Da (falta de) leveza do ser

Acredito que boa parte de nós já se questionou acerca do rumo que a vida está tomando, na tentativa de programar milimetricamente o que fazer ou procurando encontrar uma forma mais eficaz de “vencer na vida”. Quantas vezes ansiamos por alguma mudança, sem entender muito bem os motivos? De uma forma ou de outra, parecemos estar sempre esperando, sempre desejando. Uma promoção, ter dinheiro suficiente, as férias, um grande amor e até mesmo pelo fim de semana.
Tem quem pense que sem uma rotina estabelecida, a vida vira um caos. Aprendemos desde cedo que temos um roteiro a seguir: escola, faculdade, emprego, família, bens acumulados. A fórmula do sucesso! Tudo planejado antes mesmo de nascermos! A meritocracia vem embalada num papel brilhante, para nos iludir. Internalizamos que essa é a única forma de viver e com isso, excluímos inúmeras possibilidades. Contabiliza-se os dígitos na conta bancária ao invés dos sonhos realizados, numa lógica distorcida.
Não quero dizer com isso que as pessoas não possam ter vidas organizadas, casa própria, férias no exterior, filhos em escola particular, mas as perspectivas podem mudar, podemos contemplar outras possibilidades. Por que mensurar com a mesma régua o que é sucesso para pessoas diferentes? Pra mim, fechar um grande contrato tem o mesmo valor que escrever uma poesia. Quisera eu poder escrever sentada numa varanda de frente pro mar, ouvindo as ondas batendo, viajar mais e ter tempo e disposição para ir ao parque aos domingos. Algumas pessoas achariam isso um tédio, o que só reforça que somos diferentes e deveríamos ter o direito de viver fazendo o que gostamos.
Longe de mim fazer apologia ao hedonismo, mas a vida, como a conhecemos, tem infinitamente mais sofrimento do que deveria. Óbvio que temos necessidades básicas que precisamos suprir antes de qualquer coisa, mas quanta arte, poesia, música, dança, se afunda antes mesmo de nascer face às dificuldades e falta de oportunidades? É uma pena tantas pessoas não poderem ao menos vislumbrar uma vida diferente daquela de pegar não sei quantas conduções lotadas pra bater ponto todo dia.
Pra mim, é impensável um mundo onde as pessoas morrem de fome, vivem em cubículos e trabalham dezoito horas por dia, quando muitos tem mansões de bilhões de dólares espalhadas por aí e esbanjam com futilidades. Como é possível que vivamos assim há tanto tempo como sonâmbulos? Por que essa inquietude não acomete a todos? Por que, mesmo entre os que não tem nada a perder, ainda há a defesa inadmissível da exploração cotidiana?
Não deveria importar nossa profissão, se médico ou escritor, engenheiro ou músico, todos deveriam ser valorizados em igual medida. Nossos títulos não deveriam vir antes de nossos nomes. No meu mundo ideal, o que fazemos pra viver não seria definitivo nem imutável, poderíamos descobrir ao longo da vida. Nossas conversas girariam em torno dos nossos sonhos e com que ousadia encararíamos nossos desafios. Ninguém seria jovem ou velho demais para se arriscar numa nova empreitada nem julgado tolo por optar por algo que não tem status social. Afinal, o aboliríamos completamente!
O que nos faz feliz não estaria disposto numa prateleira, tampouco na rotina e na ânsia pelo sucesso, seria guiado pela contribuição que daríamos ao mundo. Não precisaríamos esperar, faríamos nossa parte com a certeza que não seria em vão. Sem contar moedas, teríamos a liberdade de apenas ser.
