pois, de acordo com eles, eu escrevia muito bem e tinha tudo para dar certo.

O ensino superior, pelos inúmeros motivos já relatados, era algo muito certo e obvio para mim. Eu iria fazer uma faculdade pública — era o meu objetivo final, creio, mesmo que eu não soubesse disso no início. Iria aprofundar meus estudos de qualquer maneira, pois não teria nenhuma chance nesse mundo se parasse. Minha família, também pelos motivos já citados, esperava que eu fosse para o ensino superior. Porém, como mencionei anteriormente, nenhuma atitude concreta foi tomada para que isso ocorresse. Foi como o exemplo citado durante nosso curso diversas vezes; os pais que querem tudo para os filhos, possuindo altas expectativas, mas não sabem/conseguem/podem organizar efetivamente um caminho para chegar a esse “tudo”. Eu era cobrada com relação às boas notas e só. Como minha mãe nem mais ninguém havia frequentado uma universidade pública — mal sabiam ir ao Rio de Janeiro e a UFRJ era só um nome distante — procurei desde cedo todas as informações necessárias sobre o vestibular, ENEM, inscrições, documentação, bolsas de assistência — pois, apesar de sempre me incentivar, minha mãe sempre comentava que não sabia como iria me manter na universidade; a passagem intermunicipal era cara.

Sei quão babaca e ruim isso soa, mas eu queria tanto, tanto, não ter que ter feito isso. Eu queria que tivessem me ajudado nesse processo todo. Ou, melhor, que eu nem tivesse que pensar muito nessas coisas. Que eu pudesse ter ficado feliz, feito textão no Facebook, tirado fotos — aqueles clichês conhecidos.

Quando entrei em Ciências Sociais no IFCS, o primeiro momento em que tomei um choque de realidade (tão forte que me atormenta até hoje), tudo o que eu mais queria era ter tido a vida de 80% da minha turma. Uma galera de classe média/alta, que fez pré-vestibular, vindo em peso de colégios bons, vindo de outra estado e que estava ainda meio perdida pois tinha acabado de se mudar para o Rio de Janeiro. Tinham pais cuidando de tudo, dando dicas, pagando o almoço. Outra parte já morava aqui, ou em Niterói, e estava mais curiosa, sem saber muito bem como seria o ensino superior, sem saber muito bem se iria curtir o curso. Acabando de sair do Ensino Médio. Essas eram as suas preocupações. Eu não consegui aproveitar nada disso. Estava preocupada demais em saber se teria dinheiro para passagem e livros e cópias. Não senti nem o gostinho de felicidade de entrar em uma faculdade pois eu não tenho tempo para isso, além de não conseguir sentir nada. Era minha obrigação se queria algo melhor para mim, não estava fazendo nada demais que deveria ser comemorado. Eu queria ter tido o que várias pessoas ao meu redor tiveram. Aquele sentimento de que fecharam um ciclo e começaram outro. Eu nunca tive tempo para nada disso pois sabia que tinha que continuar de qualquer forma se quisesse algo. Não era motivo de alegria. Eu só estava fazendo o que deveria ser feito. Nunca parei para olhar ao redor e ver o que estava acontecendo. Nunca significou nada.

Assim, apesar de difícil, consigo perceber as ‘brechas’ que permitiram o afastamento do aparente fracasso escolar ao qual eu estaria, digamos, predestinada. Não consegui achar, sociologicamente, uma explicação sobre a maneira como me apropriei do meu ambiente familiar e escolar; como me construí de maneira diferencia, tendendo mais a um caminho considerado de sucesso que ao caminho da minha mãe e pai, por exemplo. Observo que, de todas as pessoas citadas, a figura com mais destaque foi minha tia. A única explicação mais certa é a de que ela teve um papel fundamental para meu sucesso escolar, mesmo não passando muito tempo comigo ou sendo próxima a mim. Era a figura modelo que segui, mesmo sem perceber, durante o meu percurso.

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