Sobre o dia que eu me senti uma estranha no ninho.

Hoje, segunda-feira, fui para o centro levar meu finado celular para a assistência, no momento mais movimentado da cidade, 15h.

Depois de deixado o celular na manutenção, com a esperança nascendo dentro de mim ao ouvir “meia horinha ele está pronto”, resolvi matar o tempo por ali, já que não valeria a pena voltar para casa e já em seguida sair.

Percorri algumas ruas, lotadíssimas, procurando algum lugar para sentar, já que até o shopping mais próximo estava entupido de gente.

Embaixo de um prédio comercial, há umas 2 quadras de onde eu estava, havia uma cafeteria, pequena, dessas que colocam as cadeiras na calçada e atrapalham o fluxo de pessoas. Resolvi entrar, o tempo passaria mais rápido caso tivesse um café como companhia.

Quando estava passando pela porta, vi uma placa de aviso, escrito em giz com os dizeres “TEMOS WIFI”, com a senha da rede e um desenho simpático de uma anteninha. “Opa!”, pensei, “é hoje que eu não saio daqui”. Pedi o café, um brigadeiro, e falei pra moça que aguardaria na mesa. Depois de ter colocado a bolsa e os cadernos na cadeira da frente, passei a mão no bolso da calça e senti um vazio. Meu celular não estava ali. Lógico, estava nas mãos do bom moço que traria-o a vida novamente, e provavelmente só estaria em meu poder uns 20 minutos mais tarde. Tudo bem, não era o fim do mundo. Resolvi não abrir o livro e nem o caderno, não era tempo suficiente para estudar. Então, restava observar as coisas ao redor, as pessoas que, apressadas, tomavam seus cafés e olhavam a cada segundo para o relógio com medo de perder a hora para suas tarefas que seguiriam o resto do dia.

No meio de todas aquelas pessoas lá, o que me chamou a atenção é que eu, em plenos 18 anos de vida, era a única que não estava com um celular/tablet/notebook em cima da mesa, mesmo que o café estivesse cheio de pessoas de diversas idades.

Meu café chegou, agradeci à moça e continuei observando. 90% das pessoas que estavam acompanhadas estavam olhando para a tela do eletrônico, vidradas, como se não houvesse outro ser humano à sua frente, cheio de histórias e momentos para compartilhar. O famoso “cafezinho do meio da tarde”, utilizado desde os primórdios da humanidade para o único fim de “vamos nos encontrar e jogar papo fora, dar uma descontraída no dia”, tornou-se superfulo. Era o que temíamos.

Olhei para o relógio mais uma vez, ainda restava tempo para voltar, pedi mais um café e quando a mesma moça trouxe-o para mim, me olhou, olhou para os meus cadernos, minhas mãos, minha bolsa, e por fim, soltou o pires e a xícara em cima da mesa, saindo com um enorme ponto de interrogação estampado no rosto. “Mas que diabos?!” pensei, olhando para tudo que ela tinha olhado à minha volta procurando algo de estranho, algum objeto que estivesse muito fora dos padrões de uma estudante que resolve tomar um café sozinha no centro no meio da tarde. O celular. Faltava. Olhei para a moça de novo, que já estava do outro lado do balcão, encostada de costas para o resto das pessoas presentes, usando o celular com os braços bem estendidos pra baixo, provavelmente com medo que seu chefe a visse fazendo aquilo no horário do expediente.

Terminei o café, enquanto dava uma última checada no relógio e nas pessoas que continuavam ali, algumas levantando ainda com o celular na mão, dirigindo-se ao caixa olhando pra baixo, pagando a conta e saindo sem conferir o troco, tudo isso pra não tirar os olhos um segundo da tela reluzente sobre sua palma.

Entreguei a comanda para o caixa, pedi um chiclets e uma água sem gás, depois de ter um diálogo de 15 segundos com “o café estava uma delícia”, que se encerrou com um “tenha um bom dia”, vindo de mim. Aí eu achei que o mundo explodiria. O cara do outro lado do balcão me olhou com tamanha indignação, como se cinco gerações de sua família tivessem sido xingadas por mim, em plena luz do dia. “Valeu”, ele respondeu, depois de alguns instantes e do mix de reações que passaram pelo seu rosto. Dei um sorrisinho amarelo e saí, trombando com a pessoa que adentrava à cafeteria, munida de um celular em sua mão direita e uma agenda de anotações na esquerda. Como era de se esperar, não era para a porta que ela estava olhando. Me desculpei e saí meio constrangida, olhando para os lados para não ser atacada novamente por um zumbi, com medo de ter o celular novamente em minhas mãos e virar mais um personagem insignificante da melhor imitação de The Walking Dead.

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