CRA #2: Orelhão

Quando entrei na faculdade, tinham pelo menos uns 3 bares na rua da faculdade. Assim que eu entrei , com 17 anos, eu não tinha a malícia daquela gente toda que ficava no bar e subia pra metade das aulas, eu ia pra sala, sempre.

Faziam 2 ou 3 anos que estávamos juntos e dava pra sentir o medo que ele tinha de me perder pelo meu mundo estar crescendo e o dele não.

No primeiro dia, ele fez questão de me levar até a sala, escolher o lugar onde eu ia sentar e sentar do meu lado. Olhando agora, realmente só faltou fazer xixi em mim pra marcar o território, rs, mas na hora só vi amor e boas intenções, fiquei feliz por achar q ele me amava esse tanto.

Naquela época, os orelhões funcionavam e ele anotou o telefone de um orelhão próximo à faculdade, no caminho para o ponto onde eu pegaria o ônibus pra ir pra casa. A “condição” de manter as coisas bem durante todo o tempo que eu fazia faculdade, era ligar do orelhão, a cobrar, pra ele na hora que eu saísse e estivesse indo do ponto.

A partir do momento em que eu fizesse a ligação ele contaria o tempo que eu demoraria pra chegar em casa e com isso teria certeza de que não parei em lugar nenhum, não falei com ninguém, não o trai. Claro que o motivo da ligação não era esse, era “é pra eu me preparar pra te pegar no ponto, é perigoso”, percebe?! Ele estava pensando no meu bem e na minha segurança.

Curioso né?! Claro que haviam milhares de maneiras desse sistema ser burlado, é obviamente um sistema falho, mas nunca falhou.

Exceto uma vez.

Um dia eu sai mais cedo e como sempre, liguei pra avisar que estava saindo. Ele não atendeu. Liguei de novo, de novo e de novo. O que será que aconteceu? Raiva, medo, angústia, mais raiva, ciúme, medo, raiva. Você me atendeu depois da décima vez, quando liguei do celular.

Lembro de dizer que “estava na casa de uma amiga da qual a irmã tinha sido estuprada”. Na hora da raiva eu só pensava em como era mentira, como podia inventar uma desculpa tão deslavada. Por que essa menina não foi à polícia? O que você tinha a ver com isso?

Mistérios que eu não sei até hoje, bem como a verdade dessa história.

Mas, como você disse, a culpa foi minha. Eu saí mais cedo, eu liguei cedo demais, te atrapalhei, te fiz correr de volta pra casa pra me pegar no ponto, rs, péssima namorada, fiquei com ciúme à toa, imatura, insegura, burra. A culpa foi minha.

Se a irmã da pobre garota em questão foi realmente estuprada, não sei, nunca tive a oportunidade de conhecer pessoalmente nenhuma das duas, no entanto elas se tornaram presentes na minha vida a partir daí, mesmo sem sermos apresentadas.