Veneno

Como nós somos felizes. Felizes pra caramba. Como duas crianças correndo no parquinho, tropeçando e caindo na areia fofa, sem se importar com o trabalho que vai dar para a mamãe lavar a roupa depois. E nossa, duvido que algum outro casal seja tão feliz quanto nós. Eu preciso muito mostrar a todo mundo o quanto somos felizes. Eu preciso respirar o mesmo ar que você vinte e quatro horas por dia, encher meu Instagram de selfies nossas e fazer declarações de amor com letras da Banda do Mar. Nossa, como eu sou vitoriosa por ter te conquistado. Como foi maravilhoso te arrancar de todas aquelas outras meninas. O plano que passei tanto tempo arquitetando deu muito certo. Você caiu na minha rede direitinho. Óbvio que eu preciso mostrar isso pro mundo.

Meus lábios são venenosos. Sou veneno correndo por suas veias. E sei que você não quer quebrar as correntes que nos prendem. Ah, como eu sei.

Óbvio que você se afastou de tudo aquilo que você vivia antes, dos galanteios, das saliências. E ai de você, claro, se ousar pensar em voltar para o mundo das orgias. Se bem que… nem preciso me preocupar. Tudo está funcionando perfeitamente, nem precisei de muito esforço pra fazer com que isso acontecesse. Eu te seduzi. Usei de artifícios, gastei meus truques, como diz aquela música. Chá de calcinha, dizem as más línguas.

Mas é inveja, meu amor, é inveja. Tudo inveja dessas recalcadas. Todas se sentem chateadas por eu ter derrubado uma a uma com meus ataques e indiretas. Posso ser ardilosa e venenosa quando quero, mas com você eu sou um doce. Acredite, meu amor, eu sou um doce. Mas não sou como o recheio de goiabada daquele biscoito que você tanto ama. Sou mais do que isso. Eu sou a melhor coisa que pode acontecer na sua vida. Isso. Continue acreditando. Esse encanto tão cedo não será quebrado. Te alienando de quem você é, eu te faço pensar que sua essência está em mim. E você vai seguir acreditando nisso por muito tempo.

Talvez enquanto eu quiser.

O importante, meu amor, é que jamais serei capaz de deixar minha máscara cair na sua frente.


(Não é sobre você. Nem tudo é sobre você. Pior que não é mesmo.)

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