“O mundo não vai acabar”, foi a análise do jornalista Fernando Rodrigues, criador do Poder360, sobre a lista de Fachin. Haverá mudanças na Esplanada, o Congresso tenderá a caminhar em passos de tartaruga, a reforma da previdência será mais lenta e a antipolítica ficará em alta. Mas Temer continuará no Planalto.

Rodrigues elenca dois grandes motivos para a continuidade do presidente. Em primeiro lugar, o seu discurso de sempre:

“Eu quero fazer as reformas. Acabar com o meu governo é o pior caminho. O atraso será muito maior. Tudo vai ficar para 2019. Ajudem-me a ficar na cadeira e tocar o programa de austeridade fiscal e de reformas”

Em segundo lugar, a falta de alternativas. Diz o jornalista:

“A lista de Fachin tampouco produz opções para uma eventual troca de governo. É improvável que as “powers that be” encontrem alguma alternativa a Michel Temer no curto prazo. Também não há, no momento, sinal de movimentos populares preparando grandes atos contra a atual administração federal”.

Em suma: a economia precisa ser ajustada e não há ninguém viável à vista. O sistema político balança, mas não cai.


“O país será forçado a decidir que tipo de democracia quer ser”, escreveu Malu Gaspar no subtítulo de seu post no blog Questões de Política, da revista piauí.

Será possível aprovar uma reforma política? Será justo que os líderes partidários, todos envolvidos com a Odebrecht, escolham os candidatos da proposta de lista fechada? Continuará o foro privilegiado? Serão as penas para corruptos mais severas?

Essas são algumas das questões levantadas pela jornalista. Porque o que as delações da Odebrecht revelam é a consagração do mantra político brasileiro: a corrupção sempre foi a regra do jogo. E a ressaca que isso provoca é a pergunta central que paira hoje no país: o que fará a sociedade brasileira com o retrato que se apresenta a sua frente?

Em suma: não é mais possível evitar o debate público de como é tocada nossa política. O sistema político está com as vísceras expostas.


“O impacto imediato é muito negativo, porque instaurou um clima amplamente antipolítico no país. A Operação Lava Jato vem sendo conduzida de uma maneira que coloca em suspeição a vida política”.

Essa foi a primeira resposta dada pelo cientista político Fabio Wanderley Reis à Folha, em entrevista publicada hoje. A preocupação do acadêmico é separar o joio do trigo, punir os corruptos, mas preservar os partidos, entender que não há caminho fora da democracia.

Já em outra pergunta, esta sobre o clima antipolítico, Wanderley responde assim:

“Nunca tivemos algo parecido com o ódio que vivemos neste momento. Nem mesmo na mobilização anticomunista que culminou no golpe de 1964. A relação desse ódio com a Lava Jato é inequívoca”.

Em suma: há um perigo real de quebra institucional. O sistema político está em frangalhos e não há o que ser posto no lugar.


“O custo reputacional para o governo será baixo. Já está precificado: é segredo de polichinelo que membros do governo e de sua base legislativa têm sido sobejamente citados em delações e investigados”.

Assim abre o comentário do professor da UFPE, Marcus Melo, sobre a lista de Fachin. E continua:

“Até agora o governo tem sido bem-sucedido e entra na história como o reformista acidental. A Lava Jato tem impulsionado as reformas porque tem produzido coesão na base: acuados, os parlamentares têm tido como estratégia dominante o apoio ao governo. Seu sucesso, aumenta suas chances de sobrevivência. Não há um governo ou mesmo núcleo potencial alternativo, daí os fortes incentivos ao apoiamento irrestrito às propostas do Executivo, mesmo propostas duríssimas. Só existe defecção quando há alternativa”.

O governo ainda teria uma vantagem: o silêncio das ruas, que ocorre menos por acertos do governo do que por atividade eficiente das instituições de controle.

Em suma: a crise faz parte das dores de desenvolvimento democrático. O sistema político está funcionando, ainda que aos trancos e barrancos.


- E aí, deputado? Tá na lista do Fachin?
- Pô, não tô de novo, pô, que decepção pra esquerda do Brasil! A petralhada vai chorar a noite toda hoje!

Esse foi parte do diálogo divulgado em vídeo ontem por Jair Bolsonaro em sua página no Facebook. Provável candidato ao pleito eleitoral do ano que vem, o deputado federal está hoje em segundo lugar nas intenções de voto (11,7%) de acordo com a última pesquisa eleitoral CNT/MDA.

Algumas posições atrás na pesquisa está o ex-governador do Ceará e provável candidato do PDT ao Palácio do Planalto, Ciro Gomes. Também fora da lista de Fachin, Ciro foi lembrado na mídia duas vezes hoje: primeiro por Carlos Melo, professor do Insper, ao citá-lo como força política à esquerda capaz de ganhar tração na hipótese de uma não-candidatura Lula. Segundo por Bárbara Lobato, repórter de Época, que tweetou isto:

Fechando a tríade de não-afetados pela lista de Fachin está João Doria, prefeito de São Paulo. Citado pelo jornalista Kennedy Alencar, que vaticinou que a candidatura tucana à presidência tende a cair no seu colo, Doria concedeu entrevista, em meio a sua viagem à Seul, dizendo que a abertura de inquéritos da Lava Jato desgasta políticos tradicionais, inclusive os de seu próprio partido.

Em suma: caem Lula, Aécio e Alckmin, sobem Ciro, Bolsonaro e Dória. O sistema político está se reconfigurando.