Horses! Horses! Horses!
Algumas músicas após anunciar que Cristo havia morrido mas não pelos pecados dela, Patti começa outra canção com um poema.
“The boy was in the hallway drinking a glass of tea. From the other end of the hallway a rhythm was generating. Another boy was sliding up the hallway. He merged perfectly with the hallway, he merged perfectly, the mirror in the hallway”.
É uma voz calma que vai ficando mais rápida a medida que o poema avança. Sabe como os trens começam a chacoalhar a medida que ganham velocidade após sair da estação? “Started crashing his head against the locker, started crashing his head against the locker, started laughing hysterically. When suddenly Johnny gets the feeling he’s being surrounded by horses, horses, horses, horses!”. As palavras disparam uma atrás da outra como pancadas. O som crescente toma a forma de uma manada de cavalos disparando. Sabe como é assustador ver o disparo de uma manada de cavalos? O som dos cascos é infernal, castigam o chão e enchem o ambiente em um terror absoluto. No fim do verso eu já estou suando e sentindo minha mandíbula abrindo e fechando sem parar.
Eu conheço a sensação. Senti pela primeira vez aos 15 ou 16 anos quando escutei Search and Destroy (Iggy and the Stooges) tocando como música de fundo de um vídeo onde aviões passavam despejando napalm em algum lugar. Napalm parecia o próprio inferno, acho que era o inferno. O som machucava, era uma convulsão. Lembro que no vídeo as explosões de fogo faziam curvas no ar, anéis de fumaça preta. “Street walking cheetah with a heart full of napalm”. Era mais do que explosões, mais do que uma cena daquelas, era algo a ver com o interior, sabe? Não consegui me manter quieto nos dias seguintes ao escutar a música, estava sempre me chacoalhando, suando febril. Eu não grito, raramente grito. Era como se um zumbido tomasse conta de toda a minha caixa craniana, batidas percorrendo o tronco e choques se espalhando pelos membros, vrrrrrrrrmmmmmmm. Era impossível ouvir sentado, era impossível querer se poupar. Por que você iria querer se poupado disso?
Eu já estou completamente entregue no momento em que Patti berra “Do you know how to pony like bony maroney? Do you know how to twist? Well it goes like this, it goes like this!”. Ainda não me recuperei do mantra hipnotizante de “Horses! Horses! Horses!”. Poderia repetir isso o dia inteiro sem parar. Uma vez eu li que Patti dizia: “Você sabe que quando eu cantava ‘Do you know how to pony (mexer)’ eu não estava falando de dançar né?”. É puramente diabólico, vindo de todas as direções, sem tempo para respirar.
Na capa do disco Patti encara sem expressão nenhuma. O cabelo parecia ter sido cortado a tesouradas em casa. Patti se apaixonou por poesia ao ver a capa de um livro com o retrato de Rimbaud. “Go Rimbaud! Go Rimbaud!”. A capa de Horses (1975) é provavelmente o retrato mais bonito que já vi de alguém, é agressivo mesmo que no rosto não apareça expressão alguma.
O efeito é semelhante aos picos de anfetamina, se você sabe o que é um. Como se fosse morrer se não me mexesse. Como se fosse morrer se não botasse tudo para fora, igual a febre. “Got to lose control, got to lose control, got to lose control and then you take control”. Você TEM que perder o controle. Tem que se mexer como se estivesse possuído por mil espíritos e talvez esteja. Dançar com raiva é o melhor jeito de se mexer, movimentos febris, pra frente e pra trás, sobe e desce como um robô, como se algo estivesse para ser expurgado arrancando junto tudo que está dentro. É isso, você tem que arrancar tudo de dentro.
Quando o poema volta tudo se acalma lentamente, como se um trem estivesse parando. Ele ainda pode te esmagar. “The waves were coming in like Arabian stallions gradually lapping into sea horses”. O som volta de repente para te sacudir mais uma vez antes de diminuir de vez e acabar.
Lembro que uma vez uma tia minha descreveu a tarde em que um dono de cavalos que morava próximo morreu. Ele tinha carroças, criava os bichos no quintal. Quando morreu, o tempo estava fechado. Ela disse que após a morte dele todos os cavalos inexplicavelmente entraram em pânico e saíram em disparada pelas ruas, era aterrador. Horses! Horses! Horses!
