Sobre pedir ajudar e suas falácias
Uma das coisas que mais me irrita nisso tudo é a constante reafirmação de que devemos buscar ajuda. Notei que a maioria dos textos sobre saúde mental possui estruturas muito semelhantes. Problema X, Y, Z. Você não pode/consegue/nem deve passar por isso sozinho. Você precisa de ajuda profissional. Fale com alguém. Peça ajuda.
Alguns, mais atentos à questão, divulgam uns números de telefone.
E é isso.
Eu nunca vi um texto que contasse o que ocorre quando você pede ajuda. Ou ainda como exatamente pedir ajuda. Assim, um passo a passo, um b-a-ba mais explícito porque olha.
Não queria ser grossa. Sei que a consciência sobre problemas e saúde mental vem pouco a pouco sendo expandida. O assunto vem sendo cada vez mais falado e abordado (às vezes de maneira meio cagad… ops, inadequada, mas ao menos tá sendo, meio aos trancos e barrancos porque aparentemente tudo é assim nesse mundo, mas mas mas ao menos
Tá
Sendo
Falado).
Não queria parecer ingrata, sei que a intenção é ajudar. Vai soar um pouco abusado — como se eu quisesse que os outros realizassem, tomassem para si inteiramente a tarefa de me ajudar, sendo que a vida é minha e quem tem que me ajudar sou eu mesma. Mas veja: eu queria que vocês fossem um pouquinho mais realistas. Não soa fácil demais jogar uns números de telefone para quem está tendo problemas e pedir para a pessoa ligar e ver no que dá? Digo. Nem estou considerando o fato de que absolutamente ninguém vai ligar para psicólogo ou psiquiatra no meio de uma crise (qualquer que seja). A ideia é ligar quando se está “normal”.
Sim, claro.
Porque quem tem ansiedade social, ansiedade, síndrome do pânico, depressão ou o caralho a quatro vai conseguir muito pegar o telefone e ligar para alguém para ver no que dá. Porque falar no telefone é algo tão, oh, simples.
Porque com certeza vou conseguir ir nos institutos de psicologia das universidades, enfrentar uma fila, falar com pessoas, passar por triagem, esperar sei lá quantos meses para ser chamado sem surtar no meio do processo.
Isso partindo do pressuposto que você pode legalmente fazer tais coisas (o que exatamente você fala para um adolescente que sempre precisa de um responsável para fazer tudo?)
Por que será que eu ouço a voz do Dollynho dizendo “Vai dar certo sim amiguinho, pode confiar”?
Porque é tão tranquilo conseguir acesso a psicólogos e psiquiatras, não é mesmo? Nós nem vivemos num caos de saúde pública. Porque a rede particular nem tenta te enfiar uns remédios depois de uma consulta de 5 minutos. Saúde mental é levada muito à sério por todos. Nem ouvimos que depressão “é frescura”, que “na minha época não tinha essas coisas”, que “isso é falta de Deus”, que “tem gente que está muito pior do que você e não reclama, valoriza a vida”.
Claro que não.
E eu nem estou falando do estigma de procurar ajuda. Da relutância que muitos possuem para realizar essa busca. Não digo que isso não seja um problema — pois é, e um sério. Digo apenas que vamos começar a problemática a partir do próximo passo. Você decide buscar a maldita ajuda.
Estou falando de você pensar em procurar o diabo dessa ajuda nesse mundo tão amigável e acolhedor. Tão preparado para você.
Quando a própria busca por ajuda já é uma luta, que forças você acha que eu terei para enfrentar a doença? Disso vocês não falam.
Vocês não falam que conseguir ajuda é extremamente difícil quando você não tem grana para tal. E mesmo que você tenha, essa ajuda pode ser bem cagada. A tradição médica lida muito muito mal com doenças psicológicas/psiquiátricas. Lembro do caso recente de um músico que morreu sem explicações dentro de uma clínica psiquiátrica no Leblon.
Imaginem o preço mensal desse lugar. Imaginem o perfil econômico-social de quem pode pagá-la.
Se esse cara não era lá bem cuidado, imagina você, classe média com seu plano da Unimed que você se fode para pagar.
Imagina você pobre que depende da saúde pública exclusivamente. Ou você meio pobre meio lá meio cá que consegue pagar um médico particular de vez em quando.
Imagina o resto todo. Os 95% da população.
Estamos todos fodidos. Sozinhos e completamente fodidos.
E eu falo isso rindo de nervoso pois hoje não estou em crise. Estou apenas com um humor meio duvidoso.
Vocês não falam que a DPA da UFRJ está há um bom tempo sem condições de realizar triagem, pois não há mais vagas — a demanda está muito superior à oferta. Vocês não falam que está igualmente difícil conseguir atendimento em outras universidades. Filas demais. Vagas de menos. Talvez em alguns lugares esteja mais fácil (ou menos difícil, depende do ponto de vista). Mas ainda é complexo. Você ainda terá que ter uma força que, nem de longe, possui.
(Afinal, você está há um bom tempo, mais do que consegue se lembrar, deitado na cama dormindo, não comeu nem tomou banho. Ou bebeu horrores e se cortou com um estilete velho sentado na cadeira, meio longe de si e do mundo. Ou chorou descontroladamente com falta de ar enquanto tentava sentir alguma coisa. Ou tudo isso junto — já tive esses dias, meu amigo).
Você terá que peregrinar, andar, enfrentar um sistema. Um sistema inteiro. Entendem que para alguém saudável e forte enfrentar um sistema inteiro é muito difícil? Imaginem o que é alguém já extremamente fragilizado e fraco fazê-lo.
Talvez se você estiver muito muito fodido consiga alguma coisa. Eu acho que foi assim que eu consegui uma vez a minha vaga. Tava tão mal que simplesmente segui o meu namorado. Ele fez o processo todo. Fiquei brincando com os gatos da Praia Vermelha que ficavam no meu colo. Depois, de forma meio mecânica, fui dando os meus dados para o responsável pela triagem. Lembro que tive uma crise durante a consulta, chorando desesperadamente, querendo me arranhar. Me chamaram em duas semanas — quando levava um mês em média. Eu ainda aguentei esperar. Quantos não aguentaram?
“Se for emergência você deve levar a pessoa para uma emergência psiquiátrica”
Qual, meu anjo? Pinel?
Você acha que alguém lá no interior do RJ conseguiria chegar no Pinel a tempo? Que fulana que mora dentro da Maré vai chegar lá? Quem vai levar a pessoa para uma emergência psiquiátrica, aliás? Se num geral estão pouco se fodendo pra doenças mentais, alguém em crise vai simplesmente ouvir frases como “Você não sabe o que é sofrer”, “Para de drama”, “Queria ver se você tivesse câncer”. Ou vai levar uma surra (porque é incrível como violência resolve todos os problemas para todo mundo). Vai ser largado sozinho. Falarão que é falta de religião. Falta de Deus.
É basicamente isso que acontece. Não tô fazendo recorte de classe, cor, gênero pois sinto que os dados seriam assustadores. Estou apenas lembrando de relatos lidos. Meio assim, largado mesmo. Se tiverem pesquisas com dados mais consistentes sobre o assunto, me passem, por favor. Só que eu sinto, apenas sinto, que está todo mundo na merda. Só variam os níveis de acordo com outros problemas sociais (vocês nunca ligam os problemas uns aos outros). Racismo, homofobia, machismo. Tá tudo juntinho e de mão dada.
Nem falarei dos hospitais normais, que farão um total de zero nadas com você. Médicos reviram os olhos, parecendo dizer “Não estudei para isso”, dizendo com rispidez que você teve uma crise de pânico e te mandando para casa pois têm coisa mais importante a ser feita. Psiquiatras te passando Rivotril e mais uns comprimidos depois de consultas de 2 minutos na qual nem olharam para a sua cara.
E, caso você tente algo contra você mesmo e não consiga, receberá um incrível tratamento humanizado, como lavagem estomacal dolorosa de propósito, enfermeiras reclamando de estarem te atendendo pois você não é um problema real na cabeça delas, “deveria ter se matado direito para não causar isso tudo”, falando que “se fosse minha filha levaria uma surra”, enfiando agulhas da maneira mais bruta e raivosa possível. Ou pegando no seu braço e mostrando onde os cortes deveriam ter sido realizados para obter o resultado desejado.
Nem estou falando um relato pessoal, antes que digam algo. É um conjunto de histórias que já passaram por mim.
Veja. Nem os profissionais de saúde se importam ou sabem lidar com isso. “Você está generalizando! Existem profissionais ruins em todos os lugares. Você deve insistir, continuar procurando.”
Sim, meu anjo. É obvio que existem profissionais sérios e competentes, que tratam e estudam a questão com seriedade e respeito devidos, com projetos incríveis. Que desejam mudar as coisas e chegam a doar suas vidas para tal. Mas quando tais relatos se tornam tão frequentes, pode-se concluir que esses profissionais não são maioria e não são aqueles com os quais as pessoas conseguem ter atendimento. Logo, estou generalizando. Nem só porque estou absurdamente cansada, ou porque leio esses relatos com tanta frequência que preciso ler de novo para me certificar de que são pessoas diferentes. Estou generalizando porque é assim que a coisa se mostrou para mim. Para você pode ter sido diferente — e céus, eu espero que tenha sido. Que a sua família tenha te ajudado, que seus amigos tenham te ajudado, que você tenha tido suporte para buscar médicos mesmo quando um não deu certo e tenha esbarrado com essas equipes maravilhosas que existem por aí.
Com certeza existe um médico bom e que pode me, nos ajudar. Mas eu não necessariamente terei acesso a ele. Ele pode estar no Pará. Eu tenho tempo, condições financeiras e mentais para ir ao Pará? Não. Para rodar a cidade, o estado, o país inteiro em busca de um profissional que me ajude? Também não. E eu nem falei de outra questão. Cada psicólogo ou psiquiatra possui um tipo de tratamento e uma maneira de enxergar a doença — assim como qualquer outro médico. Eu, por exemplo, não me dei bem com psicanálise. E adivinhem qual a linha de quase todos as universidades que oferecem tratamentos à comunidade?
Pois é.
Daí querem que eu, nós, tenhamos coragem de virar para esse mundo tão bonito e pedir ajuda.
Claro. THIS SHIT IS EASY PEASY, PUMPKIN PEASY, PUMPKIN PIE, MOTHERFUCKER
Ninguém fala essas coisas. Parecem ter medo de chutar o homem que já está com a perna quebrada e ensanguentado no chão. Pois eu digo: estamos sozinhos nessa, jovem. Completamente sozinhos. Se tem gente morrendo em fila de hospital depois de levar um tiro na cabeça você realmente acha que tem alguém olhando por nós? Não falo em Deus não, ele não entra na história.
Param para falar sobre saúde mental quando o amigo do trabalho é encontrado com os pulsos cortados em casa. Quando o cara daquela sua banda da infância é encontrado enforcado no quarto de hotel, depois daquele menino rico da zona sul se atirar do prédio. Falam que a doença é triste, que devemos ajudar, mas se o seu amigo liga furando o rolê porque não consegue sair da cama ele é mó vibe negativa, cancela tudo, nunca mais chamo pra nada.
Se alguém fala que pensa em suicídio você diz que não tem que reclamar da vida, pois tem gente muito pior, veja aquelas crianças doentes no hospital. Você tem comida, casa, tá reclamando de quê? Se alguém se mata, você fala que é egoísta, que tinha que pensar nos outros, nos filhos, na mãe. Se a pessoa está tendo um ataque você fala para parar de bobeira.
Daí quando ela realmente se mata fala “Ninguém percebeu, estava ao meu lado, nossa”.
Sim, estou propositalmente misturando narrativas ouvidas de acordo com o que me convém. Sei que não é assim preto no branco. Sei que existem um milhão de histórias, um milhão de possibilidades, um milhão de narrativas diferentes que se constroem todos os dias a partir de diferentes variáveis. Mas por que, céus, porque tudo isso me soa tão familiar do jeito que está?
A dificuldade para conseguir um tratamento decente me impede de procurar o tratamento em si. Pois a única coisa que consigo pensar é que eu não tenho dinheiro ou disposição para peregrinar de médico em médico, remédio em remédio, psicólogo em psicólogo. Que a medicina é vendida para cacete e os médicos receitam os remédios que lhes convém pois recebem muito “incentivo” de uma indústria farmacêutica que lucra horrores com doença mental — e não quer que isso mude. Que eu não acredito em terapia e ela não funciona por isso.
Sei que jogar isso assim é estranho, como se fosse uma religião, um Deus, mas é assim que eu enxerguei a coisa. Ela não faz efeito se você não se comprometer e se esforçar no processo. Como eu simplesmente não acredito que falar por uma hora sendo interrompido de vez em nunca com algumas perguntas sobre a minha infância vá me ajudar em alguma coisa, não me ajuda. Não consigo me esforçar para nada. Virou um fardo, um problema na minha semana. Depois comecei a sentir culpa — estava roubando a vaga de alguém que poderia estar sendo salvo com isso que eu julgava ser uma pedra no sapato deveras incômoda e inútil. Então pedi para sair. Vez em quando eu lembro da voz do Will dizendo Therapy doesn’t work on me. I know all the tricks. Sei ser muito presunçoso da minha parte afirmar isso, mas era como eu me sentia. Lembro de ficar pensando “Ela vai perguntar da minha infância com meu pai”, “Agora ela provavelmente vai perguntar como eu me sentia”, “Agora ela vai perguntar se eu já vi ligação entre o acontecimento x a minhas reações y hoje em dia” e ria internamente pois achava aquilo bem inútil e ridículo. Pode ter sido apenas uma má profissional? Talvez. Só que não consegui acreditar que aquilo me ajudaria, nem a longo prazo, e não consigo continuar uma coisa na qual não acredito, não vejo lógica, e simplesmente larguei de mão.
Nenhuma terapia vai me ajudar por motivos simples: ela não ajuda a melhorar as coisas em si, mas como eu me sinto em relação às coisas. Por 2 + 2 pressupõe-se que isso vai resultar numa melhora das coisas por efeito dominó, cascata, mas céus, não. Não é assim. Pelo menos não comigo. A ideia de que as coisas ainda estarão lá me atormenta mais do que qualquer coisa. Mudar como eu me sinto em relação a elas nada mais seria do que uma mentira, a big fat lie, com a qual eu não conseguiria conviver pois saberia sempre que por baixo daquilo tudo a coisa ainda estará lá, linda e bela e intacta.
Ninguém fala sobre essas coisas. Gostaria que alguém tivesse me dito.
Que tivessem me dito que nenhuma terapia vai curar você. Que você terá que conviver para sempre com isso. Para o resto da sua vida. Que você jamais será a pessoa sem a doença, a pessoa que poderia ter sido se não fosse a doença. Isso não existe. Você não será essa pessoa, mesmo que tente muito. Pode melhorar em alguns aspectos. Pode progredir. Mas ser, ser, não. Que você pode tomar remédios e fazer terapia por anos e anos e não sentir lá grandes mudanças. Que médicos podem ser muito bostas, psicólogos também. E absolutamente nada vai te ajudar com esse buraco, com esse véu que está ali entre você e o resto do mundo, que te impede de enxergar e sentir as coisas. Que a sensação de apatia será sempre sua, que estará sempre sempre ali. Que o mundo será sempre sem cor e meio cinza — pois sempre foi assim, não é? Desde sempre foi assim, há 22 anos é assim e você não conseguiria viver de outra forma. Ao contrário de alguns casos, você não tem um antes para o qual possa olhar com nostalgia, aquele eu perdido pela doença — o seu antes é desde sempre. Essa é a principal diferença, não é? Você não sentiu que algo ficou diferente, que perdeu o prazer nas coisas que te davam alegria.
Nada nunca me deu prazer ou alegria. Essa névoa cinzenta te acompanha desde os primórdios. Nunca será diferente. Você nem sabe como seria se fosse diferente.
E você está tão cansada para sequer tentar.
Tão absurdamente cansada.
