Como meus dias devem terminar

Meia noite.

Mais um dia que chega ao fim em minha vida.

Analisando o que essa frase significa, agora provavelmente estou um dia mais próximo do fim do caminho, um pouco mais próximo do merecido descanso eterno. E esta definitivamente é uma visão verdadeira sobre o futuro, não há como negar, mas se for para pensar no futuro, eu prefiro acreditar que o dia terminou comigo dando um passo para me tornar a pessoa que desejo ser, aquela que vai impressionar não somente as pessoas que sonho em orgulhar, mas especialmente a mais importante de todas elas:

A minha.

Ainda que esta opinião transmita firmeza e lucidez, a certeza nunca foi uma palavra presente em minha vida. Pelo contrário. A maioria de minhas convicções foi forjada através de muita confusão, agonia e perseverança. O curioso deste processo é que estes sentimentos são os que deveriam me impelir a entrar nos trilhos para entender e criar ao menos uma fotografia do que desejo, mas são justamente eles que me empurram para longe toda vez que me aproximo de algum tipo de ideal particular.

Mas calma, apesar destas palavras soarem amargas, eu sou um cara positivo. Na verdade, a insatisfação sempre me trouxe uma misteriosa sensação de prazer. Sempre adorei a curiosidade, a sede por conhecimento que lembro ser parte de mim desde as minhas memórias mais remotas. Talvez, por perseguir essa sensação, eu tenha criado o sádico costume de desafiar constantemente o meu discernimento, mergulhando em caóticas introspecções, para, quem sabe, tentar em meio ao caos encontrar uma luz, ou uma saída, enfim, algum tipo de certeza para manter minha sanidade.

Quase nunca as encontrei.

Mas a realidade é que o desafio nunca foi esse.

O objetivo da contenda foi sempre forçar-me a ir um pouco mais longe, além do que é considerado senso-comum, ir além dos limites da minha própria convicção. Essa sensação de desamparo me fascina.

Acontece que esta é também uma aventura perigosa: É uma ótima fórmula para mergulhar em pensamentos amaranhados e ilusórios, que invariavelmente levarão a labirintos carregados de dolorosos espinhos. Todavia, apesar de ser uma maneira eficaz para mergulhar em profunda tristeza, acredito que este é também o caminho para encontrar verdadeira alegria.

Observando com calma, investigando minhas memórias e voltando no tempo para identificar as raízes dessa vontade, na tentativa de desvendar o enigma desse instinto que me empurra para o campo do incerto, suspeito que o sofrimento tenha sido um fator determinante. Acredito que foi o item elementar que inflamou as minhas buscas, pois foi através dele que levei, e que continuo levando, meus questionamentos adiante. Não que eu acredite ser uma pessoa ímpar por me sentir assim, pois com certeza o sofrer é um padrão comum da humanidade. Entendo-o como fundamental na busca por evolução, pois, no mínimo, ele te força a buscar menos sofrimento.

Mas o que eu quero sugerir aqui é que, se tratando da minha pessoa, eu entendo o processo de sofrer. Mais que isso, eu aceito-o como algo que vem para me ajudar, e não tenho dúvidas de que ele foi determinante para a edificação de minha personalidade. O sofrimento é um processo de autodestruição, de desconstrução, que ataca sem piedade tudo o que acredito e me empurra para o terreno do desconhecido: Um plano obscuro, repleto de questionamentos, onde para sobreviver é preciso encontrar os retalhos de coerência que estão espalhados, escondidos sob armadilhas de ilusões e barreiras de proteção, para só então começar a costurá-los, recompô-los, e construir uma nova versão de mim, como uma cobra que troca de pele, mas que continua com a mesma forma. Só que diferente.

É difícil explicar.

Claro que nem sempre alcanço resultados coerentes, lúcidos, mas, no final, por mais doloroso que tenha sido para encontrar alguma resposta genuína, sempre consigo limpar a sujeira, abstrair o desnecessário, e obter algum tipo de autoconhecimento. No final, a impressão que fica é que eu saio cada vez mais forte, com cada vez mais astúcia para não cair nas armadilhas dos meus próprios medos. O que eu quero dizer é que, talvez, o sofrer seja imprescindível para aqueles que desejam ter um encontro para acertar as contas com seus sentimentos mais recônditos.

Enfim, saindo destas tramas para voltar ao foco do texto — afinal, ele não é sobre sofrimento, e sim sobre como meus dias devem terminar — Em tempo: Entendo que o percurso da minha vida apenas começou, que ainda há muito que desbravar, entendo também que minha aclamada perseverança será continuamente provada a cada novo desafio que revelar-se no horizonte, mas só de saber que, dia após dia, eu continuo buscando ser uma pessoa verdadeira, mesmo que o caminho a seguir não esteja muito claro, somente por esta dose diária de busca por respostas autênticas e satisfação pessoal, já consigo encontrar algum alívio.

Alívio o suficiente para que eu tenha fôlego para continuar adiante.

Houveram momentos em que pude desfrutar do prazer de surfar livremente pelas ondas da vida, por outro lado, houveram momentos em que encontrar este ânimo extra foi vital, pois, mesmo em situações que estava desorientado como um bêbado tropicando por entre becos sujos, eu jamais desisti de acreditar que precisava seguir em frente. Foi uma lição que demorei para aprender, mas finalmente descobri que o segredo não é a velocidade.

A velocidade não é verdadeiramente importante.

O importante é que todos os dias, às vezes um pouco menos, às vezes um pouco mais, eu continue seguindo adiante, mesmo com todos os percalços que muitas vezes atrapalham o próprio caminhar.

E insisto.

Persisto!

Retiro a lama em que meus pés se afundam, e continuo passo após passo em direção a busca por algo que não sei exatamente o que é.

Talvez um dos objetivos deste texto seja justamente este: Enfatizar como o exercício de continuar adiante, mesmo com todas as dificuldades, mesmo com todo o sofrimento e todas as dúvidas, é importante. O alcance de algum tipo de certeza transcendental, algum tipo de plenitude, é evidentemente ilusório. Um devaneio compulsório da mente humana. Uma contínua sensação de felicidade e bem estar simplesmente não existe, nunca existiu. Em realidade, acredito que, se a plenitude de fato existir, é uma graça concedida exclusivamente aos deuses.

Eu provavelmente soarei clichê neste ponto, mas a resposta que sobra para nós, reles mortais, deve estar muito mais próxima de algo como aproveitar cada segundo — sejam estes de sofrimento ou questionamento, de satisfação ou felicidade — do que a convivência com algo que provavelmente é uma utopia psicológica. O mais próximo que podemos chegar da plenitude, a meu ver, talvez seja buscar aproveitar cada segundo de encontro com seus sentimentos mais verdadeiros, mais que isso, acredito que os breves momentos de integridade estejam escondidos por entre estes lugares que não podemos alcançar conscientemente.

Algo como uma brisa leve, suave, que às vezes vem e passa por você.

Pense comigo. Imagine-se por um momento descansando em um campo aberto, com um gramado verde que se estende até onde os olhos alcançam. O sol brilha intenso em um céu azul como o mar do caribe. Você está cochilando embaixo de uma frondosa copa de árvore, gozando de sua aconchegante sombra, no centro deste campo. Está tudo quieto. Está tão quieto que você pode até mesmo ouvir sua respiração. Então, de repente, você começa a ouvir o som de uma brisa delicada sacudir as folhas ao longe, mexendo-as tão suavemente que mais parece acariciá-las. Gradualmente o som vai aumentando, e você, ao abrir seus olhos com preguiça, observa que a brisa forma lá no horizonte um tipo de onda na grama que se estende por todo o campo. Então nota que ela vem em sua direção, vagarosa, percorrendo todo o gramado até finalmente chegar a você.

Por um breve instante, no meio do caminho, você e a brisa encontram-se um com o outro.

É um momento singular. Você sente o deslocamento do ar suavemente tocar sua pele, sente balançar seus cabelos, sente os pelos do seus braços ficarem arrepiados, e ouve o farfalhar da grama a sua volta. É uma sensação estranha e bastante peculiar. Mas prazerosa. E mesmo sabendo que aquele foi um momento de autêntico deleite, mesmo tendo certeza sobre o que você acabou ver, ouvir, sentir, e mesmo que pudesse utilizar todas as palavras do mundo para explicar tal situação, continuaria sendo impossível definir a experiência que acabou de ter.

É como se a natureza estivesse se comunicando diretamente com a sua alma.

Todo aquele contexto, aquela mistura de sensações, de sentimentos, foi interpretado de uma maneira única. Foram alguns segundos de uma experiencia quase que transcendental, como se o espírito ancestral do universo tivesse atravessado você e, em um milésimo de segundo, abastecido cada átomo do seu corpo com uma nova carga de energia. Naquele momento você soube que viveu uma experiência verdadeira.

E é assim que meus dias devem sempre terminar:

Sabendo que todos os dias fui uma pessoa verdadeira comigo mesmo, afinal de contas, o que eu procuro talvez seja apenas aproveitar ao máximo estes momentos de encontro genuíno com os nossos sentimentos durante a vida.

Texto originalmente publicado dia 04/11/2015.