Hoje aconteceu uma chacina no meu bairro

trago notícias do front

Hoje aconteceu uma chacina no meu bairro.

Eu talvez nunca tenha pensado em pronunciar essa frase. É estranho. Eu via a palavra “chacina” na televisão como algo terrível e distante, algo que acontecia “na cidade grande” — porque pra mim, da periferia de Fortaleza, Rio, São Paulo e o centro da minha cidade eram as verdadeiras cidades, eu vivia uma imitação de cidade do interior. Chacina em Diadema. Chacina da Candelária.

Mas foi hoje, no meu bairro, no fim da minha rua.

Foram onze mortos. Todos mortos na madrugada, hora dos trabalhadores pouco ortodoxos voltarem pra casa, hora de sair às escondidas pra namorar na casa vizinha, hora de ver filme de terror na televisão, hora de voltar cantando bêbado pela rua. Foram onze mortos.

Curió — 0h20min — Antônio Alisson Inácio Cardoso / Idade: 17
Curió — 0h20min — Jardel Lima dos Santos / Idade: 17
Curió — 0h20min — Desconhecido do sexo masculino / Idade: 18
Alagadiço Novo — 1h54min — Marcelo da Silva Mendes / Idade: 17
Alagadiço Novo — 1h54min — Patricio João Pinho Leite / Idade: 16
São Miguel — 3h33min — Jandson Alexandre de Sousa / Idade: 19
São Miguel — 3h33min — Francisco Elenildo Pereira Chagas / Idade: 41
São Miguel — 3h33min — Valmir Ferreira da Conceição / Idade: -
Messejana — 3h57min — Pedro Alcantara Barroso do Nascimento / Idade: 18
Messejana — 3h57min — Marcelo da Silva Pereira / Idade: -
Messejana — 3h57min — Desconhecido do sexo masculino / Idade: -

Mortos a tiros. Todos homens, sete deles com idades entre 16 a 19 anos. Futuros estudantes. Futuros doutores. Futuros garis. Futuros donos de farmácia na rua. Não saberemos, nunca saberemos. Mortos a tiros.

Os motivos das mortes? Vingança. Talvez tenha sido o policial morto em uma tentativa de assalto. Ou o traficante que foi morto do outro lado da cidade ao sair da cadeia. Ou a prisão de outro traficante em um sítio. Toque de recolher. Escolas fechadas. Postos de gasolina e uma fábrica próxima escoltando os trabalhadores. Ruas vazias. O olhar de pavor trocado entre nós, que estamos em casa. Os motivos das mortes? Vingança.

Pela primeira vez tive medo de sair de casa. Já aconteceram outras coisas no bairro onde moro. É cercado de comunidades carentes, um bolsão de violência que desde os anos 90 vem crescendo em tamanho e fôlego. Rostos familiares que somem rápido. Se mudam. Morrem. Uns tomavam sorvete na porta da minha casa, quando foi sorveteria. Outros eu via no ônibus, com a farda da escola. Frenquentavam as festas juninas nas pracinhas. Já tive receio. Já tomei sustos. Mas sempre saí com a vontade de viver, enfrentava a realidade, buscava o possível. Mas hoje eu não quis que metralhassem meu ônibus. Ou que o incendiassem como tentaram mais cedo em uma linha aqui perto. Pela primeira vez tive medo de sair de casa.

Hoje foram onze. Na madrugada que vem, outra contagem de dígitos. Espero não ouvir o som dos tiros. Por medo e por desejo que tudo que se comentou hoje sobre mais mortes seja uma histeria, um boato. Enquanto escrevo, tem um helicóptero sobrevoando minha casa.

Hoje aconteceu uma chacina no meu bairro.

http://www.opovo.com.br/app/fortaleza/2015/11/12/noticiafortaleza,3532658/onze-pessoas-assassinadas-em-menos-de-seis-horas-na-ais-4.shtml