Senioridade no UX Design — Uma breve reflexão sobre o título e o cargo.

Julião
Julião
Nov 4 · 13 min read

Começo dizendo que eu não sou um sênior e é exatamente sobre esse assunto gostaria de discutir, mas para que esse texto fique claro, devo me apresentar.


O ONTEM:

Comecei minha carreira como desenvolvedor frontend e apesar de passar muitas horas da jornada de trabalho estudando javascript e codando, notei que precisava aprender mais coisas além da programação para ser um profissional um mais valioso.

Eu não saberia dizer se foi uma influência do meu mercado ou das referências que tinha de ‘profissionais bem sucedidos’, mas notava que quando me envolvia em um projeto de baixo custo, o cliente sempre desejava algo além do combinado e, consequentemente, pela minha falta de tato na negociação acabava acatando alguns desafios além do combinado. Mas há males que vem para o bem pois comecei a ler alguns artigos sobre SEO e procurar entender “como os mecanismos de busca do Google leriam o meu código”, dessa forma, passaria a ser um profissional ‘mais requintado’. Mandei o meu humilde portfólio para uma agência de SEO e consegui a vaga, no mesmo mês estava contribuindo com a equipe em construir sites em Joomla para os clientes. Era uma troca justa, pois experienciava na prática como funcionava o SEO. Alguns anos depois, já com mais bagagem, entrei em uma agência focada em CRO, onde fazíamos muitos testes A/B em ecommerces nacionais. Essa foi uma segunda grande escola!

O tempo passou e eu fui ganhando espaço e destaque nos lugares em que trabalhei e logo depois fui para um produto. Meu acervo de conhecimento e o domínio que tinha sobre os códigos que estavam sendo desenvolvidos passavam a segurança necessária para me aventurar como front em um novo desafio. Esse momento foi um grande divisor de águas em minha carreira, foi aqui que eu conheci o UX e iremos caminhar para a reflexão desse artigo.

Conforme exercia uma maturidade profissional e independência na minha jornada envolvendo códigos, discuti que precisava de pessoas a mais para desempenhar funções específicas no processo e que elas deveriam ser úteis também para desenvolver outras áreas. Com muito custo e esforço, convenci o CEO do ecommerce a contratar um parceiro, nesse momento, enquanto fazia entrevistas, conversava com o marketing da empresa e, muitas vezes em uma reunião, ouvia que eu “era bem humorado demais para ser programador”, então provavelmente estava na área errada. A carreira caminhou de certa forma que fui identificando um certo 'padrão' no mercado em que a postura do programador (esse que muitas vezes estava concentrado no que estava codando para não perder a linha de raciocínio) era vista como motivo de chacota, então, as vezes nessas mesmas reuniões, uma pessoa dizia “meu problema com programadores é que eles são muito negativistas, falam que não dá pra fazer sem nem ao menos tentar!”. Mas ao discutirmos nossa estratégia para o blackfriday daquele ano, a mesma propôs que “na página do produto, vamos colocar um upsell dentro de um lightbox em uma landing page”. Olhei incrédulo. Como eu, programador, iria dizer para essa pessoa (que era uma grande influenciadora no time e na empresa), que ela acabou de falar uma sopa de letrinhas bonitas e que não fazia nenhum sentido, portanto, não daria para fazer.

Expliquei esse caso para salientar que eu notei uma oportunidade de ser um ótimo tradutor! Eu entendia o que o marketing queria dizer e falava de outra forma com os demais programadores. Assumi certa autonomia com os demais programadores, pois conseguia barrar alguns furos no processo sem que os envolvidos achassem que estávamos fazendo desfeita. Essa mudança de postura me trouxe um insight muito bom e logo quando fui empreender cerca de dois anos depois desse momento, me fez entender que, por mais que eu fosse um bom programador (algo que o mercado diria como Frontend pleno em rota de sênior), não me dava a outorga para dizer que eu era um bom gestor. Eu tinha mais experiência e caminhada como programador do que como gestor, então ainda precisaria aprender muita coisa para também caminhar. Ser um 'bom tradutor' não me tornava um bom líder.

Voltando um pouquinho nessa fase trabalhando ainda no produto, culminamos em redesenhar o ecommerce e além disso, trocar de plataforma. Nessas duas questões cruciais que envolviam o business da empresa, me surgiu o seguinte questionamento: “Preciso construir um novo ecommerce, mas para quem?”, a liberdade que eu tinha para desenhar a jornada me trouxe tantas dúvidas de como seria feito que todos os envolvidos tiveram que quebrar a cabeça para identificar uma rota mais segura para enfim construir essa jornada. Eis que surge surgiu o bendito do UX Design.

O termo era uma novidade para nós, então, entende-lo era um desafio interessante pois a proposta vinha a calhar com nosso atual momento, e não posso dizer que não foi útil. UX nos trouxe a clareza necessária para começar a analisar os dados que estávamos consumindo e validar com o público, envolver outros setores (atendimento e comercial) no processo da idealização e validação.

Não tinha notado, mas nessa altura eu ja havia sido contaminado pelo vírus da experiência do usuário. Me apaixonei pela “beleza” do processo de envolver o usuário em algumas tomadas de decisões e queria trabalhar com isso, exatamente com isso. Mas nem tudo é flores, existe um aspecto comercial muito profundo dentro do design que eu ainda não havia identificado. Eu precisava vender o meu processo de elaboração tal como a solução para os diretores e eles teriam que ver parte do valor que eu via nisso tudo. Bom, fui podado. O business falou mais alto e esse processo se mostrou “muito trabalhoso, vamos perder tempo e dinheiro” e eu não consegui contra-argumentar. A cultura do design foi morrendo e substituída pelas métricas e performances em face Ads. O caminho que vendia mais, era o caminho que deveríamos seguir, enfim, pedi as contas e montei uma agência focando em UX. O objetivo era traduzir metodologias e interações com empresas que não tinham a cultura do design instalada e construir um produto para isso.

Para o mercado, se posicionar no como uma empresa que faz só uma coisa te dá muita autoridade para falar sobre o assunto, não necessariamente você ainda sabe discorrer tão bem sobre aquilo, talvez não tenha tanto nível técnico quanto gostaria. Muita gente queria me ouvir, propor reuniões e terceirizar seus problemas. A experiência do dia-a-dia vai te ensinando muitas coisas que ainda não estão nas páginas dos livros, então fomos trocando o pneu com o carro andando e de repente estávamos em uma corrida e as apostas estavam cada vez mais altas que iríamos ganhar!

Esse processo todo fazem cinco anos e até hoje estou aprendendo coisa pra caramba, mas não é assim que o mercado começou a me enxergar e veio um tsunami de propostas. Toda a semana uma head hunter me procurava no LinkedIn dizendo que “estava com uma oportunidade e precisava de um UX Sênior em um novo desafio incrível” e precisava conversar. Um pouco depois, passei a ser notificado no LinkedIn sobre vagas as vagas de “UX” e “Designer de Produto Digital” e de 300, pareciam que 290 eram para sêniors. Notei que o mercado tinha essa necessidade de sêniores. Mas, por que?

As primeiras head hunters, eu tentei evitar e falar ‘não, obrigado. Eu não estou no perfil da vaga’ e ainda sim insistirem. Passei a me perguntar: “eu sou um sênior em UX Design?” Há áreas do mercado que demandam vinte anos de estudo para você se considerar um sênior, mas o termo “UX” nasceu em 90, apesar de não ter sido concebido na mesma época, comecei a refletir se estamos ha 30 anos falando sobre isso, será que já possuímos maturidade o suficiente para separarmos qual a gama de conhecimento necessário para que surja essa “divisão”, ou será que estamos apenas herdando a divisão de outras áreas do mercado por osmose, portanto, não sabemos essa categorização?

Voltando para a narrativa, comecei explicando a minha jornada como desenvolvedor, depois como ponta de um time e também como empresário para solidificar que, não é porque sou uma coisa que eu iria ser outra no mesmo nível técnico e ter uma experiência tão boa quanto. Eu ressalto isso em tom de alerta, pois há uma grande fatia do mercado de Visual Designers Senior (UI) que ao migrar para o UX, também levantou a bandeira dizendo que era sênior.

Há pessoas que são muito boas no visual, muito boas mesmo! São artistas incríveis, mas nunca conversaram com o seu usuário final. O UX veio para uma grande parte dessas pessoas como uma forma de melhorar o processo de criação de seus layouts, fazendo rabiscoframes, depois wireframes, prototipagem, mandar para o cliente acessar (link no Adobe XD, Invision e etc) e se ninguém falar nada, o layout estará pronto em até duas semanas e depois cai pro time de programação. Pronto. Esse começo do processo (brainstorm, rabiscoframe, wireframes e prototipagem) passou a se chamar de “UX” e ja teria argumento o suficiente para colocar no LinkedIn “UX/UI”.


O HOJE:

Eu tenho feito muitos bootcamps, ouço podcasts e eu acho que devorei todos os livros que se posicionam como “introdutórios ao universo do UX Design”. Boa parte desses livros defendem que o UX está mais para um processo, do que uma cultura ou um conceito que deve ser incorporado. Eu discordo desses livros. Acredito que quanto mais desassociarmos que UX é “uma metodologia a ser seguida”, mais passaremos a olhar para pessoas, entender seus padrões, identificar pontos de melhoria, propor soluções (design) e depois analisar a experiência em relação com essa solução (UX). Então não é o rabiscoframe e a prototipagem que fará toda a diferença.

Eu procuro mostrar esse gráfico para todas as pessoas que eu tenho contato. Eu sou um grande defensor desse conceito. Risos!

Para explica-lo, vou citar dois casos reais e com nomes fictícios:

João é um jovem muito bom em BI e estava fazendo pós em big data. Trabalhando em um produto digital possuía diversos insights em todas as reuniões de alinhamento, pois via que seus números refletiam com exatidão outras áreas da empresa e vice e versa, então mergulhou um pouco mais em seus dados e identificou algumas tendências e padrões no comportamento de seus usuários. Nessa altura do campeonato, a empresa na qual ele estava envolvido também foi impactada pelas novas terminologias do mercado e foram abordadas pela monossílaba UX, então, discutiram bastante sobre e contrataram uma consultoria que pudesse munir o time com mais informações sobre seus usuários afim de melhorar o produto final e diminuir o turnover de clientes.

Em um café com um dos responsáveis pela consultoria, foi sugerido que João fosse pra campo, saísse do escritório e botasse a cara no sol, ao fazer, João descobriu duas coisas:

  1. Ele gostou bastante de UX Researcher;
  2. O padrão de comportamento estava sendo gerado pelo contexto em que os usuários estavam inseridos, por tanto, não era algo planejado, o que dificultava uma conclusão rápida.

“Essencialmente, o erro está em nossa tendência de atribuir o comportamento das pessoas à maneira como elas são, em vez de atribuir à situação em que elas se encontram.” — Lee Ross

João é um sênior quando o assunto está relacionado aos dados, mas está começando quando o assunto é entrevistar pessoas. Em sua primeira experiência penou, teve dificuldades, enviesou algumas respostas. Foi difícil até mesmo mudar o comportamento que não precisava entrevistar 50 pessoas e que 5 já estava de bom tamanho. Aliás, não podemos julgar o joão, afinal, alguém que pensa no macro e está acostumado a olhar milhares de dados, passar a entender que apenas 5 pessoas teriam um universo de dados e você poderá extraí-los é uma quebra muito grande de paradigma.

“Milhões viram a maçã cair, mas foi Newton que perguntou por quê.” — Bernard Manners Baruch

Fernando pode ser um incrível growth hacker e trabalhar a performance como ninguém, mas ele não é um sênior quando o assunto for desenhar personas, aplicar metodologias de design thinking e entender a jornada do usuário com aquele produto, inclusive após a aquisição do produto. O usuário vai se adaptar bem? Utilizará, comprará novamente? Recomendará para amigos? (Sexta, no globo repórter…)

Fernando só aceitou que não sabia tudo e ao assistir uma palestra, o orador comentou sobre UX como ‘a solução para esse tipo de problema’, novamente colocando UX como processo. Fernando pesquisou a respeito, procurou algumas formas de hack e pediu dicas para alguns amigos no linkedIn e uma coisa foi chegando a outra, até que alguém explicou para ele uma visão mais macro da situação e soube introduzi-lo nessa forma de pensar um pouco diferente da convencional, em que 'talvez' o usuário poderia ser entrevistado.

Continuando… Eu sei aplicar muito bem as dinâmicas, entendo um bocado de tecnologia, mas e quando o assunto é achar a mosca branca para compor o meu time? Eu preciso encontrar uma pessoa que tenha algumas hard skills e listar as soft skills, mas eu precisaria de alguém para aprender a entrevistar e também a lidar com elas no dia-a-dia para construir uma cultura de design no meu time. Ser alguém que conversa com pessoas não me torna um bom ‘head hunter’. Aliás, quando as pessoas estão no centro processo, não estamos falando apenas das usuários (externos), também precisamos olhar para dentro da operação (Surprise! o círculo denominado de people não diz respeito apenas aos usuários do seu produto).

Quando o assunto é business, eu não preciso só entender o mercado, devo estuda-lo. Estar em um projeto, conversar com os C-levels do projeto, entender as demandas e o tamanho do mercado, onde entram as formas de ganho e onde está a proposta de valor desse modelo de negócio, não apenas o documento de cultura, mas o business plain mesmo. Depois de me aprofundar nesse novo universo, eu preciso saber vender a minha solução para os diretores como uma proposta factível e viável, apresentar os benefícios da solução em relação ao momento do mercado e o crescimento do mesmo em alguns anos, onde vamos atacar e o porquê. Preciso apresentar tudo isso em números e já economizarei linhas em ressaltar que mesmo após o êxito, também não me tornarei um especialista no assunto. É comum notarmos pessoas trabalhando no mesmo mercado por muito tempo, mesmo que passou por empresas diferentes, porque aprender novos mercados é difícil pra caramba e leva muito tempo. Se você fizer uma solução de design para um mercado, não te tornou expert naquele seguimento, mas eu posso te dar a certeza que você não fará isso da noite pro dia.

Precisamos estudar essas quatro áreas para entender o UX e as áreas que desmembram (writter, Researcher, Strategy e etc) vão se formando conforme você se aprofunda em uma dessas áreas. Tanto João quanto Fernando passaram a estudar essas pools para exercer melhor o seu trabalho e isso não fez deles um UX Sênior.

Eu chego a conclusão de que há muitas pessoas que possuem uma boa compreensão do que é design e UX, e pelo fato de muita gente estar perdida ou surgir essa demanda nas empresas, esses que possuem estímulos de lucidez sobre a área já são considerados sênior. A postura profissional (em saber identificar a sua demanda, compreender o que é necessário para seu estudo e ir atrás das suas respostas) o coloca fora da curva e, colocar essas duas coisas no mesmo patamar te transmite um título que o mercado está usando por pura influência.

Parem com isso… É muito difícil dizer que alguém é sênior em resolver problemas e em entender o ser humano.


O AMANHÃ:

Eu sou um dos mentores de modelagem de negócio na incubadora de negócios do Sebrae-SP e também palestrante de UX no Startup SP e outros programas do Sebrae. Tenho como principal objetivo fazer com que as startups olhem para pessoas e passem a querer solucionar alguns problemas antes de olhar para um possível novo negócio e buscar formas de como ganhar dinheiro com isso.

Quando eu vejo que alguém também foi mordido pelo mosquito do UX, a primeira pergunta que me fazem é: “Eu quero aprender isso, como eu faço? Por onde eu começo? É fácil?”

Eu não quero desencorajar ninguém, mas não posso apresentar um mundo cheio de unicórnios coloridos, porque não é assim. Você deverá estudar muito. Estudar coisas que talvez não sejam óbvias. Você irá viver tantas coisas, conhecer tantas outras, se envolver em tantos mercados e fazer um apanhado de tantas coisas que no final, você olhará para isso tudo e falará, nossa, estou estudando design!

“Se você ficar no escritório tentando ter ideias, não terá uma boa base para a sua ideia, apenas saia e viva a vida, isso cria um acervo mental que você poderá explorar com novos designs. (…) e no meu papel como provocador, eu preciso pensar mais além, lá no futuro. É preciso olhar para a paisagem do mundo e falar “Tá, eu vou solucionar alguns problemas. Vou colocar recurso de design, pegarei tudo isso, correrei alguns riscos, farei algumas suposições e misturar tudo.” — Tinker Hatfield

Algumas pessoas estudam design, outras preferem começar direto pelo UX. Alguns artistas querem virar criadores de experiências sem passar pela fase necessária para chegar lá. Você precisa estudar mercado, ações, crescimento, ‘oportunidades reais x mudanças de cultura’ e alguns modelos de negócios que ficaram para trás, mas “também” (principalmente) estudar pessoas. Se interessar por algumas ciências humanas (como sociologia, antropologia, psicologia) para entender alguns padrões e desenvolver muita empatia.

Quando eu digo ‘oportunidades reais x mudanças de cultura’, estou ressaltando que nem toda a oportunidade de negócio é de fato uma mina de ouro, talvez seja uma mudança de cultura (em efeito cascata) e por isso alguma área do mercado está sofrendo lesões enquanto não se adapta. Pense: Quantas startups ou ‘oportunidades’ surgiram para tentar salvar a blockbuster?

Depois de estudar tudo isso, você precisa se perguntar: o que eu estou fazendo? O que eu estou deixando para trás? Que tipo de impressão digital com o meu nome estou colocando no mundo? É nessa hora que você começa a pensar em desenvolver cultura, liderança, postura, conduta, feedbacks e sustentabilidade.

Defendo que precisamos parar de nomear tudo como “User Experience Design” como um termo de processo e passar a colocar o humano no centro do seu negócio.

Encerro com uma provocação: Será que em algum momento chegaremos em um fim? Quando você (ou eu) vamos alcançar o nosso ‘objetivo final’? Em alguma fase da minha trajetória, eu dominarei boa parte dessas questões que levantei nesse textão a ponto de me considerar um UX Designer Senior? Seremos algum dia sêniores nessas áreas, ou seremos considerados apenas bons designers?

Julião

Written by

Julião

Sou designer, programador, lead do time de tecnologia e pesquisa, apaixonado por UX design, mentor e palestrante no Sebrae-SP, apreciador de café e mestre jedi.

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