Vou embora.

Meus olhos fitaram os dela demoradamente, mais do que o normal visto em filmes “água-com-açúcar”, mais tempo que o sinal vermelho da esquina (que consegue me aborrecer num sábado pela manhã). 
Os olhos dela não estavam nos meus, mas em tudo menos nos meus. Eles percorriam todo aquele quarto melancólico com todos seus desalinhos que poderia facilmente ser uma locação de algum filme de Lars von Trier. Ela já havia visto aquele quarto incontáveis vezes, mas eu sabia que o quarto não era o interesse do seu olhar, o interesse estava na fuga dos meus e isso é o que me corroía.

Havíamos acabado de ter uma transa curta (como as que já tínhamos a alguns meses) e continuamos deitados enquanto ela fumava seu Dunhill.
Um desavisado acharia que havíamos se conhecido a poucas horas, não saberia ele que estava na vida dela a um ano e oito meses, não saberia ele que depois de uma transa ela sempre deitava em meu peito e colocava sua coxa na minha e dormíamos, não saberia ele que colocávamos o som de Cícero para tomarmos um banho antes dela ir pra sua casa, não saberia ele que ela me chamava para assistir o Amores imaginários pela milésima vez, não saberia ele que ela já me amou.

Tento tocá-la, mas não consigo por sentir um bloqueio invisível, e além disso sei que não servirá de nada, sei que vai ser em instantes, e então vejo a boca dela se mover como que criando força para se abrir. 
Ela se vira pra me fitar , finalmente e diz

- Vou embora.

o mesmo desavisado poderia entender que ela voltaria amanhã.
Mas ela não vai mais voltar.

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