Queda

O azulejo é frio e levemente áspero. Engraçado como os pés sentem diferente das mãos. A ponta dos dedos sente o frio e pequenas ranhuras que com a sola dos pés era impossível sentir, que meus olhos jamais notaram. Quando entrava nesse banheiro o olhar era fixo na janela, nas prateleiras de shampoo, logo notava que era preciso comprar sabonete.

Agora os dedos sentem ranhuras na cerâmica, nunca antes percebidas. Uma das unhas se quebrou e traz uma sensação diferente à ponta dos dedos.

Ainda tremem, aqueles ossos que ligam três partes diferentes do nosso dedo, elas tremem por dentro e minha garganta ainda está seca. Meu coração bate à galope, tanto, que até música faz, provocando tremor em veias próximas às têmporas. Um gosto salgado de suor invade os lábios e tira o foco das mãos e da cerâmica, é então que, pela primeira vez, avisto o teto.

Noto manchas pequenas de mofo, e percebo que uma formiga alcançou grande distância e passeia próxima ao lustre, sujo. Como esse lustre está sujo meu Deus. Quando conseguir me reerguer limparei o lustre, tem mosquitos mortos dentro do envoltório de vidro que emoldura a luz e traz um novo desenho à parede. Mas é um desenho que me revela ter sido desleixada com o teto do meu banheiro.

A fisgada da dor no fêmur silencia minhas observações. E percebo que por segundos não respirei. Tem um tanto de ar preso no peito. O suor escorre, não quero mais engolir o suor. Meus ossos do punho e braço tremem, tremem por dentro ossos que ligam as três partes do braço e errando meus lábios, esfrego e limpo essa lágrima estranha do meu corpo, que salga meu paladar.

Dói. Então é preciso esvaziar o peito. Será que em alguma parede encontro o relógio? Tem um na sala, daqui não avisto. Meus pés encobrem a visão. O pé que me arrancaram um dia e não existe mais e o pé que escorregou e trouxe essa dor no fêmur. A perna não treme em suas três partes, treme no que lhe resta de músculo.

O socorro virá.

Um mosquito faz uma melodia que me arranca da procura pelo relógio na parede da sala. Entra zumbindo, voa próximo da formiga e no encontro de duas paredes é fisgado por uma teia de aranha. Meu Deus, deixei uma enorme teia se formar ali, nunca vira. Será preciso mesmo uma escada para limpar o teto. O mosquito se enrola na teia, se revira, luta, em vão.

Agora é aguardar a aranha.

Silêncio.

Encontrei compasso na respiração e a dor se acalma, anestesia. Encontro a sinfonia do meu corpo. Então as três partes de ossos se acalmam, as três partes de mim conversam orquestradas pelo ar que entra e sai. A formiga sumiu. A cerâmica esquentou.

Daqui escuto o relógio.

Vejo um par de botas se aproximar. O socorro. Ainda serei erguida mais uma vez. Ainda dá tempo de ver a aranha se aproximar do mosquito.

Julieta Dobbin