What's left?

Li nesse fim de semana dois artigos interessantes sobre o futuro da esquerda. O tema tem aparecido com alguma ocorrência em boas publicações, sobretudo após a eleição de Donald Trump e o recrudescimento de uma direita populista na Europa — sendo o Brexit o exemplo mais palpável.

Um deles é da Sheri Berman, professora de ciência política da Universidade de Columbia e uma das boas pesquisadoras sobre social democracia. O argumento dela se centra em dois eixos, basicamente: a crítica à terceira via e a crítica à esquerda identitária.

Sobre a primeira, ela diz o seguinte:

In contrast, during the late twentieth and early twenty-first centuries, social democrats offered either rearguard defences of socioeconomic policies that may have made sense decades ago but which are now out of touch with the realities of a changing global economy, or else watered-down versions of neoliberalism (such as the English “Third Way” or the German “Neue Mitte”) that left many citizens wondering why they should bother to vote for the social democratic or centre-left at all.

Sobre a segunda, isto:

This emphasis on the “politics of recognition” — as opposed to the centre-left’s traditional emphasis on the “politics of redistribution” — was bad for the left and bad for democracy. It led many intellectuals away from a focus on economic issues and fragmented the left in a way that makes it hard to build majority coalitions and win elections. It also makes it almost impossible to generate the social solidarity or shared sense of national purpose that is necessary to support the rest of the centre-left agenda or healthy democracy more generally. And of course, a stress on the primacy of racial, religious, or sexual identity over class or even national identity, along with the implicit and often explicit denigration of those worried about the rapidly changing nature of their societies, has also helped to drive many voters to the nationalist, populist right.

Berman não oferece nenhuma solução exata ao problema, mas aponta — e com razão — que a direita populista conseguiu se aproveitar do vácuo da centro-esquerda exatamente nesses dois aspectos. Não parece exatamente difícil enxergar isso: a globalização foi ruim para a classe média das democracias avançadas — como mostra o gráfico abaixo — e a disputa cultural avançou em uma direção em que essa mesma classe média perdeu o senso de pertencimento a algo — quem quiser se inteirar mais no tópico, recomendo a conversa do J. D. Vance com o Ezra Klein aqui.

O gráfico, já clássico, do Branko Milanovic sobre quem ganhou com a globalização

O segundo artigo, “What’s Wrong", foi escrito por Hanzi Freinacht para o site Metamoderna — que parece ser o blog dele. Procurei por mais credenciais do autor, mas não achei nada de muito relevante. Consta na sua bio, no próprio site, que ele escreveu alguns livros sobre social democracia que serão publicados em breve — algo a se observar.

De todo modo, seu artigo é bom e segue uma linha muito similar a do artigo da Sheri Berman, ainda que de forma um pouco mais extensa e aguerrida. De novidades, pontos sobre o pensamento anti-tudo da esquerda — e a falta de uma agenda propositiva -, posicionamentos do que ele chama de “game-denial” e a armadilha da justeza moral.

Desses três argumentos, discordo dos dois primeiros e concordo com o último. O anti-tudo até existe, mas parece mais um espantalho. Nas boas discussões há proposição — e isso vale tanto para a terceira via quanto para a esquerda identitária. O game-denial segue a mesma linha: a esquerda não nega que existirão perdedores. Ela só quer que não sejam os mais marginalizados — ou, ao menos, quer mitigar o impacto sobre esses.

Já sobre a justeza moral, tendo a concordar com o ponto levantado. Diz Freinacht:

A lot of Leftists end up in the trap of righteousness: a paralyzing condition where personal moral superiority takes primacy over actual political results. Too preoccupied with being perceived as the “good guy”, and feeling “empowered” by telling everyone else that they are wrong or outright “evil”, it often results in people sitting in their ivory towers just being “right” about everything but not accomplishing anything. As any social theorist knows, there is nothing wrong with ivory towers per se; you just have to build them in the right historical spots. Unfortunately, moralism often hinders such placement and they are built at safe distance from political and economic reality.

O argumento é bom, mas vale aqui uma ressalva: nem toda esquerda consegue se enquadrar aqui. No Brasil, por exemplo, é fácil ver tal comportamento no PSOL, mas mais difícil enxergá-lo no PT — ou em alas do PT, ao menos.

No mais, fica a recomendação de ambos artigos. O da Sheri Berman é melhor e mais redondo, mas o do Freinacht cospe críticas interessantes também — o que a esquerda anda, cada dia mais, precisando.