Cruzeiro do Sul

Ônibus de viagem é sempre um barato pra mim. Ou, pelo menos, era, toda vez que eu tinha que voltar pra casa e não tinha dinheiro para pagar um voo. Eram 30 horas naquela poltrona que, para muitos, era a coisa mais desconfortável do mundo. Eu, que sou pequena, sempre me ajeitava com as pernas encolhidinhas, um livrinho, uma palavra cruzada super desafio para testar o meu português e a espera (o sol da tardinha entrando pela janela e batendo no meu peito). Espera, sim, porque, em algum ponto da viagem, eu sabia que iria conhecer alguém muito surpreendente. E não dava outra: certa vez, conheci uma mulher que me ensinou sobre metafísica, me deu um livrinho (Metafísica 4 em 1. Devo ter perdido em alguma mudança…) e me incentivou a aprender sobre as coisas do mundo invisível que hoje tanto me fascinam. Em outra viagem, conheci um senhor que me ensinou a ler gente pelas suas assinaturas. Foi ele quem me apontou que, na minha, o meu nome estava claríssimo, mas o meu sobrenome parecia uma linha com alguns pontos (O famoso nome do pai, né?). Isso fez o maior sentido pra mim e deu sentido pra minha fuga daquela figura pela qual todo ano eu fazia essas 30 horas e quem me esperava, pontualmente, na rodoviária da minha pequena cidade. O meu nome fora minha mãe que me deu. O sobrenome é aquela coisa da qual a gente não tem como fugir…

Mas, enfim, foram alguns encontros com pessoas que nunca mais vi, pessoas em trânsito, sem nome, sem rosto. Apenas presenças fortes e ensinamentos que duram até hoje. Sonho em voltar a fazer essas viagens, sozinha. Não sei o que aconteceu: o avião ficou mais barato, o tempo passou a valer dinheiro, as raízes foram fincando, e o solzinho do fim de tarde no meu peito ficou pra trás.

Hoje, repensando essas histórias, vejo o quanto essa troca de delicadezas me faz falta, o quanto esse tempo parado na caixa de não-sei-quantas rodas com apenas a iminência de alguma presença desconhecida também parada no mesmo instante, o quanto esse tempo é mesmo o material da vida. O quanto esse sol que tanto castiga a cidade onde eu moro pode ser, sim, o mesmo sol dourado que cura, o mesmo que abençoa cada encontro com quem quer que seja. E que essas pessoas sem rosto e sem nome, elas continuam a zanzar por aí, apenas esperando por mais uma oportunidade de me ensinar um pouco mais dessas coisas com as quais ninguém se importa.

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