As cores do meu carnaval

Lembro que estava bonita, disso bem sabia. Vestia a fantasia que minha mãe tinha feito com retalhos de tecidos das clientes, mas estava tão feliz com a roupa colorida à la Carmem Miranda, que me balançava de um lado pro outro me olhando no espelho. Um pequeno arranjo com flores e frutas de plástico prendia a lateral do meu cabelo cacheado, no rosto, muito brilho e um sorriso tímido. O coração estava cheio de alegria, no estômago, borboletas.

Havia combinado de me encontrar com uma amiga do cursinho no bloco de rua, ia sozinha e isso me deixava um pouco ansiosa, pois desde que meu pai tinha ficado doente e acabara falecendo três anos depois, praticamente não saía de casa que não fosse pra escola. O ônibus demorou um pouco, mas eu ia ouvindo música, então não me importei muito, era bom ficar olhando a vida pulsando pelas ruas da cidade. Até recebi alguns olhares apreciativos e um elogio à minha fantasia, o que me deu mais confiança. Me enganei com o ponto, distraída, desci num antes, mas não era muito longe e resolvi ir caminhando, afinal a rua estava cheia de gente fantasiada que devia estar indo pro mesmo lugar que eu.

Eu caminhava tranquila, tentando adivinhar se minha amiga já estaria lá. Um rapaz passou por mim dizendo coisas obscenas e fingi não ouvir, afinal, toda mulher aprende desde cedo a não reagir a esse tipo de comentário. Logo mais à frente apareceu outro, pegando em meu braço e perguntando meu nome, não gostei e me desvencilhei rapidamente, apressando o passo. Minha mãe tinha me dito pra tomar cuidado, pois no carnaval, os rapazes tomavam ainda mais liberdades, não entendia a lógica, mas resolvi seguir seus conselhos e redobrar a atenção. O rapaz, ao ver minha reação, deu uma gargalhada e mudou de calçada.

Ao virar a esquina, esbarrei em outro rapaz e quase caí, foi tudo muito rápido, mas ele, por reflexo, me amparou. Fiquei um pouco atordoada com o encontrão, mas logo me recuperei e já ia agradecer a gentileza quando percebi que ele me avaliava de cima a baixo, sem soltar meu braço, mesmo eu lhe garantindo que já estava bem. Acarinhou meus cabelos, dizendo que eu era linda, numa intimidade que eu não queria nem tinha permitido, então me esquivei, pedindo, mais uma vez que me soltasse, mas ele nem parecia ouvir. Sorria pra mim e me convidava a ir até o carro dele, dizendo que eu iria gostar. Eu já estava assustada, respondi que não, que iria encontrar uma amiga, ele insistiu, então, comecei a me debater e gritar, ao que ele, sem acreditar que eu, uma reles garota pobre, não estivesse encantada com sua atenção, me empurrou enquanto me xingava de vagabunda. Sem estar preparada para a agressão, tropecei e caí sentada, já com os olhos cheios d’água, arrependida de ter me arrumado tanto. Não queria mais estar bonita, não queria mais chamar atenção. O rapaz saiu sem olhar pra trás, dizendo desaforos que me obriguei a não ouvir.

Percebi que minha mão estava machucada, sangrando, mas aquela dorzinha fina não era nada se comparado ao peso do meu coração, que por tanto tempo viveu numa casa em que não se sorria, já que a morte estava à espreita e qualquer dinheiro era sempre indispensável. Apenas há tão pouco tempo a vida me parecera possível, que

me senti de repente muito ingênua e frágil. Não consegui segurar lágrimas sentidas e silenciosas, sentada na calçada sozinha, sem que ninguém notasse. A rua estava cheia, mas ninguém pareceu perceber nada, tantas as cenas de horror cotidianas que seguiam invisíveis.

Por algum tempo fiquei buscando forças pra fazer o caminho de volta pra casa, sem mais nenhuma vontade de festejar, quando uma moça parou ao meu lado, perguntando o que eu tinha, se estava passando bem. Demorei um pouco pra conseguir olhar pra ela, tentando, em vão, segurar as lágrimas, mas quando comecei a falar, o choro transbordou e nem sei como ela entendia meu desabafo entrecortado, então ela só ficou ali ao meu lado, me ouvindo e segurando minha mão. Aquele contato, tão terno, não sei porque, teve o poder de me acalmar em pouco tempo. De um jeito tão simples, ela me disse que eu não poderia jamais me culpar por ser agredida, como se o fardo de ser mulher me negasse o direito de impor minha vontade, garantiu que eu estava linda e só queria aproveitar uma festa, como todas as pessoas. Me senti, subitamente, gente. Poucas palavras, que me fizeram saber que era compreendida, aceita, querida. Foi a primeira vez que entendi que a culpa nunca é da vítima.

Quando a vi de verdade, olhando firme em seus olhos castanhos, foi com um misto de vergonha e encantamento, ela era tão linda, um pouco mais velha que eu, mas ainda bem jovem, devia estar na universidade. Não era a primeira vez que eu achava uma mulher bonita, mas nenhuma tinha feito com que eu ficasse feliz em saber que ela achava a mesma coisa de mim. Ela perguntou se podia me ajudar a limpar o machucado, então quando percebi já caminhava atrás dela, entrando numa lanchonete, enquanto ela perguntava por um banheiro. Lavamos minha mão, que estava apenas ralada, enquanto ela distribuía perguntas aleatórias, que eu respondia de forma vaga, enquanto me ocupava em descobrir um jeito de ficar mais tempo perto dela.

Ela me atraía de uma forma estranha que nem eu entendia direito, como se me submergisse uma vontade desconhecida e num rompante de coragem, perguntei se poderia ir com ela, para onde ela fosse. Ela riu, disse que, na verdade, não estava indo pro bloco, pois não era muito afeita a carnaval, mas pra sua casa, que era ali perto, numa república de estudantes. Só então me dei conta que ela estava vestida com roupas comuns, mas não recuei, perguntei se poderia conhecer a casa dela, que também queria entrar na universidade e quis saber que curso ela fazia. Jornalismo, ela disse, perguntando em seguida o que eu queria fazer da vida. Eu não sabia dizer, exceto que gostava de aprender e ensinar, talvez crianças, mas ainda não tinha certeza. Só depois de muitos anos, eu descobriria minha paixão pela escrita, mas naquele dia, eu ainda era apenas uma jovem confusa. Seguimos conversando de uma forma tão fácil, enquanto caminhávamos lado a lado que me pareceu natural procurar sua mão em busca do caminho.

Passamos a tarde juntas, vendo suas fotografias, discos e livros, rindo e nos conhecendo, ela me apresentou a um mundo fascinante, onde existiam coisas com as quais eu apenas sonhava. Uma existência tão distante da minha realidade que me vi

num universo paralelo onde tudo era possível. Não lembrei do encontro marcado com a amiga, nem de minha fantasia, que de repente, se tornava inusitada e esqueci até mesmo da agressão sofrida. O tempo passou tão rápido, mesmo que me agarrasse a cada minuto, quando anoiteceu não tive alternativa a não ser dizer que tinha que ir embora. Enquanto me despedia, tentando encontrar palavras para agradecê-la pelo cuidado e tudo mais, ela me perguntou se podia me dar um beijo. De repente, meu coração batia tão forte que parecia que era o único som nos meus ouvidos, tão alto que tive certeza que ela podia ouvir. Só consegui acenar que sim com a cabeça, então ela veio muito devagarzinho se aproximando de mim, sorrindo, até que pousou os lábios nos meus, tão de leve a princípio que mal senti.

Nunca tinha beijado uma mulher, na verdade, tinha beijado bem poucos garotos na vida, sempre de forma desinteressada, achando que havia algo de errado comigo ou com eles. Nunca tinha pensado muito nisso, em suas implicações e porquês. Eu era tímida, tinha poucos amigos, era considerada até mesmo meio estranha por alguns, mas ela me despertou tanto interesse, que, de repente, seu beijo e seu corpo quentinho colado ao meu era tudo que eu poderia desejar pra sentir que a minha vida tinha começado.

Talvez eu fosse ainda muito jovem, claro que me faltava experiência, mas dificilmente estamos preparados pros momentos que mudam nossas vidas por completo. A gente nunca sabe realmente quando esse tipo de coisa vai acontecer, mas quando acontece, é como se tudo o que vivemos antes nos tivesse levado até ali. Saí de lá vendo o mundo inteiro por um novo prisma, me sentia mais velha e mais sábia. Não lembro de sentir medo, era como se eu pudesse fazer qualquer coisa, vencer todos os obstáculos, apenas por me sentir feliz. Mal sabia eu o quanto de maldade e preconceito ainda enfrentaria na vida, mas naquele dia, descobrir minhas cores deixava tudo ao redor mais vívido, até mesmo a alegria das pessoas era um arrebatamento. Segui até o ponto de ônibus rindo sozinha secretamente e enquanto via os foliões dançando na rua, senti vontade de acompanhá-los e contar a todos que existia um carnaval inteiro dançando dentro de mim.

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