Os números não mentem

Pesquisa Datafolha sobre as eleições presidenciais de 2018 / Arte da Folha de São Paulo

Entre 19 de abril — quando foi publicada pela primeira vez a pesquisa DataPoder360 — e 30 de abril — com a publicação do DataFolha — , foram menos de duas semanas e um punhado de pesquisas de opinião. Isso não acontece por acaso. Desde a primeira votação do impeachment de Dilma Rousseff que o país não se vê a frente com questões políticas tão fulcrais: a crueza da delação da Odebrecht; a reforma de previdência; a reforma trabalhista; a greve geral contra essas duas últimas. E tudo num espaço de tempo contido, com o noticiário indo do Emílio Odebrecht dizendo que propina sempre foi o status quo da política brasileira à votação da reforma trabalhista na Câmara sendo posta em regime de urgência duas vezes seguidas, até vencer.

As pesquisas captaram o momento e captaram a insegurança em que está o debate público. Inúmeras candidaturas à presidência se colocam de forma competitiva a um ano do pleito e essas inúmeras candidaturas vão desde balões de ensaio (Luciano Huck) a políticos que podem estar inelegíveis em seis meses (Lula).

Há muitas histórias que podem ser contadas com as pesquisas. O juiz Sérgio Moro ganhar de Lula num hipotético segundo turno — ainda que na margem de erro — é uma delas. As altas taxas de rejeição (segundo a Ipsos, Lula, Serra, Alckmin e Aécio têm rejeições de 64%, 70%, 68% e 76% respectivamente) é outra história, a do ocaso de uma geração de políticos. Os números estão lá, não mentem. Mas me interessam particularmente três histórias, que ao meu ver, contam bem o que acontece no pais em 2017.

A primeira delas é a história do governo de Michel Temer. Quando Temer assumiu a presidência, seu mote era fazer um governo refomista. Ajustaria as contas públicas após o desastre da gestão Dilma Rousseff e entregaria ao sucessor um pais mais equilibrado fiscalmente. Ao menos essa era a mensagem externa — após meses de contínuas delações premiadas, se tornou óbvio que o objetivo era também parar a Lava Jato, mas esse não é o ponto aqui — e assim tem sido tocada sua agenda econômica: deu a Fazenda para um economista de respeito no mercado e elencou uma série de reformas como prioritárias: PEC dos Gastos (já aprovada), Reforma da Previdência (em vias de ser votada em primeiro turno na Câmara), Reforma Trabalhista (aprovada na Câmara, agora no Senado).

A resposta econômica não é, no entanto, a única possível. Iniciado de um movimento contestável sob qualquer ótica, o que o legou uma impopularidade alta já de saída, o governo Temer teve de buscar força nos dois outros pilares presidenciais do país: o Congresso e o meio empresarial. Isso não é incomum e todo presidente pós-ditadura teve que trabalhar em cima desses apoios. Dilma mesmo, já no seu primeiro mandato, tentava compensar os problemas com o Congresso na alta popularidade e no apoio empresarial. O que é particular de Temer é que, dada sua fragilidade institucional, teve de dar ao empresariado todos os anéis. Só assim seria possível criar um alicerce alguma coisa seguro para sua presidência. Assim passou a ser urgente reformar a previdência — mas não mexendo nos direitos de determinados grupos de interesse — , assim passou a ser urgente reformar a legislação trabalhista.

Esta última talvez seja a reforma mais anedótica da situação em que se encontra a dependência da presidência de Temer em relação ao empresariado. Não só a reforma passou a margem de qualquer debate mais profundo na sociedade, visto ter sido abafada pelas discussões — em grande parte ruins, válido lembrar — da reforma da previdência, como foi alvo de manobra parlamentar para que fosse posta em votação em regime de urgência. A justificativa para a pressa era simples: com uma taxa de desemprego de 13,7%, era preciso uma flexibilização da legislação trabalhista que engessava o país e impedia o empresário de contratar. Passada a reforma trabalhista, os empregos voltariam, vaticinava o ministro da Fazenda.

Faltava, no entanto, combinar com os russos. Não só uma boa parte dos empresários não viu na reforma motivo para contratar (73% dos industriais paulistas acha que a reforma trabalhista não incentiva ou incentiva pouco a contratação), como, dentre os que viram motivos, a maioria (57,6%) avalia que o impacto seria de, no máximo, 10% de novas contratações. Em miúdos: era posta em regra uma legislação que não aumentaria as ofertas de emprego e que diminuiria os direitos dos trabalhadores.

O resultado dessa escolha são os números de Temer: 4% de aprovação segundo a Ipsos, 9% segundo o DataFolha, com taxas de rejeição de 75% e 61%, respectivamente. E se tais números são vistos como detalhes para o governo, na prática eles colocam em cheque o próprio governo: não só sua baixa popularidade afeta o Congresso — seu núcleo duro de deputados caiu de 402 para 235 — , como a insatisfação popular com as reformas já ganha as ruas de forma inequívoca. E isso tudo às vésperas da mais importante votação de seu governo, a reforma da previdência.

João Dória, Lula e Jair Bolsonaro

A segunda história que as pesquisas de opinião contam é sobre a ascensão da direita. Aqui temos dois tipos: o primeiro tipo é capitaneado pelo deputado Jair Bolsonaro, tendo por bandeira política o sentimento anticorrupção, seguido por uma bandeira de segurança pública. O segundo tipo é liderado pelo prefeito de São Paulo, João Dória, e tem como base a ideia da política como gestão. Nos jornais, ambas candidaturas têm sido chamadas com freqüência em termos tais quais antipolítica, outsiders ou similares. Prefiro taxá-las de anti-PT, porque esse parece ser o fenômeno do qual nasce a força das duas figuras. E prefiro taxá-las anti-PT porque é pela negação do petismo que é possível entender o que essas candidaturas trouxeram.

Comecemos por Bolsonaro. Ex-capitão do Exército Brasileiro, é deputado há sete legislaturas. Dentro do Congresso, cai no grupo de parlamentares conhecidos por baixo clero, ou seja, é daqueles sem grande relevância legislativa, sem cargo de liderança e sem grande influência dentro do próprio partido. Exemplo disso é sua performance quando resolveu se candidatar à presidência da Câmara dos Deputados, neste ano: só teve quatro votos, menos que o número de votos em branco.

Sua popularidade fora do Congresso, no entanto, é vigorosa. Tem quatro milhões de seguidores no Facebook, quase o dobro que o ex-presidente Lula. É de longe o político conservador mais famoso e mais relevante do país. E tem tal estatura graças à queda do PT, em primeiro lugar, e a queda dos políticos tradicionais, em segundo.

Isso não é difícil de demonstrar. Em 2010, quando se candidatou pela sexta vez à Câmara, Bolsonaro obteve 120 mil votos. Uma votação expressiva — foi o 11o mais votado — , mas ainda assim atrás de outros deputados mais famosos, como Garotinho (694 mil votos) e Chico Alencar (240 mil votos). Em 2014, quando a Lava Jato já avançava sobre o PT e a eleição de Dilma Rousseff balançava, Bolsonaro foi eleito com quase o quádruplo de votos (464 mil), tendo sido o deputado federal mais votado no estado do Rio de Janeiro.

Essa força eleitoral, no entanto, não se traduzia em força legislativa, conforme visto na sua votação para a presidência da Câmara. Mas o desprezo de seus pares serviu como combustível para um político que passou a se portar como a antítese de “tudo isso que está aí”. E em um quadro onde a Lava Jato parece atingir a todos que já fizeram política no país de 1988 para cá, tal estratégia acabou por ser acertada.

Os números de Bolsonaro nas pesquisas sobre a presidência impressionam. De míseros 4% ao final de 2015, tem hoje 15% das intenções de voto no DataFolha. No mesmo período, somente Lula teve crescimento tão expressivo quanto — e tendo como bagagem o fato de ter sido o presidente mais popular que o país já teve. Enquanto isso, os tradicionais adversários do PT naufragaram: Aécio Neves saiu 26% para 8% e Geraldo Alckmin caiu de 14% para 6%. Situação não muito diferente é dada na pesquisa do DataPoder360: em todos os cenários possíveis — foram testados três, com diferentes membros tucanos — , Bolsonaro galgava a segunda posição. Sua ascensão parecia desidratar aquele partido que havia sido o eterno o rival do PT, o PSDB. E é aí que surge João Dória.

Dória é um fenômeno político por diversos motivos. Primeiro porque saiu de um publicitário caricato, que vez ou outra surgia na televisão, para tomar de assalto o PSDB paulistano, desbancando o que parecia ser uma candidatura tranqüila de um quadro tradicional do partido — Andrea Matarazzo. Fez isso com o apoio do governador Geraldo Alckmin, mas também fez isso com a antipatia de bastiões do tucanato, como o senador José Serra e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Segundo porque não simplesmente ganhou a prefeitura de São Paulo. Fez isso com uma inédita vitória no primeiro turno, ganhando em toda a cidade, da periferia ao centro expandido, destronando até áreas consideradas históricas do PT. Terceiro — e para o que nos interessa aqui — porque conseguiu, em menos de 100 dias como prefeito, se cacifar como o provável candidato do PSDB à presidência da república em 2018.

Há explicações para isso e elas vão desde a incompetência dos quadros tradicionais do PSDB em retirar o PT do Palácio do Planalto — precisando de um impeachment contestável para tal — até o alcance da Lava Jato aos mesmos quadros tradicionais. Essas explicações ajudam também a entender a ascensão de Jair Bolsonaro no cenário nacional. E como num círculo, a ascensão de Jair Bolsonaro ajuda a entender a ascensão de João Dória.

Voltemos aos números das pesquisas: no DataPoder 360, o único cenário que prejudica a candidatura de Bolsonaro é quando Dória também concorre. Fosse o candidato do PSDB Alckmin ou Aécio, Bolsonaro teria 18% ou 19%, respectivamente. Quando o tucano é Dória, suas intenções caem para 14% — frente 13% do prefeito de São Paulo. No DataFolha o cenário é mais parelho, com Bolsonaro tendo 13% quando o candidato do PSDB é Dória e tendo 14% quando o candidato é Alckmin — os tucanos têm 9% e 6%, respectivamente. Mas o que mais impressiona — e interessa — são as taxas de rejeição: enquanto Aécio amarga 44% e Alckmin e Bolsonaro praticamente empatam na margem de erro (23% para este e 28% para aquele), Dória aparece com míseros 16%, a mesma taxa de rejeição do mais novo herói nacional, Sérgio Moro.

Não é difícil entender o que se passa aqui. Ao mesmo tempo que caem os grãos-mestres do PSDB, emerge como alternativa à direita Jair Bolsonaro. E ao mesmo tempo em que surge Jair Bolsonaro, João Dória surge como alternativa da alternativa, numa espécie de PSDB 2.0, com um discurso mais amigável ao mercado, com menor rejeição do eleitorado, ainda razoavelmente desconhecido — e por isso mesmo, com um teto eleitoral maior — e tão capaz quanto Bolsonaro de capitalizar o sentimento antipetista que se embrenha no debate público. Num cenário onde cada vez mais Lula e Bolsonaro se consolidam como atores políticos fortes paras as eleições de 2018, era necessário criar alguém capaz de parar um em primeiro turno e outro em segundo turno. Dória, ao que tudo indica, parece ser a cada dia mais o nome para isso.

A terceira história que as pesquisas contam é a história da volta de Lula de forma geral e a história do legado do impeachment, de forma mais específica. Porque ambas histórias se misturam a ajudam a entender um pouco os motivos que fazem com que um ex-presidente, cada dia mais envolto em escândalos de corrupção, consiga se manter competitivo eleitoralmente.

É bastante claro o dano causado pela Lava Jato ao Partidos dos Trabalhadores. O PT perdeu a presidência da república através de um impeachment, viu sua capacidade eleitoral encolher de maneira significativa nas eleições de 2016 (perdeu 2/3 dos prefeituras que havia conseguido em 2012) e, mais uma vez, teve grandes lideranças políticas presas por crimes de corrupção. Sob qualquer ótica, parecia que a trajetória do maior partido de esquerda do pós-ditadura chegava ao fim.

Isso era percebido nos números. Em abril de 2016, o Ibope dava que 65% do eleitorado não votaria em Lula para a presidência de jeito nenhum. Era uma baque e tanto para um político que havia terminado seu mandato com 80% de aprovação.

O avançar da Lava Jato, no entanto, mudou o panorama. Segundo a maioria dos analistas, a partir do momento em que todos os partidos minimamente competitivos se viram às voltas com casos de corrupção, o cálculo eleitoral mudou. Num cenário onde todos roubaram, todos roubam e todos vão continuar roubando, é melhor votar em que pelo menos deu algum ganho para a população em geral. E nisso, ainda hoje, Lula é imbatível.

Isso também é percebido nos números. Em março de 2016, quando acabara de ser alvo de uma condução coercitiva para depoimento na Lava Jato, Lula tinha 17% das intenções de voto no Datafolha. Nesse momento, Aécio Neves e Marina Silva tinham, respectivamente, 19% e 21%. Era o momento mais baixo do PT — e para muitos o momento que cristalizou de uma vez por todas o impeachment de Dilma Rousseff.

Passado um ano, um novo presidente e mais fases da Lava Jato, o país é outro. Lula foi de 17% a 30%, enquanto seus mencionados adversários caíram para 8% (Aécio Neves) e 14% (Marina Silva). Um crescimento vistoso para quem parecia ferido de morte. E isso, é importante ressaltar, sem que houvesse trégua da Lava Jato — e da mídia — para com o PT e/ou Lula. Conforme mostra levantamento do Poder360 quando da divulgação dos vídeos das delações dos executivos da Odebrecht, a nenhum político foi dedicado tanto tempo no principal telejornal do país quanto foi dedicado a Lula. A título de exemplo: ao atual ocupante do Palácio do Planalto foram dados 5min28seg, enquanto Lula teve dedicados 33min32seg. E nesse último aspecto que mora, talvez, um dos piores legados do impeachment.

Tabela com o levantamento do tempo dedicado à Lista do Fachin no Jornal Nacional / Fonte: Poder360

Quando Dilma Rousseff agonizava frente às manifestações de massa que tomavam as cidades brasileiras pedindo sua deposição, parte do argumento que vigorava em favor do impeachment era uma limpa geral do status quo político brasileiro. O mote era “primeiro a Dilma, depois o Cunha, depois o resto”.

Dilma, de fato, caiu. Cunha, como bom boi de piranha, também. Mas o resto ficou. Não só ficou como foi alvo de uma das maiores operações de bastidor para ser salvo. E o ímpeto anticorrupção que vigorava nas grandes manifestações minguou e as pautas ficaram difusas a ponto de não só não incentivarem adesão, como também virarem troça.

A mensagem que isso passou para uma parte do eleitorado — à esquerda, é preciso dizer — foi que, no fundo, o problema não era a corrupção. O problema era o PT. Só que quando a motivação ganha contornos partidários e ideológicos e não mais morais, o jogo muda. E para o eleitor petista desiludido que começava a pensar em uma re-fundação do partido, em novas alternativas de esquerda, votar em Lula passou a ser, novamente, o caminho mais lógico. Não é a toa que, faltando um ano para as eleições, Lula tenha conseguido novamente voltar ao patamar de 1/3 do eleitorado, como já era de praxe em todas suas outras candidaturas.

Ao fazer a aposta em um impeachment que foi posto em termos totalmente morais, a oposição esqueceu que o próprio teto era de vidro. E o avançar da Lava Jato sobre todos os partidos que já fizeram alguma coisa na República mostrou que, num sistema sujo, ganha quem já fez alguma coisa ao eleitorado. Assim explica-se os 4% de Temer e o ocaso do PSDB. Assim explica-se a ascensão de Bolsonaro e o fenômeno Dória. E assim explica-se como em 2017 ainda falamos em uma candidatura de Luís Inácio Lula da Silva.