Porque você, provavelmente, vai ser mais “pobre” que os seus pais. — Uma história para Millenial dormir

Julio Ng
6 min readJun 21, 2020

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Resolvi fazer um textão sobre um assunto que me vem incomodando… Esse texto, infelizmente, é focado na minha bolha social e a vida millenial privilegiada que levo, então vão ter alguns “problemas de classe média/classe média alta” e “white people problems” que podem incomodar, já peço desculpas por isso.

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Vocês já tiveram a ideia de que *precisam* ser mais bem sucedidos que os seus pais?

Minha família chegou ilegalmente no Brasil, vieram de uma província pobre da China e conseguiram “ascender” financeiramente no Brasil. Ou seja, sem nem concluir o ensino médio, os dois saíram do “quase 0” para uma vida financeiramente estável e confortável. Beleza, mas e o que sobra pra mim?

Privilégio. Estudei em uma das melhores escolas particulares da cidade, entrei na universidade e aos 22 ainda dependo dos meus pais. Nessa mesma idade, meu pai já tinha viajado meio mundo, estava ganhando seu próprio dinheiro e construindo “seu patrimônio”. Ou seja, sai do “quase 10” pra não crescer “quase nada”.

Dúvidas. Essa cobrança toda geram dúvidas recorrentes na minha madrugada: será que sou pior que meus pais? Estou fazendo menos do que eles faziam na minha idade? Preciso me esforçar mais? Sou um fracasso?

Bom, essa minha história é parecida com grande parte de toda a classe média que “ascendeu” nas últimas décadas. E vou te contar o porquê você, provavelmente, não conseguirá crescer tanto quanto os seus pais.

Riqueza por geração:

Esse gráfico é um bom comparativo. Aqui, vamos falar um pouco sobre dados dos Estados Unidos, mas que acabam refletindo para realidade brasileira. Tá vendo essa linha roxa bem embaixo? Somos nós. Geração Y, Millenials, chame do que quiser. Agora repare na linha azul escura: esses são nossos pais. Os Boomers.

Tá, mas o que você consegue tirar disso? Em 1990, os Baby Boomers(nascidos entre 46–70) tinham praticamente a mesma idade do que a nossa geração(81–99) tem agora. Mesmo assim, nessa época, os “Boomers” já tinham concentrado cerca de 21% de toda a riqueza do país. Em comparação, os Millenials hoje concentram 7 vezes menos em porcentagem, ou seja, somente 3%. Não preciso nem falar que isso já inclui a correção da inflação né?

When boomers were roughly the same age as millennials are now, they owned about 21% of America’s wealth, compared to millennials’ 3% share today — according to recent Fed data.

A riqueza média de alguém entre 29 e 37 anos caiu em 21% desde 1983, enquanto a riqueza média de alguém entre 56 e 64 mais que dobrou. O que isso significa? Concentração de Renda.

Em outras palavras, os mais jovens estão ficando mais pobres e os mais velhos estão ficando mais ricos.

Mais que isso, um tipico millenial tem hoje uma “net worth” 40% menor do que a Geração X em 2001 e 20% menos do que os Boomers em 1990. 40% dos millenials nos EUA já tem um dívida considerável se comparado aos 36% da Geração X em 2004. (Lowrey)

Pra vocês terem uma noção, apesar de a economia global ter crescido, as Gerações X e Y(ou seja, pessoas de até 40 anos), estão ganhando menos do que os seus pais nas suas idades. E para os jovens millenials que estão entrando agora no mercado de trabalho, isso pode ser pior.

Millenials vs Seus próprios pais

For the first time in modern memory, a whole generation might not prove wealthier than the one that preceded it. — NY Times

Esse gráfico é fera. Esses números mostram quantos % de uma dada geração está ganhando em relação aos seus próprios pais quando tinha 30 anos. Ou seja, dos nascidos em 1940(com 30 anos em 1970), 91,5% ganham mais do que seus próprios pais. Nessa mesma lógica, dos nascidos em 1984(com 30 anos em 2014), somente 50,3% ganha mais do que seus próprios pais. E essa linha continua pra baixo.

Os Millenials estão comprando menos casas, menos carros e a explicação não é porque “preferimos gastar com viagem ou experiências”. Os Millenials, hoje, tem uma linha de crédito mais baixa e um limite mais restritivo do que os seus pais e isso é fato.

Conclusão

Minha conclusão não é otimista. Estou entrando no mercado de trabalho agora. Meus amigos são Engenheiros e Administradores. Analisando o mercado “business”, os mesmos “perdem” 4/5 anos nas universidades para conseguir um estágio “competitivo” de 2k/mês(quando não 1,5k) em São Paulo. Os mais sortudos chegam nos seus 3k. A brisa é, estudantes de universidades como Mackenzie, FGV, INSPER(com mensalidades de 2k a 6k) irão acumular mais despesas que ganhos nos seus primeiros anos de formados. Os das universidades públicas, terão uma ascenção maior(excluindo a elite que também acaba nessas universidades). Dessa forma, ainda continuaremos dependendo dos nossos pais, mesmo depois de formados.

Esse é o gráfico mais atualizado que encontrei. de 2019. Isso significa que nossas chances de conseguir “sair do 10 e chegar no 20” são baixissimas. Não iremos crescer no mesmo ritmo que nossos pais. A concentração de renda dos países é grande empecilho para conquistarmos o sucesso com a própria vontade.

Onde quero chegar? Como uma boa pessoa de exatas, sabemos que a nossa pequena curva amarela dificilmente alcançará a curva vermelha dos Boomers… A não ser que… A não ser que consigamos deslocar ela para cima.

Bom, a triste realidade é que a nossa esperança se resume na herança. Os mais ricos continuarão sendo aqueles que herdarem dos seus pais. A meritocracia continuará sendo cada vez mais irrealizável, e o sonho de se enriquecer como os Boomers/GenX cada vez mais distante.

Quando estiver se comparando com seus pais e se questionando sobre o seu próprio sucesso, entenda que é algo muito mais estrutural, derivado da problemática concentração de renda, do que o seu próprio esforço ou mérito.

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Segue os artigos que andei lendo.

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