Passa boi…

Joesley Batista em depoimento à Procuradoria-Geral da União

O dia 17 de Maio de 2017 talvez seja, em alguns anos, daquelas datas históricas que contamos uns aos outros como marcos vividos. É provável que pais contem aos filhos o que foi vivenciar o dia, onde estavam, o que faziam, como receberam a notícia. No meu caso, eu me preparava para escrever quando resolvi dar uma última olhada nas notícias e me deparei com a — já clássica — reportagem do Lauro Jardim, no site d’O Globo, que abria com o título “Dono da JBS grava Temer dando o aval para compra do silêncio de Cunha”. Eram 19h30 de uma quarta-feira que, até o momento em que escrevo, parece ainda não ter acabado.

Os detalhes da reportagem d’O Globo já são de conhecimento nacional, mas nunca é demais recapitulá-los: o empresário Joesley Batista, dono da JBS, fez, ao lado de seu irmão Wesley e mais cinco executivos da empresa, uma delação premiada junto à Procuradoria-Geral da República. Na delação, gravou o presidente Michel Temer e o senador Aécio Neves — presidente do PSDB — em conversas comprometedoras. Com este, agendou um pagamento de 2 milhões de reais em propina que foi feito por intermédio de um primo do senador. Com aquele, conversou sobre compra de juízes e promotores, diminuição da taxa de juros do Banco Central, mudança nos quadros de direção de importantes autarquias da administração federal e manutenção de uma mesada dada ao ex-deputado Eduardo Cunha e o operador do PMDB Lúcio Funaro como cala-boca na prisão. Em relação à mesada, ouviu como resposta — já imortalizada nos grandes diálogos da República — do presidente “tem que manter isso, viu?”

O que se seguiu à publicação da reportagem foi o caos geral. A GloboNews cobriu a matéria como o epitáfio do governo, martelando a notícia durante toda sua programação noturna como um coveiro que martela os pregos do caixão. O Jornal Nacional, principal telejornal do país, reservou a Temer o mesmo tipo de cobertura que havia dado a Lula quando da delação da Odebrecht, em abril: mais de trinta minutos de cobertura negativa, com explícita ênfase na gravação entre o presidente e o dono da JBS. Parte da base governista no Congresso começou a desmoronar, com parlamentares pedindo abertamente a renúncia do presidente e partidos ameaçando ir para a oposição. Por fim, os poucos movimentos sociais que tinham ainda alguma empatia com o governo pediram sua cabeça sem grandes rodeios.

Os dias que se seguiram foram uma avalanche de notícias e os próprios jornalistas que cobriam a crise demonstravam isso fisicamente, com olheiras de quem mal conseguia desgrudar os olhos do celular e da televisão. Em certas horas, as reportagens narravam um governo morto — PPS abandona governo, FHC sugere renúncia, bolsa tem maior queda em nove anos. Em outras, contavam a história de um governo que respirava por aparelhos — PSDB mantém seus ministros no governo, Temer diz que não renunciará. Na quinta-feira, a divulgação do áudio entre Joesley e Temer, com inúmeros inaudíveis cercando as partes que tratavam de Eduardo Cunha, deu um alento ao governo. Mas na sexta-feira, a divulgação de todo o teor da delação premiada da JBS colocou novamente Temer nas cordas. O fim de semana viu negociações de bastidores que garantiram os recuos dos principais partidos da base, das manifestações programadas do MBL e do Vem Pra Rua e um pronunciamento de Temer que procurou mudar o foco do conteúdo do áudio para possíveis adulterações feitas por parte do delator — mudança de foco esta que, até agora, parece ter surtido algum efeito na opinião pública, uma vez que a história virou uma batalha central entre os jornais O Globo e Folha de São Paulo. Ao final de domingo, depois de uma reunião com 17 ministros, 6 senadores e 23 deputados, o governo havia ganhado algum fôlego para mais uma semana.

É difícil prever o que vai acontecer daqui por diante, sobretudo com a velocidade com que o status quo de Brasília muda. É possível que até a publicação deste artigo Temer tenha caído, é possível que não. É possível que o Congresso tenha aprovado a PEC para eleições diretas, é possível que a discussão tenha sido fechada em torno de um nome de agrado do Congresso pela via indireta. É possível que Nelson Jobim se torne presidente, é possível que FHC volte ao Planalto. A quantidade de variáveis em disputa no momento é enorme e qualquer desejo de previsibilidade é inútil. A única coisa que não é possível é negar o óbvio ululante: esta é a maior crise da República pós-88.


Há muito a ser dito sobre a crise deflagrada na quarta. Ela pode ser inserida na literatura que ainda há de ser escrita — talvez em alguns anos — sobre a grande crise brasileira que tem seu início em junho de 2013 e parece não ter encontrado seu fim até hoje. Para isso serão necessários analistas políticos capazes de pensar de forma macro, historiadores cercados de fontes primárias e, em especial, tempo para garantir o distanciamento necessário e a completude do início, meio e fim da história. Ela pode também ser inserida na já volumosa história das relações espúrias entre o capital político e o capital empresarial, seja este no ramo das empreiteiras, seja este no ramo dos bois. Quanto a isso, a revista Piauí, de forma geral, e a jornalista Consuelo Dieguez, de forma específica, têm feito um bom trabalho em mostrar como a república foi dominada por empresários com muito dinheiro e políticos com muita fome. Ela pode, por fim, ser inserida no colapso do sistema político que emergiu aos olhos de todos ao fim das eleições de 2014 e tem contado, mensalmente, com os acréscimos poderosos da Operação Lava Jato. Sobre isso, algumas conclusões já podem começar a ser traçadas — e já começaram, a ver pelas colunas de opinião de segunda-feira. Aqui vão três:

A primeira e mais óbvia é que o governo morreu. Desde quarta-feira, ficou muito difícil imaginar que este governo seja capaz de dar cabo à sua razão de ser: passar todas as reformas possíveis. Mais: seu maior trunfo político, a força legislativa, parece se esvair a cada dia que Temer continua a frente do Palácio do Planalto. Às escuras, os principais fiadores de seu governo já começam a discutir a transição política e a figura ideal para tocar o país. Às claras, as bancadas parecem rachar frente às demandas das lideranças partidárias de esperar o tempo certo para abandonar o barco. E essa espera já começa a causar os atritos que eram esperados: violência na leitura de parecer na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado Federal; violência no plenário da Câmara dos Deputados; violência nos protestos nas ruas de Brasília; violência no decreto presidencial que chama as Forças Armadas para conter manifestantes. A continuar assim, ficará cada vez mais difícil aos políticos que ainda não largaram o osso se explicar, frente à opinião pública, por que foram até às últimas conseqüências em defender um governo cuja única agenda, hoje, é não ir para a cadeia.

Manifestantes ateiam fogo em móveis no Ministério da Agricultura, em Brasília / Joédson Alves, da EFE

A segunda é que — para parafrasear os liberais — não há lei grátis e as delações premiadas, da Odebrecht à JBS, provam isso. Sempre há um troco, um 5%, uma mesada, uma conta no exterior. Construir estádios para a Copa do Mundo? Só com superfaturamento. Obras de infraestrutura? Só com propina. Crédito barato nos bancos nacionais? Só com retorno em doações aos políticos da base. Votar Medida Provisória que favorecesse determinado setor econômico? Só com abertura de “contas de crédito” para os partidos. Votar contra o impeachment de uma presidente? Só com 15 milhões para distribuir entre deputados. Fazer dobradinha no debate da TV? Só com 6 milhões no bolso. Havia dinheiro para tudo e para todos, independentemente de ideologia e partido. O capital financeiro e o capital político se envolveram de tal maneira dentro do sistema que dizer que os parlamentares “não me representam” não chega nem perto de descrever a situação. Os políticos e a população não se tocam, não se falam, não vivem no mesmo mundo.

A terceira e última é o colapso do sistema político erguido após o fim da ditadura. O sistema que nos deu o maior período democrático já vivido no país, mas que também nos deu dois impeachments — e contando. O sistema que nos deu os bons governos de FHC e Lula, mas que nos deu o mensalão e a Lava Jato. O que a delação premiada de Joesley Batista fez foi dar um tiro de misericórdia num arranjo político que caducava há anos. Não é a toa que, desde quarta-feira, as inúmeras lideranças políticas de quem se esperaria alguma luz neste momento de confusão não conseguem parar de bater cabeça em indecisão. Porque o golpe que a delação deu não foi só em Temer, não foi só no PMDB, não foi só no governo. Foi em todo o sistema que o ergue. Contaremos aos nossos filhos sobre o dia 17 de Maio não só por Temer e não só por Joesley, mas acima de tudo por isto: porque foi ali que o sistema acabou.