Estepe
Andar de bicicleta em São Paulo é se colocar em pele de presa. Visto minha armadura abençoada pela paciência, a pescoceira e as luvas; dou a primeira pedalada.
Os roncos abafados das máquinas ofegam em minhas têmporas atentas enquanto procuro por espaço para transitar por entre as feras.
Elas mal percebem a minha presença.
Não hesitariam em me esmagar com suas garras mecânicas caso cruzassem o meu olhar afoito.
Medo, calma e sorte me acompanham no vazio do meio-fio. Brigo com as motos para não vacilar e cair no campo de visão das bestas automotivas. O medo eleva sentidos e visão periférica, com os quais calmamente controlo os momentos de necessidade.
Já a sorte…

São Paulo é uma estepe.
No topo de sua cadeia alimentar, reina o automóvel. Nós somos as presas, aguardando no deserto de imprevisibilidades.