os dramas da manutenção

às vezes nada acontece na horta. foi o frio chegar que parece que tudo ficou absolutamente parado. nenhuma planta cresceu, nenhuma praga atacou, nem chover choveu, e mesmo assim não era preciso regar diariamente, o que me fez esquecer por alguns dias que eu sequer tinha plantas na janela. todo dia de manhã o manjericão debochadamente do mesmo tamanho me dizendo que nada do que eu fizesse ia ajudar. uma tristeza quando nada acontece.

nesses períodos de marasmo, se abate sobre o hortelão uma profunda indiferença pela vida. falo sério. é bem tedioso ter nenhuma planta crescendo. logo a gente começa a duvidar de algumas coisas básicas: será que minha casa tem pegado sol de menos? eu deveria regar mais? falta fertilizante, nunca usei húmus, deve ser isso, eu deveria conversar mais com as plantas a terra já tá velha a culpa é do gato do frio do vento da umidade do vaso pequeno de tudo. a culpa deve ser minha. pausa. que desespero que dá uma horta que não cresce nem morre, meu deus. a gente dá uma pirada, sabe? mas nem sempre tem o que descobrir, na verdade.

num desses dias em que nada acontecia (e por isso não escrevi), resolvi fazer alguma coisa. era uma manhã fria de sábado e decidi que já era hora de plantar raízes. beterraba, escolhi. vou plantar beterrabas. 
coloquei um moletom velho por cima do pijama e fui comprar as sementes. antes de sair, lembrei que raízes iriam precisar de um vaso muito maior dos que os que tenho em casa. quanto custa uma floreira gigante? preciso de uma floreira enorme. e terra nova. troquei as pantufas por um tênis velho e saí em direção à agropecuária mais próxima de casa.
a floreira tamanho Enorme estava pelo valor de 37 reais. ou 67, não sei, mas era algo bem caro e que terminava com 7, com certeza. a terra era barata (?na hora eu não percebi, mas escrevendo agora, o quão estranho é comprar terra?). a moça da loja me aconselhou a comprar dois sacos de 5 quilos — já que a floreira era Enorme — e encontrei umas sementes de marca duvidosa que eu aceitei porque não tinha nenhuma possibilidade de sair pelo Centro com 10 quilos de terra e uma floreira Enorme catando sementes melhores. que risco, pensei, mas ok.

quando cheguei em casa e joguei exausta todas as sacolas no sofá, a floreira abriu em um acidente doloroso um dos meus dedos da mão direita. ótimo, pensei, agora não posso mexer na terra. mas acabou que em alguns minutos já estava tudo devidamente organizado na grade da janela, a terra mexida (raízes precisam de terra fofinha) e sementes plantadas. dei uma regadinha apática, bem-vindas, beterrabas, essas coisas que sempre faço quando tem uma nova planta em casa etc. alguma coisa me disse que eu tinha desobedecido a paralisação da horta fazendo todo esse fuzuê que claramente me avisou pra parar (a semente com marca estranha, o corte na mão e coisas assim). 28 segundos depois o gato literalmente cagou o vaso. (um novo sistema de segurança foi montado recentemente) (não consegui ficar braba)

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não é hora de plantar raízes, concluí. talvez não seja hora de fazer nada, na verdade, eu já devia ter entendido. e logo me contentei em voltar ao moroso trabalho de manutenção de uma horta onde nada acontece. o mais importante em épocas assim é respeitar ciclos, eu acho. e continuar regando. e conversando, adubando, acreditando etc. uma hora desatravanca. e dá até pra voltar a escrever,.

continua: