Tijuca

juliozartos
Nov 1 · 2 min read

Era uma vez, um reino distante encravado entre montanhas na mítica cidade do Rio De Janeiro...

No princípio, igual a Veloso em Sampa, torcia nariz por não ser espelho

- lugar besta, gente metida.

Despeito puro: casas, ruas, e as meninas. Tudo indiscretamente elegante, isso sim.

Não nascido, nem criado. Apenas a alma capturada, permeada, moldada.

Com o passar dos anos, entre mil idas e vindas, cada vez mais me aproximava. Nem que fosse pelas beiradas

- se dava pra ir e voltar a pé, tudo certo.

Já que, menestrel, andarilho, peregrino, saltimbanco, por conseguinte, nômade; ainda assim, era atraído por tal atmosfera transcendente, qual formiga por mel

- sei lá, tinha algo naquele ar, que nem Minas Gerais.... Não, claro que isso não faz o menor sentido.

Só sei que, entre o Grajaú, AndaraÍ, Vila Isabel, Pça da Bandeira, Estácio, Rio Comprido, Maracanã, Muda e Usina, tudo era lá

- maior que Luxemburgo, ou o Principado de Mônaco, aposto.

Cruzasse o elevado da Paulo de Frontim de um lado, ou passasse pelo antigo Jardim zoológico do outro

- estava no país onde morava em mim. Tão vasto que tinha maciço, floresta e tudo. Até a Barra era da Tijuca!

Nas brumas do Alto da Boa Vista havia o “Robin Hood”. No caminho, quando a bolsa permitia, parava no “Excalibur” pra molhar a garganta

- luxo ocasional, pra não dizer, raro.

Quando o politicamente correto ainda não vicejava nos prados floridos da hipocrisia, alguns incautos também o chamavam de "abatedouro"

- coisa feia, sexista, inaceitável nos dias atuais. :-P

Usual era subir de 233 resfolegando até a pracinha. Uma cervejinha e olhe lá

- ali desenrolavam os papos, em volta do chafariz, onde o flerte era certo. Com alguma sorte, certeiro.

Embora, levar donzelas ao “Enchanted Valley” pra assistir à "corrida de submarinos", só de carro mesmo

- perigo eram os pegas na descida.

Quem não chegou ao meio século não sabe... só se ouviu falar:

houve época em que se varava noite ouvindo boa música ao vivo. Fechava um bar, corria-se pra outro, sucessivamente

- até o dia resolver estragar tudo e raiar.

Quantos músicos extraordinários num só lugar

- ainda dizem que era a água.

Medo, naquela época? Só dos "homi" nas Veraneios

- músico e cabeludo... Tudo vagabundo, maconheiro, subversivo.

Mas também não era um ó... Bastava não escrachar que tava relax.

Das pequenas transgressões, ficou o fuminho embaixo do Jasminzeiro, naquela pequena rua deserta, levado pela fada do bosque.

Não sendo nenhum melancólico sobrevivente do Paraíso, afinal, apenas das queridas recordações fiz questão.

Terra prometida, reino sonhado, onde a gente era obrigado a ser feliz

- agora, citando Buarque.

"E você era a princesa que eu fiz coroar/
E era tão linda de se admirar/
Que andava nua pelo meu país".

Zartos@2019

    juliozartos

    Written by

    Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
    Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
    Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade