Pra que a vida seja mais amigável na estação — e fora também, claro

Andar de transporte público em São Paulo oferece alguns dilemas interessantes. Se por um lado, quando em movimento nos ônibus ou vagões do metrô, estamos sempre sujeitos a paradas técnicas e trânsitos caóticos que atrasam milhares de cronogramas por dia, dentro das instalações, terminais e estações, o ritmo é sempre constante. Pra não dizer frenético.

Nas escadas rolantes, nas catracas, entre as filas, não há tempo pra nada. Cada segundo é precioso demais para se perder dando passagem a alguém que vai na direção oposta — o próximo que seja gentil, não a gente. Eu mesmo sou daqueles que já desejou a implantação da pena de morte no Brasil para as pessoas que param no lado esquerdo das escadas ou nas áreas de embarque dos trens. Entretanto hoje, e só por hoje, eu resolvi desacelerar.

Posicionei-me à direita da escada, onde fica o departamento do descanso. Encostei na parede e li mais 15 páginas do meu livro. Peguei fila para ir sentado, sem pressa. Desacelerei não só os passos, mas também o pensamento. Sorri pra cada um que me olhou, distribuí desejos de bons dias e boas tardes. E para meu feliz espanto, muitas vezes fui correspondido. Percebi então, ali, uma potencial incubadora de amizades. Uma possível concretização das redes sociais.

Pense só como seria bacana: você cede o seu assento para aquele senhor de idade e todos ao redor posicionam o polegar em riste pra curtir aquele gesto de solidariedade. Você consegue uma graciosa combinação de roupas e recebe diversos comentários elogiosos. E poderia até haver grupos segmentados, no melhor estilo comunidades do Orkut. A comunidade “Eu odeio pegar metrô na Sé”, reuniria as pessoas com a finalidade única e exclusiva de reclamar da lotação da estação mais populosa da via férrea paulistana. Os interessados em achar um amor-passageiro ou de longa duração entrariam na “Amor sobre trilhos”, esperançosos e galantes.

Eu, por questão de afinidade, faria parte do “Clube do livro metroviário”. Veria aquela senhora lendo A Menina que Roubava Livros e logo diria “é, um romance razoável, mas num dá pra ler isso num mundo que tem Cem Anos de Solidão, né?”. Pediria ao rapaz que procura amor nas páginas de Nicholas Sparks que tentasse Clarice (não a Falcão, e sim a Lispector). Observaria a expressão confusa da moça que me perguntou se eu era realmente meio intelectual e meio de esquerda como dizia a capa do livro em minhas mãos ao me ouvir responder que era muito menos intelectual e um pouco mais de esquerda.

E o conceito poderia ser expandido sem problemas para outros locais de convívio coletivo. O elevador poderia funcionar como um Twitter. Frases curtas, jogos de palavras e algumas imagens engraçadas trocadas entre o segundo e o sétimo andar. A praça — por que não? — seria o novo Instagram. Mas sem os filtros, evidentemente.

O fato é que, nesses tempos de correria absoluta e impessoalidade virtual, qualquer respiro (e promessa) de contato físico já faz toda a diferença. Direcionar a atenção dada às telas para os rostos desconhecidos durante a viagem de casa até o trabalho pode não resolver os conflitos entre Israel e Palestina ou solucionar a crise hídrica de São Paulo, mas certamente nos abastecerá de mais humanidade e, oxalá, até de mais empatia. Ao menos até à estação de destino, ou enquanto o celular estiver sem sinal.