Sobre a ausência da fala

Não consigo falar.

Por uma série de razões, o ato de fala nunca foi algo natural para mim. Fala-se porque é preciso dizer algo alguma — caso contrário, cala-se. O problema é entender quando se precisa dizer alguma coisa. E o que dizer, nesses casos. Como dizer, também. Eram interrogativos demais para internalizar o modo de funcionamento. Percebia, como sempre, que outros tinham muito mais facilidade para compreender e fazer uso de tal prática do que eu. Não entendia porque deveria falar quando não tinha nada a dizer ou quando não se sentia confortável para tal.

Eu nunca tinha algo a dizer. Ainda não tenho. Eu gostava do silêncio pois não havia perguntas. Não havia small talk.

Eu não era forçada a pensar em algo para dizer quando absolutamente nada passava pela minha cabeça.

Não fui uma criança curiosa. Podem dizer que meu cérebro -creio que- doente reformulou minhas memórias para que eu justificasse ser meio merda desse jeito com a desculpa de que “Sempre fui assim” (algo muito mais conveniente de ser dito do que assumir que você é só um ser humano merda mesmo). Mas eu de fato não consigo me lembrar de fazer perguntas. Lembro que em um enterro de alguém perguntei para onde a pessoa ia. Responderam-me que para o céu. Daí fiz a pergunta que realmente queria fazer: onde ficava o céu dos cachorros. E apontaram para qualquer lugar lá em cima dizendo ser ali. Achei a resposta ruim pois queria saber exatamente onde ficava. Localização geográfica. Ninguém me falou e fiquei meio puta. Fora isso, não tenho nenhuma memória de ter feito perguntas. Porquês.

Acho que esse é o sinal de que desde criança eu simplesmente não me importava com porra nenhuma. Tal apatia tão característica dos meus pensamentos e sentimentos está presente desde cedo (de um lado. O outro avança no 220 rumo ao desespero, de vez em quando). Isso me deixa triste e mal porque eu sempre ouço histórias de crianças curiosas, que gostavam de histórias, eram criativas e questionadoras e toda a problemática envolvida sobre isso — como os pais, a escola e a sociedade num geral terminam por matar e modelar tal comportamento tipicamente infantil em padrões pois ninguém tem muita paciência para isso e precisamos de adultos submissos e não questionadores — para não criticar ou pensar no sistema e coisas assim. Mas eu não fui modelada por ninguém, nos termos relatados. Eu meio que já nasci moldada para obedecer às regras e seguir padrões, então não passei por nenhuma dessas fases e nem trouxe problemas — já sai prontinha do forno.

Não queria saber por que o céu era azul. Por que a terra é redonda. Por que carros têm quatro rodas.

Tá ali, é azul, dá pra ver. A terra é redonda estava no livro da escola, gravei que era assim e pronto. Não tinha curiosidade. Vontade de aprender mais coisas.

Meus pensamentos nunca foram muito além do que me mostravam. Talvez por isso eu tenha uma boa memória. Ao invés de perguntar o porquê, eu só decorava. Não era como se eu quisesse saber de mais alguma coisa. Então meu cérebro foi sendo bem treinado para memorizar. Ao invés de se encher de questionamentos, ele memorizava coisas. Acho que é isso: desde pequena eu simplesmente não me importava. Como ter uma boa capacidade de memorização está ligado a ser inteligente porque vocês são insanos (afinal, as avaliações feitas nada mais são do que uma grande memorização de dados), fui tirando notas altas e sendo considerada inteligente.

Lembro que tinha uma peça desgraçada no Fundamental I e me deram um papel com muitas falas. Sempre odiei exposição e tudo o que eu mais queria era morrer antes de fazer tal peça. Mas veja, era uma obrigação. Valia nota. Então eu aceitava que tinha que fazer.

(Viver, sentir alguma coisa, conversar e ser um ser humano decente e normal não vale nota então a isso nunca me senti obrigada. Fui deixando para lá).

Disseram que eu podia levar o papel das falas, pois entendiam ser difícil memorizar tantas páginas. Não precisei do papel. Gravei tudo de boas.

Recebi vários elogios.
Sendo uma fraude desde criança, olha o orgulho.

Não lembro de absolutamente nada que estudei. Tenho esperança de que meus estudos estejam armazenados aqui em algum lugar do cérebro e possam ser acessados através de gatilhos, mas ainda não descobri quais são eles. Mentira. Acho que só consigo acessá-los quando sou obrigada. Lê-se: quando preciso fazer um trabalho ou prova sobre. Preciso ler tudo de novo, só que não é 100% novo. Há um reconhecimento. Mas só. Outros levam essas coisas para vida, falam sobre, comentam, escrevem, articulam.

Não eu.

Algo em mim, das regras internalizadas relacionadas aos comportamentos sociais aceitáveis, me diz que não era para ser assim.

Vejo pessoas tirando dúvidas em aulas, conversando sobre os assuntos com outras pessoas, falando sobre seus livros e autores preferidos, filmes, peças. Enquanto elas falam, meu cérebro se concentra em tentar lembrar desses nomes e assuntos. Ele lembra, com alguma dificuldade, da existência deles.

Só.

Não consigo pensar em algo a dizer sobre. Uma dúvida para perguntar. Lembrei, novamente, de uma frase aleatória, falando que a inteligência de alguém é medida não pelas respostas dadas, mas pelas perguntas feitas.

Nunca fiz uma pergunta nessa vida. Quer dizer, já fiz, mas sempre era algo estranho. Não era natural.

Eu tinha que anotar antes exatamente as palavras que queria perguntar. Ensaiar. De novo. De novo. E só fazia quando tinha 100% de certeza que a pessoa do outro lado era relativamente acessível, não se incomodaria, não ficaria irritada e não iria rir de mim. Logo, fazer perguntas era algo bem raro. Acho que na escola/faculdade nunca fiz uma pergunta ao professor. Por que tenho mania de usar umas palavras tão infinitas? Não foi nunca. Foi quase nunca. Raríssimas vezes. E era tão absurdamente ruim. Não conseguia prestar atenção direito na aula pois estava repassando a pergunta várias e várias vezes. Tentava respirar fundo mas não adiantava. A pergunta nunca saia do jeito que eu queria, gaguejava, já nem lembrava mais porque fui inventar de fazer uma pergunta. Sentia meu rosto arder, minhas mãos tremerem, meus joelhos fraquejarem. Aquele sentimento eterno de estar incomodando, de me sentir um lixo e querer morrer. No final, como não conseguia fazer a pergunta direito, saia sem a resposta desejada, me sentindo uma bosta por ter tentado.

É por isso que aprendi a me virar sozinha, na verdade. O Google virou meu melhor amigo. Anotava a dúvida e iria pesquisá-la no Google. Não há resposta que não esteja lá, afinal.

Não sei mais do que estou falando — acho que isso é uma consequência de nunca falar. Não entendo como isso funciona. Às vezes penso em fazer uma tabela com situações/reações e como/o que falar. Pelo menos para disfarçar para os outros o fato de eu não ser humano, ser essa coisa robótica e apática. Umas frases que podem me ajudar naquele momento de desespero quando alguém lembra da minha existência na mesa e me pergunta algo diretamente. Ou, pior, quando lembram com comentários como “O gato comeu a sua língua?”, “Você não fala?”, “Você só ri?”. Acho ridículo demais o meu nível de não conseguir ser um ser humano a ponto de ter que fazer uma tabela para isso e acabo desistindo.

Às vezes eu queria falar alguma coisa. Queria querer falar. Eu tento me forçar, mas é como se existisse um abismo entre eu e os outros, mesmo que eles estejam a meio metro de distância ou ao meu lado. Entendem o que é ter um cérebro simplesmente vazio? Nada, nadinha passa pela minha cabeça. A não ser o fato de estar tão absolutamente desconfortável e me sentindo tão mal que gostaria de estar morta, mas fora isso nada mais. Não consigo opinar. Não consigo dizer uma palavrinha se quer. Eu sei que tem o Aécio e o Temer, e o PT, e umas pessoas gritando umas frases e um ódio no ar. Eu sei que tem séries, e assuntos, e coisas boas e ruins, e temáticas. E um grande acordo nacional. E gente falando coisa e repetindo até morrer. E comportamentos, e a vida, e problemas. Eu sei que há palavras e ações e coisas certas e erradas. E pessoas morrendo. E mais ódio. E brigas. E um pouco mais de ódio. E gritos e mais gente morrendo. Só isso que eu sei.

Outro dia, li um poema da minha chefe que me deixou absurdamente encantada. Não sei dizer por que, como, ou o quê. Minha relação com as coisas é assim. Eu gosto, gosto muito, amo, adoro e só, não sei desenvolver. Para vocês terem uma ideia, eu nem lembro o nome do poema. Só sei que senti alguma coisa — e céus, como é difícil eu sentir qualquer coisa nessa vida. Eu queria comentar com ela o quanto tinha gostado do poema.

Demorei mais de um mês para fazê-lo.

Não conseguia pensar no que dizer. Não era um problema hierárquico, nem um pouco. Era simplesmente não saber falar. Depois pensava na frase, repetia, escrevia, ensaiava. Tentava achar o momento certo para dizer, a abertura, o gancho — meu deus, por que os seres humanos são tão complicados? Eu sei que você vai falar que é só dizer, assim, como gente normal, mas vocês não enxergam o mundo com um cérebro doente e louco então não percebem os mini esquemas ali implícitos porque para vocês é algo tão natural que só sai. Quando não é natural, há muitas variáveis em jogo, há muita coisa a ser pensada e analisada antes de tudo, e eu só sentia minha cabeça girar pois era muita informação.

Então eu consegui, num momento de insanidade, dizer. Não sem antes ter anotado na minha agenda, junto com as outras tarefas do dia, assim, como obrigação. E eu me senti tão mal que queria chorar e morrer. Minhas mãos tremiam, meu rosto queimava como brasa e depois só pensava em cada palavra que consegui dizer, analisando de novo e de novo, sentindo que falei besteira, me arrependendo por ter feito tal comentário, pensando em como reformular de novo — mas o momento já tinha passado. Então vem aquele gosto horrível na boca e a vontade de sair correndo e o arrependimento.

Porque é isso, também. Nos raros momentos que eu decido abrir a boca o sentimento de arrependimento é tão grande que eu só consigo pensar — guess what- em morrer. Estúpida. Maldita. Pra que abriu a porcaria da boca. Ficasse quieta. Você tem que ficar eternamente quieta. Se não há nada direito, articulado, decente a dizer, apenas

Fique

Quieta.

Dá vontade de pedir desculpas pela ousadia. Eu vivo pedindo desculpas a ponto de achar que estou irritando os outros.

Que inferno.

Vão me falar que é prática. No início pode ser ruim, mas com a prática você vai melhorar e esses sentimentos vão ficando cada menos intensos.

Santa inocência.

Eu sei que meu não falar está ligado à minha eterna apatia. Eu preciso aprender a sentir coisas antes de querer falar sobre coisas. Só que eu não sei sentir.

Lembro que quando eu tinha uns 11 ou 12 anos uma vizinha veio na minha casa chorando pois um amigo dela morreu depois de pular uma cachoeira e bater a cabeça numa pedra. Eu não sabia o que fazer. Não conseguia sentir nada por ela, nem pelo menino morto, nem nada. Fiquei falando umas frases prontas do tipo “Pensa nos momentos bons com ele”, mas era tão falso que parecia veneno saindo da minha boca.

Não lembro o que fiz, mas não servi para muita coisa.

Desde de sempre sendo meio bosta.

É por isso que as pessoas só falam comigo, 99% das vezes, para ajudar com problemas burocráticos. Faculdade, matérias, regras, sistemas. Acho que sou boa com isso. Ninguém fala comigo sobre a vida, sobre um livro legal, sobre filmes, sobre coisas legais, sobre sair, se divertir, sobre namoros ou qualquer coisa tipicamente humana. Falam comigo sobre problemas nos sistemas, sobre matérias da faculdade, sobre dúvidas em francês, sobre dicas de coisas sistemáticas. Um robô entende de sistemas, nada melhor do que falar com um. Não os culpo, sabe. Nas raras vezes em que isso aconteceu foi, adivinhem, um fiasco, já que eu realmente não sei falar sobre coisas normais da vida pois entendo tudo como sistemas e o sistema humano me é incrivelmente complicado. Só o compreendo de maneira muito simplificada e pessimista e esse modo de ver as coisas não ajuda quase ninguém.

Isso é mais uma das coisas que não dá para aprender. E mesmo que dê, vai ser aquela bosta falsa construída, fabricada, nunca natural e tranquilo. Como eu odeio essa merda e como, céus, como eu queria ser outra pessoa.

Eu lembro que, no curto período em que tentei fazer terapia, ela me dizia que eu criava um eu inalcançável, difícil, meio que de propósito, pois aí eu nunca poderia alcançá-lo e iria continuar me sentindo eternamente mal sendo quem eu era. Não era uma lógica ruim, veja, mas ela tocava na questão errada.

Que porra de eu impossível de ser alcançado era esse criado por mim? Um eu que sabia falar e conversar com as pessoas sem querer morrer a cada palavra dita? Um eu que consiga ter momento agradáveis e criar laços através de conversas sobre outra coisa que não sejam regras e dicas de sistemas? Um eu que sinta alguma coisa? Bref, um eu normal?

Esse era o um eu inalcançável? Sério? Acho que estamos com um problema de definição de palavras, my dear.

Eu queria escrever esse texto com mais raiva, mas não sinto absolutamente nada no momento. Nem vontade de tomar banho ou comer. Não deixo de pensar em me jogar em frente a um trem ou me cortar inteira com uma lâmina qualquer, mas tais ideias são tão corriqueiras que simplesmente não ligo mais. Às vezes prefiro os momentos de falta de ar, automutilação, gritos, arranhões e desorientação. Eles me fazem lembrar que eu ainda consigo sentir alguma coisa — mesmo que seja desespero e culpa. Pelo menos eu lembro que ainda tem alguma coisa não morta aqui dentro. Só não sei por quanto tempo.