Sobre amor e gatos

Acho incrível como todos os animais que temos tem sua própria personalidade: gostam ou não de afagos específicos, pouco interagem ou são muito carentes, tem suas manias pra dormir, lugares favoritos na casa e gostos por essa ou aquela comidinha. Gatos são poemas ambulantes, se movem de forma tão fluida, às vezes até mesmo impossível, estão sempre asseados e são independentes, te conquistam, te fazem rir e se enternecer a todo momento. Eles dão muito mais do que recebem, é fato. Não importam os pêlos nas roupas e pela casa, que tentem te derrubar caminhando sob os seus pés, que pulem em cima de você quando está dormindo ou arranhem a porta do quarto num domingo de manhã. Antigamente, eles eram adorados como deuses e ainda não se esqueceram disso.
Tenho três gatos e reconheço cada um pelo miado e as artes que fazem. O mais velho, único macho na casa, é bastante anti-social e só interage quando quer, pelo (pouco) tempo que ele tem paciência. Já está ficando idoso e quase nunca muda sua expressão blasé, exceto pra demonstrar seu descontentamento, como quando estamos sentadas no seu lado preferido no sofá ou quando cheira a ração e ela está “velha”, uns poucos minutos exposta já é suficiente para ele miar até ser atendido.
Antes de adotarmos as outras gatas, o víamos bem menos, ele passava o tempo debaixo da nossa cama, no quarto de hóspedes, deitado no tapete da sala, aninhado em seu silêncio, agora, ele brinca com as outras, corre atrás delas pelos cômodos e fica olhando fixamente com expressão angustiada quando elas estão aprontando ou fazendo algo perigoso.
A do meio está pertinho de completar um ano e já acumula vários prejuízos, adora derrubar perfumes, enfeites, bijuterias e o que mais estiver ao alcance. Há pouco tempo, deu pra roer fios de fones de ouvidos e alças de sutiãs e vestidos, não sabemos ainda com certeza se ela tem a ajuda da mais nova, mas a probabilidade de serem uma dupla no crime é enorme. Vive atrás de moscas, bolinhas de papel e xuxinhas de cabelo. Dos brinquedinhos que compramos, ela só gosta mesmo de um ratinho que a gente aperta e faz um barulhinho engraçado. A brincadeira favorita é que o joguemos para ela buscar. Vive perdendo o ratinho debaixo dos móveis que não consegue pegar e fica insistindo para que nós o peguemos novamente.
Quando ela chegou, mudou tudo no nosso pequeno lar. De repente, tínhamos uma gatinha que nos seguia para todos os cantos, nos recebia quando chegávamos em casa, fazia massagem nas nossas barrigas e deitava aos nossos pés na cama, para fazer companhia. Ela nunca gostou de ser agarrada, mas ficava sempre pertinho, companheira.
A caçulinha, como já é de praxe, foi um “acidente”. Encontramos abandonada num posto de gasolina, com a patinha quebrada e não tivemos condições de deixá-la. Me apaixonei instantaneamente. Levamos no veterinário, tratamos como podíamos e hoje ela é a gatinha mais arteira, que pula, brinca, corre, se agarra na barra dos meus vestidos, morde meus dedos dos pés e canelas, dá um pinote e se pendura nas persianas, no sofá, nas cadeiras, em todo lugar.
Chameguenta, adora dormir em cima da gente, encostar o focinho no nosso nariz e lamber nosso rosto. Esfomeada, come de tudo, ração, pão, iogurte e até tomate. O que quer que estejamos comendo, ela quer. Evitamos dar comidas “de gente”, mas ela pede tanto que, às vezes, é impossível resistir. Imita tudo o que a outra faz, a segue por todo canto e aprende o fino da arte da danação. Dorme, dorme, dorme, acorda, dá dois passos, deita de novo e dorme mais. Se espreguiça, vira pro outro lado e mais sono. Quando acorda, tá elétrica, ninguém segura.
Sabemos que nossa vida seria bem mais organizada sem eles por perto, mas também bem menos divertida. Não precisaríamos dar banhos e remédios nos protegendo de sua fúria (e garras) nem limpar suas caixinhas de areia e certamente sobraria algum dinheiro, mas é uma subtração que não compensa.
Decidimos, há algum tempo, nunca comprar animais e embora tal resolução seja uma gota no oceano para essa indústria e muitas pessoas possam achar que não faz a menor diferença, temos certeza que faz bastante diferença na vida de cada um desses bichinhos e mais ainda na nossa própria. Um amor assim tão puro não se importa com pedrigree.
