Escolhas e Consequências

Sinto-me um fantasma.

Um reflexo pálido de mim mesmo.

Uma lembrança negra de quem eu deveria ser.

Nunca fui de me importar com datas comemorativas em geral. Natal, Ano Novo, Páscoa, enfim, seja lá qual for, sempre me pareceram como um dia qualquer, sempre as entendi como meras datas simbólicas de uma medida humana que na realidade não existe. Para o universo, o tempo não existe. Entretanto, por outra via, eu tenho um particular dissabor pela data simbólica do meu aniversário.

Durante este dia em específico, a impressão de estar ficando mais velho ocupa meus pensamentos a todo o momento, roubando minha atenção, como se um vento frio soprasse na espinha.

Um vento leve, mas insistentemente gélido.

E essa sensação vai se acumulando ao longo do tempo, congestionando-se, tornando os pensamentos negativos cada vez mais consistentes, fazendo com que lembranças e anseios venham à tona, como se toda a minha vida, todo o passado vivido e todo o futuro que busco, tivessem, de alguma maneira, se misturado e se transformado em algum tipo de matéria, algum tipo de energia, e o que antes era um sopro se torna uma densa névoa negra a minha volta.

Pouco a pouco, torrentes cada vez mais fortes de negatividade fluem em meu consciente, como se lentamente meu corpo absorvesse a névoa que me rodeia, envenenando minha corrente sanguínea e corroendo meu sistema nervoso, impedindo-me de respirar plenamente. Às vezes é como se eu pudesse senti-la: Minha intuição diz que sua intenção é claramente me enfraquecer, me deixar vulnerável. Parece que está sempre à espreita, esperando o momento certo em que uma pequena brecha se abra para invadir minha cabeça e tomar de assalto a minha percepção e, uma vez que consegue, distorce e confunde todo o meu discernimento e o que antes pareciam ser pensamentos inofensivos tornam-se questionamentos destrutivos, que muitas vezes beiram o absurdo, transformando tudo a minha volta em ansiedade, em desespero, em angústia. Transformando tudo a minha volta em…

Medo.

Tudo parece cinzento e desanimador. Sinto-me uma casca vazia, oca, cujos neurônios foram torturados até não sobrar mais energia para se comunicarem uns com os outros. Fico angustiado, como se o mundo fosse um lugar de oportunidades, oportunidades que estão acontecendo debaixo do meu nariz, neste exato momento, e que provavelmente estão mesmo, porém, simplesmente não consigo me sentir parte de nenhum destes lugares de infinitas possibilidades. Sou um espectro invisível em meio a paisagens coloridas e pessoas sorrindo alegremente. Eu não faço parte de nada.

Penso que o mundo é injusto.

E as pessoas são más.

Isso aqui é um pântano de egoísmo e hipocrisia!

Tudo se torna uma maçante rotina. Conforme o tempo passa, as pesadas paredes da prisão em que me encontro parecem impedir qualquer chance de fuga. Anunciando uma morte dolorosamente demorada, centímetro após centímetro elas movem-se lentamente contra mim. Tudo que faço soa ineficaz, ausente de sentido, débil, e cada passo que dou não parece levar a lugar algum.

Estou tentando atravessar um oceano a braçadas.

Me sinto cansado.

Começo a reavaliar diversos aspectos da minha vida, e lembro-me das experiências que não vivi, das pessoas que não conheci, dos amigos que não cultivei.

Lembro-me das oportunidades que deixei passar.

Minha cabeça transforma-se em um mar tempestuoso e, afogado nestes pensamentos, procuro enxergar o que poderia ter sido diferente: Namoradas que deixei partir, mas que talvez, se tivesse tratado melhor, se tivesse dito algo diferente; amigos verdadeiros que, talvez, tivesse dado mais apoio; trabalho, que poderia ser melhor, se, talvez, tivesse me dedicado mais, estudado mais; família, que, talvez, se estivesse mais presente, pudesse ter um melhor relacionamento; Se, talvez… Talvez, talvez…

Talvez.

Passado e futuro vem à tona como ecos do meu subconsciente que se entrelaçam e influenciam cada questionamento que faço, cada situação que imagino, cada esperança que procuro me agarrar para não perder o controle.

No meio deste emaranhado de pensamentos em curto circuito, buscando desatar as amarras que impedem meus esforços, procurando me esquivar das sombras que agarram meu calcanhar na tentativa de me afundar no negro abismo da loucura e desespero, por algum motivo que eu nunca entendi bem o porquê, consigo encontrar, em algum espaço vazio da minha mente, um singular momento de silêncio.

Eu realmente não sei como explicar isso, provavelmente as ciências da mente definam melhor, mas é um momento em que entro em sincronia com o meu próprio eu, um lugar onde o subconsciente e o consciente convergem-se, encontram uma sinergia, uma sintonia e, respirando um pouco mais fundo, consigo amenizar um pouco a angustia.

Respiro um pouco mais, reflito, tento encontrar uma solução. Busco uma saída. Tem de haver uma saída. E, então, em um momento de iluminação, finalmente assumo minha responsabilidade:

Eu sou a consequência de minhas escolhas.

A maioria das coisas que eu penso são fantasias que eu crio em minha mente. O que me domina é justamente o medo das responsabilidades das minhas escolhas e, apesar de serem fantasias, é inegável que elas tenham a sua parcela de verdade.

Eu realmente fui um idiota em diversas situações, realmente errei com alguns amigos verdadeiros, fui pouco presente com minha família e, principalmente, me dediquei muito menos do que eu deveria.

São as consequências que chegam como o lixo acumulado que foi atirado ao mar da ilusão, mas é trazido de volta pelas ondas da praia chamada realidade.

Eu acredito que seja o receio de assumir sua culpa que induz as pessoas a repassarem, em vão, suas responsabilidades, ou melhor, seus fracassos, a uma entidade superior, um governo, pais, amigos, irmãos… Sociedade.

Mas uma hora tudo isso volta para você.

A sociedade, ou seja lá quem for, não tem o dever de fazer você ser o melhor que poderia ser, não tem o dever de projetar as suas virtudes para que você alcance a plenitude. Nem mesmo Deus ou o Diabo tem esse dever. É algo que cabe unicamente a sua pessoa: Você é quem conduz o seu destino.

Se você não tem a coragem de enfrentar as consequências, sofrerá com os cruéis demônios da ilusão, que invadirão a sua mente e criarão raízes tão profundas em seu cérebro em que a única saída para se manter fisicamente vivo será a insanidade.

Acredito sinceramente que uma das causas da depressão é um sintoma das responsabilidades não assumidas, das culpas repassadas, que se acumulam ao longo da vida e voltam como fantasmas que atormentam e assombram, que embaçam a visão, e acabam por tornar tudo ao redor um lugar obscuro, repouso de um medo ilusório. O mundo é realmente um lugar de inúmeras possibilidades, de infinita diversidade e, se eu não estou satisfeito com o que eu vivo ou tenho hoje, porque eu escolhi estar aqui?

Por que eu escolhi ter determinado estilo de vida, fazer parte de determinado grupo, de tomar determinadas atitudes, se o meu objetivo, meu sonho, minha vontade, era ser, ter, fazer, justamente o inverso?

O que exatamente te impede de buscar sua satisfação pessoal?

O medo de fracassar ou a preguiça de se esforçar?

Estar infeliz todo dia quando você coloca a cabeça no travesseiro com certeza não é.

Afinal, a escolha é sua.

Texto originalmente publicado no dia 30/04/2015. Dia do meu aniversário de 24 anos.