Meia prosa com um camarada iluminado.

Texto originalmente publicado em pensamentoorganico.blogspot.com

Camarada Jesus, bom dia. Antes de mais nada, te peço desculpas por me referir ao senhor como “camarada”. É que costumo andar pelo lado esquerdo da rua, você sabe como é.

Minha mulher diz que, como todo carioca, eu sou um pouco folgado e, às vezes, mal educação. “É cultural”, diz ela. Poderia me referia ao senhor como “companheiro”, mas, nos tempos de hoje, o Lula não merece singela homenagem. Pelo menos de minha parte.

Camarada, o relógio, em Laranjeiras, aponta cinco e cinquenta e seis da manhã. Dia 3 de abril, Sexta-Feira Santa, segundo a tradição católica. Os primeiros pássaros anunciam a alvorada, cantando uma bela canção de amor.

Hoje o calor promete. Vai dar praia! É possível também ouvir o caveirão da polícia militar do Estado do Rio de Janeiro vencendo a ladeira, em frente de casa, voltando de mais uma “missão”. No Rio é assim, polícia e ladrão o dia todo. Na madrugada, é guerra!

Acordei bem cedo. É verdade que você não é Deus, o todo-poderoso, mas é o filho dele. Então, dá uma focinha aí, já que Deus ajuda quem cedo madruga. Imaginei que o senhor tivesse um par de minuto antes do café da manhã. Não pretendo usar nosso tempo com lamentações. Para isso, bem pertinho de casa, tem a Igreja do Largo do Machado. Quando tiver um tempinho, eu passo lá e acerto umas dívidas do passado.

Camarada Jesus. Há 1981 anos (2015 menos 33 é igual a 1981), o senhor foi violentado e morto de forma tão bizarra, que até hoje o pessoal comenta o episódio. Eu mesmo, quando estudante de colégio de padres, sentia muita pena de você. “Como podem ter feito isso com ele, meu Deus?” lamentava-me. Além de pena, eu sentia medo da sua ira. Os meus professores de religião diziam que senhor castigava quem fosse pecador. Mas como o pecado faz parte de minha rotina e por eles jamais recebi nenhuma punição direta — pelo menos do senhor — que passei a simpatizar com a sua história e te considero, de fato, um camarada, um líder.

Aos 33 anos você morreu. Fico imaginando quantas coisas você deixou de fazer: o almoço de domingo com o camarada Pedro, regado a vinho e pães deliciosos. A resenha com os discípulos em volta da fogueira, na imensidão do deserto. Palestras sobre amor e perdão para os faraós e aquelas lindas mulheres egípcias. Banhos de sol e no Mar Morto. E muitas noites de amor a luz do luar com Maria Madalena.

No entanto, você abriu mão disso tudo por um propósito: a missão de amar e perdoar o próximo. Fico imaginando se minha vida terminasse hoje, aos 33. Eu morreria com mais dúvidas do que certezas. Talvez, sem propósito. Questionando-me: Porque não estudei mais? Porque não fiquei mais tempo com a minha família? Porque não escrevi um livro? Porque dediquei tantos anos trabalhando às grandes corporações? Porque não usei o dinheiro que guardei para realizar meus sonhos? Porque fui tão medroso? Porque não tive filhos? Porque não tive coragem?

Camarada Jesus, mas como o prometido, não pedi este dedo de prosa para me lamentar. Graças a Deus você ressuscitou, venceu a morte e nos livrou das trevas. Mostrou que é possível recomeçar, fazer diferente. Custe o que custar! Que é possível amar e perdoar, mesmo que a morte nos separe.

É justamente isso que vou fazer a partir de hoje. Lutar, no dia-a-dia para realizar meus sonhos, fazer Arte! Trabalhar menos, escrever um livro, viajar, sorrir mais, compartilhar o trabalho, cuidar da mente, do corpo e do espírito. Ter um filho ou filha. Quem sabe os dois?

Camarada Jesus, desejo a você um ótimo aniversário de morte. No domingo você vai ressuscitar e eu vou ao Fla-Flu. E, por falar em futebol, tem um torcedor do San Lorenzo que se tornou papa. E antes que o vaticano descubra que eu fiz um gato e roubei-lhes a linha direta com a Paraíso, vou encerrar aqui.

Obrigado por me ouvir. Se der, dá um alô pra Deus. Fale que mandei-lhe lembranças. Peça ao todo-podoroso para ficar de olho no Brasil, com cuidado especial ao Rio de Janeiro, iluminando nossa gente com MAIS AMOR, POR FAVOR! As coisas não andam fáceis por aqui.