Nossos olhares já se encontraram o suficiente para sabermos que havia um desejo — genuíno mas incerto. Velado. Talvez.

…e nos dias que se passaram a dúvida persistiu, só não aqui dentro pois era certo desde a primeira vez que sua imagem mergulhou inocente na aparente escuridão das pupilas dos meus olhos perplexos pela sua graça.

…e nos dias que se passaram te deixei livre para não ser recíproca. A porta sempre aberta para você não entrar — mas eu queria que você entrasse. Como queria.

…e naquele outro encontro casual, sabíamos que havia um desejo — genuíno mas velado. Incerto. Talvez. E seus olhos viram a porta aberta, pedindo para você entrar. Logo nossos corpos estavam mais perto um do outro — e então mais perto que só duas pessoas. Já estávamos na órbita uma do outra, no justo espaço onde só poderia caber uma.

Num relance incalculável, seu olhar escapa ao meu e a aparente escuridão das pupilas dos seus olhos miram o mistério oculto na minha boca. O susto da brevíssima antecipação de nem dois segundos onde a dúvida se converte na certeza de que era recíproco, afinal, e, na batida em falso do coração, o pulso elétrico percorre da espinha pela carne até a superfície da derme, querendo alcançar o além que ali se aproxima, a atração magnética saltando pelas pontas de cada pêlo em faíscas invisíveis para finalmente te tocar. O último curto suspiro que precede o estimado longo beijo.

Os olhos se fecham para vermos a conversa tátil projetada pálpebra adentro a ecoar pela carne até a espinha. A colisão de dois imensos universos particulares amortecida pela maciez dos lábios mornos no fino contato, no encaixe único de fôrmas singulares e, até então, desconhecidas. As peles vibrantes umedecem deslizando entre si no ímpeto de romperem seus limites e fundirem por um instante.

O portal dos mistérios se abre e as línguas se lançam ao debate, vorazes mas entregues, audazes mas vulneráveis, dispostas a sentirem todas as nuances da linguagem uma da outra. Tenras, quentes, líquidas, num convite à fusão na linha tênue entre o suave e o delicado. As peles de dentro conversam com palavras que só o toque pode falar e entender. Nossas verdades interiores em íntimas confidências num discreto diálogo.

No grande palco das duas bocas unidas, os passos da dança lingual reverberam pelo impulso brando como calorosa brisa que parte de tão profundo anseio, de onde a substância encontra o etéreo e o tempo flui em outro compasso. Cada segundo parece debruçar-se sobre o próximo, diluindo a passagem daquele momento pelo êxtase que inflama e acalma em notável leveza. As faíscas suspensas no ar acompanhando os corpos flutuando com os pés no chão.

O céu da boca é a única testemunha deste baile secreto. Calmo ouvinte, sabe tudo o que foi dito mas isto pertence ao mundo das memórias corpóreas. Nem quero tentar encontrar palavras para traduzir — seria um inútil absurdo. E quando a chama do desejo se satisfez se extinguindo lentamente em sua realização, as línguas se despedem, desenlaçam e descansam em júbilo cada qual em seu ninho de mistérios ocultos.

Os segundos, inebriados, tentam voltar ao ritmo, ainda borrados pelo brilho do espetáculo a findar, na sincronia dos tempos entre as dimensões se realinhando em seus moldes. O portal se fecha, selado pelo último toque dos lábios quentes e líquidos. Num relance inconfundível, os olhares contentes se soltam levados pela vertigem das órbitas retomando seus próprios cursos. As últimas faíscas saltam errantes para sumirem no vazio enquanto você se afastava até sua imagem deixar de iluminar a escuridão das pupilas dos meus olhos atordoados.

E nos anos que se passaram, nossos olhares não se encontraram. Os caminhos seguiram seus rumos e não convergiram para se cruzar. Finito naquele único momento, o breve infinito da nossa conexão. Não sei se foi um longo beijo como estimava mas foi o bastante para se tornar eterno aqui dentro. Quando recordo, a memória palpável me transborda assim como eu nela submerjo por dois ou mais segundos, como uma dobra no tempo que, num lampejo, me leva ao pulsar, ao vibrar, ao pairar como a última fagulha acesa que se perde no breu do firmamento daquilo que vivi e meu corpo todo sorri.

Atrás das pálpebras ainda vejo imagens difusas daquela conversa ao piscar ou sonhar. Ouço trechos dos versos que a voz do toque sussurrou. Assim acontece com as lembranças de cada pessoa com quem partilhei meu ser. Hora curta, hora longa, com cada qual uma história única como só poderia ser quando dois mundos distintos se imergem. Na liberdade de estar onde a verdade se expressa sem receios, fluímos pelas jornadas, encontros e partidas absorvendo sentidos e sensações. Cada coisa tem seu tempo e acontece na hora certa. A porta continua aberta para você nunca mais entrar.

Incomum arranjo de luz e sombra