Julio, Julio

indivisível

Eu havia juntado um mês de dinheiro do lanche. Eu não lembro porque fiz isso. Apenas fiz. Todo dia eu deixava as moedas dentro de um cofrinho de aço, no antigo armário de costuras da minha mãe. E ia andando pra escola, o que me fazia juntar mais dinheiro. Dentro de dois meses eu tinha um cofre pesado. Tilintava.

Meu pai então havia me prometido uma ida ao Centro. Era perto do meu aniversário. Pra mim, o Centro era onde o mundo era mais vibrante. Eu só ia lá para visitas ao oculista ou para comprar livros escolares — com minha mãe. Mas desta vez eu iria com meu pai. Só nós dois. Não era a pescaria cheia de lama e cansaço, que eu odiava. Ou ficar do lado dele enquanto ele consertava algo, o que me deixava aborrecido e com vergonha por não ser forte nem ágil o bastante para levantar pesos, saber o que era uma chave inglesa ou chave-do-que-quer-que-fosse. Era passear pelo lugar que mais gosto na cidade, vendo as coisas acontecerem. Pulsar.

Eu lembro de ficar tão ansioso. Eu conseguia ouvir meu coração. No visor do relogio, 0h00. Verde, um visor de luz verde. Eu não me importava. Iria sair com meu pai. De manhã cedo, o ônibus. Lembro de sentar do lado dele e, com o sono da noite mal dormida, encostar a cabeça no colo dele e ir cochilando. Era como dormir no interior e acordar na cidade. O cheiro do cabelo dele era de um produto antigo, Trim, que ele ainda fazia questão de usar. A cabeleira cinzenta impecável.

No centro, os patos e peixes do Parque das Crianças. Ele jogava uns pães que havia levado de casa especialmente pra isso. Me dava um pedaço para eu alimentar os animais também. O cheiro de grama molhada. O vento frio matutino. De lá, um percurso que ia do Parque das Crianças até a Praia de Iracema, passando pelo Dragão do Mar (que havia sido inaugurado há algum tempo). Nesse dia, comprei um brinquedo e um walkman. A Igreja da Sé. O mercado de redes. As lojas de pesca, o cheiro de alho, fumo em rolo, ervas, garrafadas, babosa. Ele comprou linha de nylon e agulhas de tarrafa. O cheiro do café administrado por uma italiana — ela colocava canela em pau na xícara, e eu via a espuma se formar ao redor daquela casca perfumada. Na Ponte dos Ingleses, ele me contava como era viver ali na praia quando criança. Eu colocava as pilhas no walkman. Dividimos o fone de ouvido enquanto viamos o mar.

Na volta, um lanche em um café antigo do centro. Pão, queijo, presunto e suco de acerola. Era meu suco favorito. O café ainda está lá.

Foi um dos dias mais felizes da minha vida. Foi tão meu que choveu em agosto. Até hoje eu sinto um afago quando passo por esses lugares. Os cheiros vão me acompanhar pra sempre. Eu não sei porque lembrei disso hoje. Talvez foi o cheiro da canela em pau que me transportou para esse dia. Foi um dia onde eu pude ser eu mesmo. Não tive medo das cores. Não tive medo de te decepcionar. Não tive medo dos dedos apontando. Eu dormi no seu colo. Eu nunca fui tão seu filho quanto nesse dia. Eu nunca tinha percebido o quanto eu te amava. A raiva que senti um dia foi minha confusão de adolescente. Eu não tinha raiva de você. Tinha raiva do abismo. Da vergonha. Eu só queria outro dia no centro. Uma vida inteira. Onde eu podia ouvir música com você e olhar a imensidão do sertão-mar.

Pai, eu te amo.