A Mulher das Entranhas

No seu plano não estava vencer.

Era. é. assim. coisa de sobrevivente.

Quem poderia dizer que seu coração voltaria a bater igual brisa quente.

Que ousadia sair assim da sombra,

como um jato de luz trazendo rajadas de areia do deserto.

Tudo solto pelo ar.

Porque agora ela é assim solta…

Faísca que dança a mulher.

Mulher. Fêmea de nascimento e livramento.

A vó dos ungüentos já a tinha preparado: é vem chuva forte, tempestade que corre sem firmamento. Segura nas anca e perna que nós vai balançar.

Trovão tremeu todo o roçado.

Tantas árvores se foram.

Tudo que era vida se acabou.

Jesus. Maria. José.

Fim.

Maria-mãe dos atentos trouxe o vento. Filete de ar entrou pela narina direita. Bastou pra acordar a mulher dos escombros de terra infinita.

No segundo em que o ar encheu os pulmões o tronco curvou para trás e, num gemido de alma, o êxtase da vida correu seu corpo.

Toma benção sua mãe, fia. Toma benção seus irmão.

É hora de trabalhar nas profundeza docê ou no céu do teu ventre.

Contam que assim ela ressurgiu dos mortos. Aquela que vive e morre entre mundos. No silêncio do coração escutam a mulher das entranhas cantar

ali. aqui. pode-se ouvir e chamar por ela.

Foto . Ju Nadin e Ali Cameron

Texto . Nanda Devi