O incofessável que há em mim

Eu não te amo mais, repito a mim mesma todos os dias quando acordo, eu só não consegui ainda te tirar completamente de mim, dos meus pensamentos, dos meus desejos. Você ainda é o meu parâmetro. É estranho. Eu fico procurando as suas qualidades nos outros e nada me apraz. Eles não tem o seu senso de humor, não adoram crianças, não se preocupam com o mundo em que vivemos, não guardam os papéis de bala no bolso pra jogar no lixo depois. Não sei o que é, só parece muito errado. Eu não consigo olhar, admirada, absorvendo o que eles dizem, eu não os acho tão interessantes, tão inteligentes e nem quero ter filhos com eles. Eu só consigo lembrar do seu cheiro tão limpo, do calor do seu corpo junto ao meu, da sensação de deitar no seu ombro e me sentir em casa e do quanto eu gosto da sua companhia, de conversar, de saber sua opinião sobre cada pequena coisa que existe no mundo. Parecia tão certo me sentir bem ao seu lado.

Só que outro dia eu te vi com uma amiga, nos cumprimentamos, eu comentei que você estava bronzeado, perguntei se tinha saído de férias, essas coisas bobas que a gente fala quando não sabe o que dizer pra quebrar o gelo. E apesar de saber que ela é mesmo só uma amiga, no momento em que ela pegou na sua mão para comentar como você estava mesmo mais moreno, tive uma sensação de pânico. Me senti roubada. Eu queria ter o direito de sentir ciúmes, de não engolir aquilo goela abaixo com um sorriso no rosto, como se não me afetasse. Saí dali com a sensação de que existem coisas no mundo que você não pode confessar, as mãos tremendo, o estômago enjoado, um suor frio, metade nervosismo, metade desespero. E uma certeza: eu posso não te amar mais, mas ainda estou apaixonada. Foi uma surpresa, um choque, eu que já me considerava curada, agora tô confusa.

Não sei o que fazer, eu não quero me sentir assim. Eu queria te odiar, não ficar lembrando que o cheiro da sua pele tem o efeito de me derreter inteira. Eu queria sentir vontade de beijar um monte de caras diferentes, mas não posso mais nem ouvir Zeca Baleiro sem lembrar daquelas viagens de carro que a gente fez. Eu queria que você me visse com alguém e se surpreendesse chateado, só para ter o gostinho de também te fazer sofrer, não olhar nos seus olhos e esquecer o que estava prestes a falar. Eu quero que não faça a mínima diferença a sua opinião sobre o governo atual e não ficar imaginando como nossos filhos teriam lindos cabelos cacheados.

Agora estou me perguntando incessantemente sobre os seus motivos, tentando entender a sua lógica, me lembrar só das coisas ruins, me colocar naquela perspectiva perfeita de amor próprio. Eu quero ter uma mágoa profunda e não ter que te ver todos os dias, fingindo que não sinto mais nada. Como é difícil tirar do coração quem a gente gosta por inteiro, em todos os seus mínimos detalhes, não só as qualidades, mas também as esquisitices. Porque se esse alguém não te ama é a única saída digna. Não é? Isso é o que todas as pessoas dizem, parece um mantra que você ouve das suas amigas mais próximas, o que querem que você faça, ainda que com o coração sangrando, porque é o melhor pra você, mas será que é mesmo? E como eu consigo, então? Há meses eu tento, com muita vontade. Ou você acha que eu gosto de me abalar por alguém que não tá nem aí pra mim? Eu até cheguei a pensar que eu tinha conseguido.

Mas, não. Do nada me vem tudo de novo, os momentos preciosos, a vontade de estar perto, o som da sua voz tão perfeita, as mensagens de texto no celular, que, surpresa!, eu ainda não apaguei. Seria fácil me envolver por você de novo, bastaria que você usasse as palavras certas e eu esqueceria todo o resto. A única nota dissonante é que você não vai dizer nada, você não faz mais nenhuma questão, você já me colocou naquela prateleira de histórias acabadas. Eu tenho que te esquecer, superar, seguir em frente, é pro meu próprio bem, não é o que todos dizem? Só não imagino como, não faço a mínima ideia do que fazer para tirar você de mim. Preciso de um antivírus contra você.

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